A produção do desencanto – Notas sobre tecnologia, política e cultura

Com ilustrações de Eloar Guazzelli

Revista Página 22

 

Como o modo “hacker” de agir, ao achar e ocupar as brechas dos sistemas, pode mudar o mundo desiludido com as promessas da democracia, do capitalismo e da justiça social

As ilustrações dessa reportagem são obras de Eloar Gazelli
As ilustrações dessa reportagem são obras de Eloar Gazelli

O blecaute das grandes corporações funcionou por enquanto. Os projetos Sopa e Pipa [1] foram retirados da pauta do Congresso norte-americano. Mas ainda paira a ameaça de regulação da internet com a justificativa do combate à pirataria e a proporção que o debate alcançou resulta em oposição, mas também em pressão para que outros países avaliem uma conduta parecida.

[1] Stop Online Piracy Act (Sopa), ou Lei Contra a Pirataria Online, eProtect intellectual Property Act(Pipa), ou Lei de Proteção à Propriedade intectual

O jogo de forças põe na corda bamba a previsão do filósofo da cibercultura Pierre Lévy de que, condicionado pela mídia digital, o espaço público do século XXI será caracterizado por maior liberdade de expressão, oportunidade de escolha das fontes de informação, além da livre associação em comunidades, grafos de relações pessoais ou conversas criativas que florescem na rede (acesse aqui). Mas a aflição pode arrefecer – não sumir –, se considera- da a essência hacker: caminhar pelas brechas.

“Invadir um sistema é encontrar uma brecha; o sistema fecha a brecha e o hacker encontra outra, e assim por diante, estamos sempre reocupando”, define Pedro Markun, um dos fundadores da Casa da Cultura Digital em São Paulo, o templo aberto dos coletivos criativos em constante experiência para novos usos e compartilhamento do conhecimento – é outra leitura pertinente para a palavra “hacker”.

Gilberto Gil também endossa a urgência de movimento e atenção quando o assunto é a ameaça à liberdade digital: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”, espalhou o músico por aí.

Pedro Markun faz parte da rede Transparência Hacker, uma lista de discussão e ações formada por 860 pessoas para uma nova forma de fazer política. A Transparência opera na direção da alfabetização para a inteligência coletiva. Se não basta leitura de jornais e livros para um cidadão consciente, quem vai estimular a capacidade de estabelecer prioridades, selecionar fontes, filtrar informação, categorizar e classificar dados, característica dos participantes da nova esfera pública, como também nos lembra Pierre Lévy?

E, antes da interpretação apressada de que se trata do gueto jovem da classe média, ou coisa de nerd, Cátia Kitahara, fundadora do braço brasileiro do WordPress, o programa livre mais usado para criar blogs e sites, lembra que a periferia é um oásis do hackerismo, desde os gatos de energia elétrica ou a proliferação insuspeita de lan houses, ou celulares multimídia que permitem que a informação seja produzida e trafegue sem amarras.

“A cultura hacker não é um fenômeno de classe. Está próxima do dia a dia dos excluídos, da periferia, e é uma arma contra sistemas fechados que privilegiam alguns. Acontece que a palavra ‘hacker’ ainda está associada à tecnologia da informática”, diz Cátia. Ela também integra o Hacklab, umhackerspace paulistano no qual se preza a autogestão, o compartilhamento e a experimentação.

Nessa direção do que tem mudado na vida pública, pode-se arriscar que tal fuçador profissional é fruto do desencanto com sistemas de governo, crenças, partidos e regimes. Ou, como deduz o filósofo Vladimir Safatle no artigo “A década do desencanto”, publicado na Folha de S.Paulo, os novos personagens que entraram em cena na política mundial e transformaram 2011 no ano das revoltas sabem que todo verdadeiro movimento sempre começa com a mesma frase: “Não acreditamos mais”. Desencanto, nesse caso, perde seu caráter pejorativo para impulsionar ações concretas, menos arrogantes e com o espírito da partilha.

E foi com a crença no impossível que o Transparência Hacker conseguiu materializar seu projeto mais ambicioso e ironicamente simples: o Ônibus Hacker. Um antigo ônibus de banda, comprado, transformado e adaptado para percorrer pequenas cidades brasileiras, como uma grande celebração, aportando nos coretos mais distantes, com toda sua potência colorido-simbólica, e dotado das ferramentas humanas e tecnológicas para interagir com o acaso.

Na bagagem, fazer crer para qualquer cidadão que seu poder não é uma fábula, mas está, por exemplo, em propor projetos de lei diretamente no âmbito municipal – com 5% de assinaturas a proposta vai à votação direta, explica Pedro Markun –, cobrar transparência nos gastos públicos ou montar uma rádio para sua comunidade.

A tecnologia, nesse caso, é informação decodificada. Não a que chega aos borbotões e acaba gerando efeito contrário, porque o sujeito não consegue distinguir o que lhe serve. Mas a informação que pressupõe o ouvir primeiro.

O Ônibus Hacker foi financiado pelo Catarse (veja texto no fim da página), plataforma colaborativa que gerou R$ 56 mil vindos de 464 doadores – outra artimanha da cultura digital que tem dado vazão a projetos democraticamente, sem intermediários, por aclamação de muitos. A necessidade de sair do privilegiado circuito de São Paulo e alcançar outras plagas norteia a estrada do ônibus para este ano, conta Markun.

Existem pedidos para um rolê do ônibus em João Pessoa e Curitiba, festivais, eventos e grupos. “Teve gente que abriu o jogo e disse, claramente: “Veja, não sabemos com proceder nas próximas eleições, o que deve orientar nossos votos, queríamos vocês aqui”, revela Markun.

peixes2EMBRIÃO E INOVAÇÃO

No porão da mesma Casa da Cultura Digital, outra turma maquina invenções em um espaço aberto, nos quais quem tiver interesse em testar tecnologias, criações inovadoras de construção de hardwares e softwares pode participar. O Garoa Hackerspace já construiu coisas tão distintas quanto uma impressora 3D ou umaparelho para você desenhar e
fazer música ao mesmo tempo
.

Trata-se de um embrião do que poderiam ser centenas de núcleos de pesquisa e inovação no País, na visão de Pedro Abramovay, curador do Festival Cultura Digital – o evento que, no fim do ano passado, pôs em evidência e comemorou ações tão distintas e complementares como o Ônibus Hacker, as invenções do Garoa, as ações do movimento Occupy, e reuniu mais de 6 mil pessoas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em debates, mostras, exibições, experimentos e oficinas.

A alguns meses das eleições municipais, Abramovay acredita que as plataformas dos candidatos podem contemplar projetos como a criação dos hackerspaces, na perspectiva de serem mecanismos eficientes e baratos de incentivo à inovação e pesquisa. “São Paulo, por exemplo, poderia construir espaços, com um mínimo de equipamento, para serem geridos coletivamente, nas mais distintas regiões da cidade. Poderia virar a capital mundial dos hackerspaces. Haddad, Chalita, Bruno Covas, prestem atenção nisso!”, convoca o curador, em artigo publicado no seu blog.

As cidades e os estados, sobremaneira, têm um papel mais imediato e balizador na perspectiva da nova política, emergente da cultura digital. Merece ser falado aos quatro cantos o que fez Porto Alegre ao criar o espaço de colaboração cidadã www.portoalegre.cc.

Cada um dos 82 dos bairros estão representados na plataforma, uma cópia fiel e digital de como a cidade funciona. Ali o morador pode navegar pelo mapa e publicar conteúdos diretamente em redes sociais como Twitter, Facebook, YouTube e Vimeo, falando de situações que lhe tocam na cidade. Pode convocar seus pares para apoiar seus projetos, e falar direto com o poder público, entre outras ações.

Inspirado no conceito de wikicidades, é exemplo de inovação bem-sucedida em que o cidadão interfere, acompanha, cobra. E também o Cidade Democrática, a plataforma que propõe fazer o link entre ONGs, governos e cidadãos em torno de propostas concretas, caminha com os novos ventos. As questões a serem resolvidas pelos governos, na proposta do Cidade Democrática, provêm das pessoas.

O que falta, para espanto, é que as pessoas realmente digam mais do que precisam, revela Rodrigo De Luna, que integra o grupo. “Para isso, contamos com os jovens da geração digital e com a comunidade hacker para abrir caminho”, diz. “O Cidade Democrática está fundado na lógica hacker, que pressupõe que todos podem acessar e usar o que está disponível, porque o valor está no uso e não na propriedade das informações”, acrescenta.

Outro “wiki” mais conhecido, o Wikileaks passa por maus bocados com o bloqueio de suas contas pelas principais instituições financeiras. Mas, fiel ao princípio hacker, o projeto tem encontrado brechas para receber o dinheiro dos doadores por meio de parceiros/instituições pulverizados pelo mundo. Em São Paulo, um local de doação é a Casa da Cultura Digital, que recebe cheques de doadores para o Wikileaks.

O VELHO E O NOVO

Mas até onde este “novo mundo” se encontra com o velho mundo, dos partidos, vereadores, juízes, foros institucionalizados que ditam as regras e determinam o futuro da sociedade? Pedro Markun acha que o fim dos partidos está próximo. “As instituições estão sendo desmanteladas por descontentamento, novas coisas sur- girão, talvez um ‘occupy eleição’, por exemplo”, arrisca. Já Leonardo Brant, produtor e jornalista que criou umreality show virtual de economia criativa [2], pensa que a mudança demanda tempo. “ É preciso haver diálogo entre o novo e o velho. Para haver eficácia política é preciso chegar às instâncias de representação, aos partidos, ao sistema eleitoral. O ativismo precisa entrar no mundo real, nas relações interpessoais. Precisa sair do Second Life”, opina.

O projeto Empreendedores Criativos selecionou sete empreendimentos criativos. O objetivo é analisar e desenvolver de forma colaborativa cada uma dessas ideias, como um reality show que faz com que as dúvidas e informações no decorrer de seu processo alcancem todos os interessados

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula criaram seus institutos independentes como forma de pensar a vida pública na perspectiva da política 2.0 [3], tal como a senadora e ex-candidata à Presidência Marina Silva está à frente do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). São todos, como o ex-ministro Gilberto Gil, entusiastas da cultura digital, o que não deixa de ser, cada um a seu modo, um hackerismo sobre ideias frescas e aplicáveis em gestação nesse novo cenário.

[3] A expressão é usada para caracterizar o envolvimento colaborativo dos cidadãos nas plataformas dos governos, aproveitando a inteligência coletiva e o potencial que a internet oferece para a troca de informações e ideias

Uma avalanche sedutora de experimentação, de risco e de ativismo pode considerar essencial para um mundo melhor, por exemplo, a criação de uma plataforma digital em que os sujeitos estejam livres para depositar suas paixões e encontrar aliados para elas. Explico.

Daniel Waismann, programador e empreendedor digital e também um apaixonado por tango, levantou-se e disse acreditar que o mundo será muito melhor caso as pessoas tenham onde exercitar suas paixões. “Eu proponho uma plataforma digital na qual as pessoas possam falar sobre suas paixões, encontrar pessoas com os mesmos desejos, alugar um espaço e lá exercitar o que gostam.” De pronto, o empresário Oswaldo Oliveira, da Empresa Teia, levantou-se e disse: “Pode desenvolver a plataforma, eu serei seu sócio financiador”. A cena ocorreu em São Paulo durante o Encontro sobre Tecnologia e Ativismo, organizado pela Avina, fundação criada por um suíço para o desenvolvimento sustentável na América Latina.

p3O LADO SOMBIO DA FORÇA

Mas o mundo digital também tem suas sombras e não seria exagero dizer que o poder massivo e aparentemente natural das mídias sociais de grandes corporações digitais, como Google, Facebook e afins, vem na contramão do que propõe a cultura hacker, adepta de software livre e redes sociais abertas.

Evgeny Morozov, pesquisador-visitante da Universidade de Stanford e autor de The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom (algo como “A ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet”), publicou um artigo assustador sobre o que se trama neste ambiente e sobre o que não fomos consultados.

“Estamos entregando nossas vidas, fotos de família, memória, histórias e relações sociais a serviços cômodos (ao usuário). Isso é muito ingênuo”, afirma Leo Germani, do HackLab.

Ainda mais cômodos porque, pelo conceito de “compartilhamento sem fricção”, o que seria a próxima tacada do Facebook, o site não mais “perguntaria” ao usuário se ele quer compartilhar um link, uma música, um texto, mas faria isso automaticamente entre nossos pares, nos poupando dos botões de “curtir” ou “descurtir”. Como um big brother, daria conta de tudo o que fazemos on-line e, não bastasse, distribuiria essa informação a quem bem entendesse.

Dessa maneira, delata o artigo de Morozov, estaríamos cada vez mais numa bolha, fazendo circular interesses comuns, sem lugar para o acaso, a surpresa ou o que estivesse muito fora desse gosto médio.

“É hora de percebermos que o Facebook está eliminando a alegria, o caos e a natureza idiossincrática da internet, e substituindo tudo isso por sorrisos artificiais e eficiência tediosa (e, portanto, ‘sem fricção’)”, diz o pesquisador, que vê nisso um desastre ao pensamento crítico.

Essa tendência aparece ainda em dois bons vídeos. O primeiro, do Tedx Concordia, trata da perda de “serendipidade”, um neologismo para denotar descobertas ao acaso. Lenny Rachitsky mostra, então, como a vida seria muito pior sem essa abertura para o inesperado. No segundo, Eli Pariserdiscorre sobre as “bolhas de filtros” a que estamos submetidos quando navegamos pela internet, dirigindo nosso olhar e evitando que entremos em contato com o contraditório e o inesperado.

Mas, com o alcance indubitável da mídia social, ficar de fora é mesmo uma boa? Pedro Markun acha que se trata de uma relação de amor e ódio. As mídias sociais são os principais canais para divulgação das ações culturais, do ativismo e de propostas no âmbito da cultura digital.

Por outro lado, existe o pseudoativista, detonador e apoiador de qualquer causa na rede, mas que mal se move da cadeira para uma ação na vida real. “Um exemplo claro disso pra mim foi um evento no Anhangabaú. Vi várias pessoas compartilhando informações do evento, mas quase ninguém ia por causa da chuva. Elas achavam que estavam fazendo alguma coisa pelo simples fato de compartilharem a notícia, mas praticamente não fizeram nada”, conta Cátia Kitahara, do Hacklab. (mais sobre o assunto em entrevista com Márcia Tiburi)

A revolução digital não tem volta, mas há distintos pontos de vista sobre o controle da internet pelas grandes corporações. Leo Brant, do Empreendedores Criativos, acha que os velhos vícios serão substituídos por novos vícios e que o poder concentrador dos grandes conglomerados de mídia tende a aumentar com as novas tecnologias. “Não acredito numa subversão total do padrão de consumo de informação”, afirma.

Já Rodrigo de Luna, do Cidade Democrática, pensa que as formas de controle terão de se aprimorar muito para dar conta do salto evolutivo da web. “Essa tensão sempre vai existir, mas hoje é muito mais difícil controlar.” E assim voltamos às brechas, do início desta reportagem, aquelas às quais os peixes urbanos e coloridos de Eloar Guazelli, em meio ao concreto vertical, fazem uma bela analogia.

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Crowdfunding– semente de uma nova lógica de mercado?

Uma das recentes ideias mais bacanas e bem-sucedidas foi a proliferação e afirmação dos sites de financiamento colaborativo, ou crowdfunding. Sem intermediários ou apoio de órgãos públicos ou institucionais, ocrowdfunding consegue “jogar pra galera” uma seleção de propostas interessantes e colocar sonhos de pé, viabilizando-os financeiramente. Cabe ao internauta a decisão de contribuir ou não para bancar o que é proposto.

Essas plataformas encaixam-se no que Marina Silva chama de “democracia prospectiva”, ou seja, buscar a democracia pelas frestas, por onde é possível, em cima da criatividade que a multitude oferece.

No Brasil, o Catarse, um dos mais conhecidos, foi a ferramenta para viabilizar um documentário sobre a construção da Usina de Belo Monte, o maior projeto que passou pela plataforma, apoiado por 3.429 pessoas, atingindo o valor de R$ 140 mil.

Rodrigo Maia, um dos sócios do Catarse, acha que o crowdfunding é apenas a ponta do iceberg de toda uma nova lógica de mercado que surge. “São sintomas de algo que está por vir, advindo da necessidade que as pessoas têm de se relacionar de forma mais direta e personalizada, sem intermediários.”

Sobre a possibilidade de uma bolha à vista, com a multiplicação desses sites e um possível espectador bombardeado e confuso com tantas opções, Rodrigo diz que, “no futuro, veremos o sistema de crowdfundingflexibilizado, com uma série de derivações, e é isso que impedirá o esgotamento do modelo”.

Do total de 1.013.725 pessoas que já apoiaram algum projeto no Kickstarter, pioneira e maior plataforma de crowdfunding existente, 84% só ajudaram um único projeto. Do restante, 16% são apoiadores recorrentes, e equivalem a 166.823 pessoas.

Os dados mostram que a grande maioria das pessoas só vai apoiar projetos de uma pessoa conhecida, na qual elas têm confiança e acreditam no trabalho, o que é inerente ao sistema do crowdfunding, segundo Maia. Mas diz também que estes 16% que apoiam mais de um projeto, de uma forma ou de outra, acreditam no sistema, e o enxergam como uma alternativa importante. guardadas as proporções, as estatísticas se repetem no Catarse.

A avaliação é que o potencial de crescimento do crowdfunding é enorme para os próximos anos. Um longo caminho para ferramentas que começaram quase ingenuamente, juntando gente que desejava ir a um show, por exemplo, como é o caso do Queremos ou o da simpáticaVaquinha que reproduziu on-line o método mais singelo e conhecido de “passar o chapéu”.

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O Brasil é feitiço

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Por Ana d´Angelo e Amália Safatle/Revista Página 22

Tem que saber disso.  A rima rítmica na fala de Gilberto Gil está no seu entendimento do que é Brasil.  Na leitura do músico, quando José de Anchieta colocou os índios no colo, em profunda manifestação de afeto, reforçou um traço definidor da nossa sociedade.  Traço este que havia começado a se delinear na formação de um reino europeu diferenciado.  Pois, enquanto os demais exploradores foram guiados pela ambição material e pela busca de acumulação de riquezas, o projeto de expansão territorial dos portugueses fundamentou-se “no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência”.  Degredados que aqui deram início à miscigenação eram considerados criminosos porque fugiam da Inquisição, diz Gil nesta entrevista.

Assim, o Brasil se fundou no ideário de liberdade e espiritualidade, reavivando o mito de que esta é a terra da promessa, do encantamento, do conto de fadas, dançado nos Carnavais – com todos os problemas que isso também acarreta.  Um lugar que, para contragosto de muitos, subverte o modelo clássico europeu e tem nas mãos um pacote estratégico a oferecer a um mundo carente: afeto.

Mas que não está condenado a ser alguma coisa, e sim fadado a ser.  Lembrando que o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço, o fado é uma canção.  “O fado é o que a gente faz”, diz o bruxo Gil.

Na sua opinião, o que melhor a sociedade brasileira tem para oferecer ao mundo?  O que o Brasil produz que faz a diferença? O Brasil é uma nação que resulta de uma série de coisas particulares, próprias, de que outros povos não resultaram.  Isso para tratar do Brasil que depois leva este nome e se torna a nação configurada neste território, com presença dessas múltiplas vertentes étnicas.  A ameríndia estava aqui já, o português que chega, o africano que é trazido depois.  A formação da sociedade brasileira, e depois o Estado brasileiro: primeiro o Estado monárquico, depois o imperial, depois o republicano e, em meio a tudo isso, a sociedade foi marcando seu dia a dia dentro dessas possibilidades de configuração e com todos esses elementos.  O português chegando aqui, começando a miscigenação com os índios, depois com os africanos e criando essa nação mestiça, mameluca, cabocla…

Então é a diversidade que faz a diferença? A diversidade existe em qualquer lugar.  A diversidade brasileira é esta.  É diferente da diversidade americana, é diferente da Europa gaulesa, que é outra, da Europa escandinava, que é outra, da Europa eslava, que é outra, das Áfricas várias, que são várias, da América Latina, que é outra configuração, com a vertente espanhola que se mistura a povos andinos… Então a brasileira é a sua, a que foi “conscrita” neste território, com esses povos que fizeram o Brasil com essas expressões culturais desenvolvidas aqui.  Brasil é Brasil, não é a Argentina nem a Inglaterra.  É o Brasil.

Este Fórum Internacional Geopolítica da Cultura e da Tecnologia (ocorrido em São Paulo em meados de novembro), cuja curadoria teve sua colaboração, fala em transformar nossa singularidade em um valor estratégico que beneficie quem a inventou – o povo.  Que características estão aptas a ser transformadas em valor estratégico real nesse reposicionamento do mundo, nessa nova geopolítica? A vocação para uma configuração de uma comunidade mais integrada.  Mais integrada a partir de elementos fortes da espiritualidade, da fantasia, de uma subjetividade criativa, “celebracional”, mestiça em vários sentidos, com a preferência pela efusividade, pela alegria, enfim, pela solução afetiva de conflitos, gentil, cordial.

Que ao mesmo tempo tem uma violência… Tem.  Nada é só bom.  Mas a gente está falando dessas características configuradas num território, numa população mestiça, falando uma língua trazida da Europa, mas ao mesmo tempo trazida por um povo europeu muito distinto dos outros povos, quer dizer, com ambições diferenciadas em relação aos espanhóis, aos ingleses, aos franceses.  Os descobrimentos portugueses estavam inspirados pelo Espírito Santo.  Anchieta colocava os índios no colo e, apesar de minimamente estar submetido aos desígnios colonizadores do seu povo europeu, tinha pelos índios um amor… Foi ele quem insistiu e conseguiu que a Corte Portuguesa não escravizasse os índios.  Então essas coisas estão na origem brasileira.  Foi ele quem colocou os instrumentos, os violões, as guitarras, as flautas na mão dos índios.  Essa musicalidade extraordinária brasileira tem embrião nesses primeiros momentos.  São ingredientes que podem configurar a construção de um “pacote estratégico brasileiro”, que pode servir não só para nós, para nos relacionarmos com altivez e grandeza com o resto do mundo, mas também para sermos elemento importante para essas outras culturas do mundo.  Para ensinarmos, para sermos exemplo, referência a um mundo que está ficando muito complexo, está ficando muito confuso, está ficando muito célere, em que a formação de conflitos novos é exponencial.  Portanto, têm valor estratégico humanidades que possam desenvolver capacidade de afeto, de concórdia, de compreensão mútua, de fruição, de entendimento mais profundo de sua relação com a natureza, de pertencimento à natureza – e, portanto, de respeito à natureza –, de integração de necessidades materiais com profunda capacidade de reverenciar o espírito.  São questões estratégicas para a humanidade, vendo aí não mais a estratégia parcial da nação contra outra nação, não de um território contra outro território, e, sim, estratégia de vida para a humanidade no planeta.

Podemos considerar isso como o que há de mais moderno, no sentido de estar na ponta, estar na frente? Se houvesse um radar de inovação no globo, ele apontaria essas características como a “modernidade” que temos a oferecer?  É isso o que a Terra está dizendo no modo mais atual, mais contemporâneo de entender a vida.  Bem viver.  Produção de futuro.  Como produzir futuros desejáveis e sustentáveis, como produzir sociedades humanas mais integradas, como produzir sociedades humanas que vivam compartilhamentos mais efetivos de tudo, de riqueza material, de riqueza simbólica.  É assim que a Terra vê o seu futuro, não é o Brasil (risos).  Por acaso, coincide que o Brasil é um dos povos hoje em dia que mais podem contribuir para essa perspectiva futura da humanidade, porque ele já vem, desde sua formação, consolidando essa nova matriz de vida social.

Naquela sua canção com o Jorge Mautner, Outros Virão (sic)… Outros Viram.

Sim, desculpe. Mas pode ser Outros Virão, nesse sentido que nós estamos falando aqui.  Mas ali é o oposto, é outros viram essa coisa no Brasil.

Sim.  Mas por que, segundo a canção, eles viram e nós não?  Por que não vimos?  A gente se autossabota? É porque a gente só se vê no espelho.  A gente só se vê na superfície quieta das águas, ou no espelho no sentido mais moderno do termo, essa superfície lisa na parede que reflete nossa imagem.  Quem vê a gente por inteiro são os outros, são os de fora.  A gente só vê uma parte da gente, a mão… A gente não vê nossas costas.  Não vê o que está por trás… A gente só se vê parcialmente.  Quem pode ver a gente mais inteiramente é o outro, então a canção é sobre isso: como os outros viram o Brasil.

E como viram? Como um lugar da promessa.  Porque esse nome Brasil vem da raiz celta bras, que significa “terra encantada”.  Quer dizer, já antes da descoberta pelos portugueses, o Brasil aparecia nos mapas medievais como uma terra da promessa.  Ao longo da História, foi havendo uma reiteração dessa imagem, dessa visão, primeiro por causa dos índios levados para as cortes europeias, como exemplo de um ser humano íntegro, inocente, completo, pleno, belo.  E depois toda a criação artística brasileira, o Carnaval, todas essas coisas que foram “sendo saídas” de um encantamento, de um conto de fadas.  Então o Brasil está fadado um pouco a essa coisa, embora muita gente lute contra, porque queria uma inserção do Brasil em um modelo clássico, em um modelo ocidental europeu, que está justamente na cisão do processo civilizatório gestado na Europa.  Gestado ali exatamente no início, quando os Cruzados vêm, uns para criar os reinos europeus montados na ambição material, na ideia de mais conquistas de territórios e produção de riquezas, de acumulação etc. etc., e outros, no projeto de ocupação dos portugueses, fundamentados no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência.  Essas coisas são distintas na origem e o brasileiro não tem conhecimento dessas suas origens.  Até rejeita um pouco a origem portuguesa, a coisa dos degredados.  Mas quem eram os degredados?  Quem eram esses criminosos?  Eram criminosos porque estavam fugindo da Inquisição, porque professavam a fé no Espírito Santo, na chegada de um outro reino, na beleza da bondade e da verdade.  O Brasil está nessas origens, enquanto a América do Norte e outras áreas da expansão europeia pelo mundo com a colonização estavam fundadas em outros pressupostos.

Isso que chamamos de fundação, esses traços fundadores que parecem tão definidores, faz com que estejamos fadados a repetir para sempre as coisas boas e também as ruins, como desigualdade, preconceito etc? O fado é uma canção, o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço.  O fado é dinâmico, ele continua submetido à dinâmica da passagem do tempo e da ação do homem.  O fado é o que a gente faz.  Não é só aquilo a que estamos destinados.  Não é o destino.  É um caminho para o destino.  Não é como cair no fundo do poço de Alice no País das Maravilhas, e sermos jogados no lugar.  Nós temos de caminhar até esse lugar.  É um progresso, um processo, um caminhar.  Portanto, a tomada de consciência em relação a isso é profundamente importante.  Nós só vamos caminhar numa direção se soubermos qual é essa direção, se tivermos olhos voltados para vê-la, identificá-la, e construir o caminho que leva até ela.  Essa é a questão brasileira.  Não é uma condenação.  O brasileiro não está condenado a ser alguma coisa.  Ele está fadado a ser alguma coisa.

Um dos problemas do Brasil e da América Latina é a corrupção?  A corrupção é um problema da América Latina? Não, a corrupção é um problema da humanidade.  Há sistemas de relacionamento social que facilitam, propiciam – uns mais do que outros –, a corrupção.  Há sistemas jurídicos e sistemas econômicos que facilitam mais ou menos a corrupção.  Mas a corrupção hoje em dia, nesse sistema que está aí, que foi autorizando cada vez mais a exploração de uns por outros, a imposição de poder de uns sobre outros, surge por decorrência da própria falência natural que os sistemas vão sofrendo.  A falência dos controles, dos princípios.  Toda vez que se quer escorregar para infringir uma norma, a corrupção é uma das formas.  E não é uma questão brasileira.

Qual é a questão brasileira? Não há uma.  A questão brasileira é sermos o que somos no dia a dia transformador.  Transformarmo- nos do que somos no que seremos e no que não seremos.  É essa a atuação permanente da vida sobre nós e de nós sobre a vida.  O Brasil não precisa desenhar destinos e nem nada disso, não… Basta viver e pautar esse viver pela ideia do bem, do bem viver.  Cada vez entender melhor, coletivamente, o que é bem viver, o que é produzir a sua continuidade da maneira mais amena possível.  É criar bem-estar!

gil 2Nós temos alguns caminhos aí, como a indústria criativa.  Estávamos falando de diversidade cultural.  Temos também uma diversidade biológica muito grande.  São grandes riquezas, mas curiosamente a economia brasileira não vive disso.  Por que será? Em que medida o Brasil será capaz de se desgarrar dessa monocultura mundial, em que vemos o utilitarismo, a produtividade vista sob um certo aspecto enviesado e a prevalência do poder do mais forte, o “privilegiamento” dessa hierarquização, dessa forma de aceitar o primado do mais forte sobre o mais fraco?  A questão é se o Brasil será capaz de sair disso para realmente produzir uma sociedade de mais igualdade e fraternidade, mais fundada em princípios que são enunciados, anunciados, mas muito pouco perseguidos verdadeiramente pelo conjunto da humanidade.  A questão é se o Brasil será capaz – e possivelmente não poderá fazer isso sozinho – de juntar outros povos do mundo nessa proposta.  Quer dizer, vamos caminhar mesmo?  Vamos ter o caminho do nosso destino?  Isso é o nosso fazer.  O fato de estarmos discutindo isso, procurando compreender possibilidades agora de fazermos isso já é um sinal de que estamos querendo caminhar nessa direção.  Por que vocês que produzem e publicam informação estão querendo saber disso?  Por alguma razão.  Porque percebem que se quer saber disso.  Percebem que o Brasil e o mundo cada vez mais querem saber disso.  É sinal de um sinal que está por aí.  Sinal de que está no radar, usando a expressão que você colocou.

Há seis anos, metade do primeiro mandato do presidente Lula, eu (Ana d’Angelo) o entrevistei como ministro da Cultura e convidado do Fórum Mundial das Culturas, em Barcelona.  Interessante lembrar disso, porque naquela época o País entrava na moda na Europa, havia um clima de otimismo, não se falava em crise.  Havia quase uma reverência para com o Brasil.  E hoje, seis anos depois? Acho que isso aumentou muito no mundo.  Evidentemente que toda essa atitude reverente de expectativa positiva em relação ao Brasil tinha muito de modelos anteriores que se buscava repetir, dimensões utópicas já consagradas, que se gostaria de ver realizadas, manifestadas.  Tinha muito de um sonho da Europa frustrada por não ter sido aquilo que ela própria quis ser.  A Revolução Francesa que ficou pelo caminho, a Revolução Americana que ficou pelo caminho, as revoluções todas outras que ficaram pelo caminho.  E, de repente, a gente quer outra dimensão messiânica, alguém que seja o restaurador, o salvador.  E chega uma hora em que o mundo também começa a querer ver o Brasil sob essa ótica.  E talvez não, possivelmente o Brasil não será nada disso e é desejável que não seja exatamente isso.  É desejável que seja uma coisa nova, desconhecida, a ser construída.  Nesse sentido, acho que essa expectativa cresce, mas com uma qualidade instrutiva, quer dizer: cada vez mais o mundo todo espera do Brasil, mas cada vez mais se espera uma coisa que não se sabe o que é (risos).  Isso vai proporcionando capacidade de diálogo, de conversa, de entendimento, de afetividade, atratividade.  O Brasil vai se tornando atraente e vai atraindo também…

Quando se sabe muito bem o que se quer não se tem inovação, certo?Não tem!  Então é assim, feitiço.  O Brasil é feitiço, tem que saber disso…

E no governo Dilma, alguma possibilidade política? Para mim, não.  Não quero mais, não.

Já teve a experiência… Já e não quero, não me sinto capacitado.  O político tem de trabalhar com exiguidades muito precisas.  Um senso muito preciso de impossibilidades, de limites, de redução de horizontes etc.

É o oposto da arte, não é? É o oposto da arte.

Além disso, o orçamento da Cultura diante dos outros ministérios é de chorar… Também é muito pequeno.  Com toda a gritaria que a gente fez, a gente não conseguiu chegar a níveis razoáveis de recursos.  Mas estamos aí para ajudar.  Acho que a parceria dos governos com a sociedade é algo cada vez mais importante, no sentido de que os governos entendam que as sociedades precisam andar.  Apesar de as sociedades não saberem para onde, o governo tem de ter um pouco dessa capacidade interpretativa, de leitura dos desejos ocultos.  Espero que o governo da Dilma e tantos outros governos no mundo tenham essa capacidade de entender essa relação profunda com o desconhecido, essa relação respeitosa com o desconhecido para que ele seja fonte de instrução para o conhecido, para a busca do conhecimento.  Espero que esse espírito, essa visão, esteja – se possível – em todos os governos do mundo.

Coluna mensal Página Cultural – Revista Página 22 (2008 a 2014)

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http://www.pagina22.com.br/2011/02/07/pagina-cultural-14/

 

 

 

Outra Utopia de Cidade

Para quem sai da Zona Sul são dois ônibus, com risco de pegar a linha errada já que os olhos estão acostumados àquela paisagem do cartão postal em que vive a elite branca carioca. O Complexo da Maré impressiona, primeiro, pelo tamanho e formato – são cerca de 130 mil moradores em diversas comunidades e conjuntos habitacionais espalhados horizontalmente – e por estar às margens da avenida Brasil e da baía de Guanabara. O manguezal da Maré foi ocupado a partir do século XX por barracos e palafitas, depois aterrado pela população e poder público. Virava notícia só quando o aglomerado inundava ou nos episódios de violência – ao menos três facções criminosas ali se alojam. Tirando a enchente, pouco mudou com os anos, tal como as distinções periferia/centro, asfalto/favela que cuidam de perpetuar estereótipos, evitando um pensamento de transformações. A diversidade da Maré comporta, desde 2001, o Observatório de Favelas, organização social que trata de reposicionar o tema e os espaços populares na vida da cidade. “A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade a partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. É preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade”, afirma Jorge Barbosa, um dos fundadores do Observatório de Favelas, que falou com exclusividade para esta edição da Página 22.

O Observatório é uma organização social criada em 2001 na perspectiva de se construir conhecimento sobre as favelas e espaços populares.  Nesses primeiros anos, o foco era incentivar essa produção de informações e, ao mesmo tempo, formar pesquisadores locais, nas comunidades. Os próprios fundadores e hoje diretores vieram dessas comunidades? Podemos dizer que o início do Observatório era colocar a favela e a periferia na pauta de discussões da sociedade? Torná-la visível?  Fale sobre este começo e o que implica uma organização social surgir de gente de dentro da realidade vivida.

O Observatório é uma instituição que busca a produção de conhecimento. Nós somos oriundos de espaços populares e passamos pela universidade. Nunca nos afastamos das nossas relações de pertencimento aos espaços populares. A ideia de construir um observatório era ter uma instituição capaz de construir conhecimento inovador, fazer desse conhecimento uma mediação para ação pública, sobretudo, colocando a favela na agenda da cidade de uma forma positiva. A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade, mas de uma forma negativa. A partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. E cujo receituário era remoção, ou seja, a favela sempre vista como problema ou distorção da urbanização acelerada do território brasileiro. A ideia era,  a partir da produção do conhecimento, colocar  a periferia e a favela de uma forma propositiva e positiva. Mostrar que ela é produto das contradições da cidade e das desigualdades sociais, da distinção territorial dos direitos e, ao mesmo tempo, é uma expressão legítima do direito de habitar a cidade por parte de grupos sociais mais vulneráveis, mais desiguais. Isso gera uma inversão, uma inflexão política do lugar da favela na agenda. Ao invés de ser um problema, ela se torna uma esfera da busca pelo direito de cidade. Ah, precisa urbanizar as favelas, dizem. Claro, é preciso ter saneamento, habitações qualificadas, equipamentos culturais e educacionais, ou seja, toda a urbanidade que uma cidade possui. Mas mais que isso, é preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade. Novas sociabilidades, novos encontros e experiências de estar com o outro, reconhecimento de que somos uma sociedade diferente e plural. Tentamos pautar não um projeto para a favela, mas um projeto para a cidade, um projeto novo e radical de cidade.

Jorge, e quem eram vocês há 13 anos atrás, quando da fundação do OF? Eram colegas de universidade, vizinhos de bairro?

Eu e Jailson  (Jailson de Souza e Silva também é fundador e diretor do OF) estudamos juntos, na mesma universidade, no curso de Geografia. E sou do Caju e o Jailson é de Brás de Pina, depois ele se mudou para a Maré. Nós viemos de bairros populares e já tínhamos alguma experiência de militância. Ele mais na militância católica popular, eu mais na militância estudantil. Ele já fazia um trabalho na Maré e me convidou para trabalhar no censo da Maré, na leitura dos dados. Fui ficando e resolvemos criar uma  instituição, como um observatório, que não fosse da Maré e para a Maré. Fizemos um projeto para a Fundação Ford e durante dois anos tivemos esse apoio, criamos um grande projeto de formação de pesquisadores populares o que abriu o horizonte de construção da instituição que acabou ficando na Maré, nosso berço.

 

E como foi a transformação do OF ao longo do tempo, quando passou a abrigar pessoas com formações e origens diversas? Isso foi guiado pelos projetos?

Nós passamos a entender que havia uma agenda de democratização da cidade a partir de políticas públicas. E passamos a entender quais os campos principais do debate para o direito à cidade, trabalhando nessas grandes temáticas: direitos humanos, por exemplo, para nós é decisivo diante do processo brutal de repressão e violência porque partimos da consideração que as favelas não são violentas. Elas são mais duramente afetadas pela violência. Isso faz uma inflexão na política de segurança pública, ou seja, a favela é um lugar de pessoas mais desprotegidas, mais frágeis e vulneráveis à violência urbana. Porque o Estado abdicou das favelas e não impediu, de uma forma segura e efetiva, que elas fossem ocupadas por grupos criminosos e armados. Criamos uma outra linha para se pensar direitos humanos, trazendo este debate para dentro do território. Entramos também na educação, entendíamos que a política de educação no campo da universidade era um divisor de águas que  não superava as desigualdades. Sobretudo desigualdades raciais e territoriais. Que a universidade abrigasse de fato a democracia, os grupos populares e não estivesse tão distante que as pessoas não pudessem sonhar. Então criamos o projeto Conexões de Saberes, de 2005 a 2008, que depois se tornou uma política pública do MEC e hoje é um PET – Programa Especial de Treinamento do Ministério da Educação. Desenhamos este projeto que aconteceu em 33 universidades. O MEC absorveu muita coisa do projeto. Deu a possibilidade de o MEC trabalhar a política de cota com muito mais conhecimento do que acontecia em termos de ingresso e permanência dos jovens nas universidades. Fizemos uma grande pesquisa em 33 universidades brasileiras sobre a questão do ingresso, pegando os cursos mais procurados e os menos procurados e como o jovem de origem popular ingressava em um lado ou outro. A partir daí vimos que  estudantes de escolas privadas ou escolas públicas federais têm muito maior probabilidade de entrar nos cursos de maior concorrência do que os de origem popular. Outro dado foi a renda familiar. Filhos de determinadas classes com maior renda e propriedade também têm maior chance de entrar nas universidades. Isso já estava consagrado,  mas conseguimos comprovar pelas pesquisas. O que não estava comprovado e foi determinante para uma política pública afirmativa era o dado que a gente descobriu: a escolaridade dos pais, o currículo implícito. Um jovem de origem popular, em média, entrava aos 24 anos na universidade, já entrava na hora de sair. Já tinha um recorte aí e outras implicações: a variável fundamental era escolaridade dos pais. Ou seja, um jovem cujo pai e mãe têm mestrado, doutorado ou graduação tem muito mais chance de entrar na universidade que a questão da renda ou o fato de ter passado por escola privada. Porque este jovem teve acesso a um livro, ia ao teatro, ao cinema, tinha um currículo implícito que o distinguia dos demais. O capital social e cultural tornava-se fundamental para o vestibular e para entrar  no curso. Daí se juntarmos um recorte racial – nós sabemos que grande parte dos negros tem mais dificuldade de acesso – mais a questão social (o currículo implícito) ficou evidenciado que para superar essa situação de desigualdade social que a universidade reproduzia, só com uma política de ação afirmativa, de cotas. Entre um jovem que mora na Rocinha e outro que mora num apartamento em condomínio de São Conrado , apesar de serem vizinhos, há uma territorialidade muito diferente. Um jovem da Rocinha para alcançar um nível de escolaridade de um jovem de São Conrado levaria 100 anos sem as políticas públicas de acesso. Passamos a pautar esse debate nas universidades que se beneficiaram destes estudos. Eu e Jailson, por exemplo, fomos os primeiros das nossas famílias a entrar na universidade, o que mostra como ela esteve distante dos projetos e sonhos de uma grande parte da população, por muitas gerações. Este foi um projeto que deixou um lastro. Também tivemos outros, como o programa para redução da violência letal. Fizemos uma pesquisa em 16 cidades brasileiras e criamos um índice de homicídios entre jovens e adolescentes, mostrando na pesquisa quem eram os jovens mais vulneráveis aos homicídio, negros, moradores de favelas e periferias são os mais vitimados, seja na ação da polícia seja no enfrentamento entre facções criminosas. Criamos um guia de redução de violência letal que se tornou política pública federal para os municípios, com apoio da Unicef e Secretaria Especial de Direitos Humanos. Este também é um legado importante que o Observatório deixou em termos de política pública.

E o projeto teve financiamento da iniciativa privada?

A iniciativa privada não está interessada em políticas de direitos, sociais. Está interessada em política pública que garanta os seus interesses. Este projeto foi financiado pelo governo mesmo e, em parte, pela Unicef.

Mas a Petrobras, por ex, não está por trás de muitos financiamentos?

Mas a Petrobras é uma empresa estatal, é diferente, tem pressupostos de lucratividade,  mas tem uma missão pública. Tem apoiado diversos projetos nossos e de outras instituições como o  Solos Culturais e a Escola Popular de Comunicação, uma outra linha que passamos a trabalhar. Entendemos que precisávamos atuar nesta área porque os grandes veículos sempre tinham leitura distorcida dos espaços populares, reproduzindo o senso comum sobre favelas e periferias. A ideia era que tínhamos de disputar um imaginário de cidade, uma política no campo da comunicação. Não uma disputa por mensagens ou notícias, mas no campo da formação e politização e da opção de representação por parte dos jovens das favelas. Derivado disso surgiu também a escola popular de fotógrafos, a Imagem dos Povos.

Quem financia esses projetos?

A Espocc é financiada pela Petrobras. A Imagem dos Povos já foi financiada pelo Criança e Esperança, patrocinadores internacionais e agora passamos a gerar produtos, livros.

E eles hoje se auto-sustentam?

Olha, a busca é esta, da auto-sustentabilidade. Mas nós vivemos de projetos e programas, parcerias, não há uma política de apoio a instituições. Este é um dos grandes problemas que enfrentam as organizações da sociedade civil. Primeiro porque precisamos participar de editais, feitos de acordo com políticas do Estado ou de empresas e organizações. Acho os editais um avanço, mas ficamos muitas vezes sujeitos a políticas temporárias, um edital abre um ano, não abre no ano seguinte, o que gera um problema de continuidade. A segunda questão é a constante criminalização de entidades da sociedade civil, sobretudo as ONGs, tidas como picaretas, que pegam dinheiro do governo e não prestam contas a ninguém.

Você dizia das empresas privadas como distantes da realidade do apoio a projetos sociais, elas não são parceiras?

No caso do Observatório elas não são fontes de recursos, como para a grande maioria dos instituições sociais.

É mais fácil ainda captar no exterior?

Muitas vezes sim é mais fácil. Embora hoje os recursos das instituições internacionais para projetos no Brasil tenham sido bastante limitados porque acham que o Brasil já resolveu todos os seus problemas, já está bem, é a oitava economia do mundo e está tudo bom. Acham que deve ir mais pra África. Mas a desigualdade no Brasil é imensa, é um país paradoxal. Pode reduzir a pobreza sem reduzir a desigualdade, o que tem sido feito nos últimos 12 anos.

Centro/periferia ou asfalto/favela são palavras e distinções ainda usadas correntemente. Como as entende? O que elas compreendem (território, condição financeira, diferença) e o  que suscitam?

Quando se colocam estas palavras o que querem dizer? Sempre tem uma conotação de valorização. Só existe centro se houver periferia, asfalto se tiver favela. Ideias de superiorização e de que o mundo pode ser partido em coisas binárias, de que o centro não seria o centro sem a periferia. Existem conflitos e tensões que precisamos trabalhar,  mas não de uma forma distintiva, que tem consequências sérias em relação à própria vida de quem habita cada espaço. Estas palavras trazem a ideia de que vivemos em cidades partidas, metrópolis partidas e isso acaba ocultando a questão da desigualdade socioeconômica que se expressa territorialmente e que nós chamamos de distinção territorial de direitos. Algumas pessoas dentro da cidade têm mais direitos que as outras. Por isso a vida de algumas pessoas é mais valorizada que a de outros. Ou seja, essas construções binárias ocultam contradições e conflitos e perpetuam e naturalizam as desigualdades. Nosso exercício é desnaturalizar a desigualdade, pautando a diferença. A diferença no Brasil acaba servindo de legitimidade para a desigualdade. Ah você é assim porque é mulher, porque é negro, é favelado. Ou seja, nós temos de ser bastante efetivos na valorização da diferença e na superação da desigualdade. Como se faz isso? A política pública no âmbito da cultura, da urbanidade, dos direitos a vida, da comunicação e educação tem que se pautar por uma inflexão territorial dos direitos públicos. Tem que tratar de modo desigual os desiguais. Se não tiver uma inflexão territorial, vamos ter uma concentração de investimentos públicos em determinados espaços da cidade que só reproduzem a desigualdade.  As favelas e periferias têm de ser reconhecidas como espaços de produção de arte, de sociabilidade que podem construir um novo projeto de cidade. Você supera a ideia de periferia e aponta a periferia como centro difusor de cultura, de arte, experiências de solidariedade, de invenção de possibilidades. Hoje a periferia é essa centralidade importante.

Há alguns anos a periferia e a favela chegavam à mídia quando se tratava de violência, exclusão social, pobreza, mundo informal. Agora vemos o rolezinho, a veiculação da imagem das favelas nas novelas e na publicidade, em matérias jornalísticas que traçam o perfil das classes C, D e E. Até que ponto não se trata de meras substituições de temas para manutenção dos estereótipos?  O que mudou?

 

Existe um foco em cima de estereótipos e que tende a ser romantizado. Quando se fala do fenômeno do rolezinho vemos que ele acontece nos shoppings de periferia da cidade. Por que? O shopping da periferia é para o menino frequentar se ele não tem um museu, uma praça, um parque, uma biblioteca, onde ele vai fazer o seu encontro? Ele tem suas tramas virtuais, mas chega um momento em que os caras querem dar beijo na boca, se abraçar, tirar fotografia, conversar, se tocar. Pra onde eles vão? Os shoppings das periferias precisam reconhecer que devem se tornar espaços públicos. E abrigar a diferença. Ou a propriedade privada acha que não tem nada a ver com a sociedade? É uma ilha fechada em si mesmo que só vai tratar as pessoas como consumidores? Por outro lado, essas imagens que estamos vendo na mídia, seja na TV ou no cinema, a favela virou um espetáculo. O espetáculo da violência. As cenas de um filme que espetacularizam a violência acontecem onde? Na favela. Então tem também uma espetacularização da pobreza, da cultura e, na verdade, o que isso contribui para que a favela entre na cena política? Muito pouco porque tudo mantém os estereótipos. Então como ela deve entrar na mídia? Como ela é. A favela e a periferia são legítimos espaços de luta para habitar a cidade, pelo direito à cidade, mas têm conflitos, contradições, desemprego, violência doméstica, tem a presença do narcotráfico, tem a ação violenta da polícia, tem habitações e situação de risco. Então, não dá pra glamurizar a favela. Ela precisa ser vista como esforços de gerações e gerações pelo legítimo direito de morar. Reconhecer não significa achar que tá tudo legal. Eu conheço a periferia de São Paulo, falta saneamento, há problemas ambientais sérios, desemprego, violação de direitos, ou seja, quando passa na novela “Salve Jorge”, as pessoas estão desfilando, dançando, sambando no bar. Existe isso, mas tem contradições e conflitos também que precisam ser compreendidos e considerados.

Você poderia falar sobre o fato de a periferia ser vista hoje como um grande mercado de consumo. O rolezinho, neste caso, seria apenas a exposição desses sinais, a periferia como toda a sociedade estão ditadas por aspirações que emergem de um modelo de consumo capitalista. (aqui caberia um paralelo com a questão climática, países em desenvolvimento como o Brasil estão sendo cobrados pelo aumento das emissões, muitos carros na rua etc)

O Brasil é dos principais mercados de carros do mundo. A ideia consolidada pelas próprias classes dominantes é que a cidadania está ligada a consumo. Ou seja, sou mais cidadão quanto mais eu consumo. É a partir da aquisição de bens distintivos que as pessoas se afirmam, se valorizam. Ou seja, de certo modo, a política econômica traz essa subjetividade. Pensamos que a política econômica é objetiva, dinheiro aqui, mercadoria ali, mas ela tem uma forte subjetividade. Eu sou melhor do que você devido ao objeto que eu compro. Então você está diante de um dilema entre o consumidor e cidadão. Vamos voltar às pessoas. As pessoas que moram nas favelas e periferias não estão numa ilha, elas participam da vida urbana, vivem numa cultura urbana, com valores juízos e distinções que são hegemônicos na sociedade. Então você quer que o cara da favela seja ecologicamente correto? Não dá né.  Ele não tem saneamento, não tem coleta de lixo regular, a beira do rio enche sempre, mas, sim, ele precisa ser ecologicamente correto. A sociedade pode ser incorreta. Eles estão inseridos numa sociedade de consumo onde o consumidor vale mais que o cidadão. Como você muda isso? Com política pública. Por exemplo, as pessoas da periferia de São Paulo e do Rio de janeiro gastam quantas horas para chegar ao trabalho e voltar? Duas, três horas? Num ônibus apertado ou no trem lotado. Duas horas para ir duas pra voltar. A que horas essa pessoa dorme, lê, se diverte, encontra os amigos? Ora, se você tem a oportunidade de comprar um carro e se livrar daquele negócio apertado que não obedece horário e te maltrata, a pessoa vai comprar um carro, uma moto. Ela está tentando solucionar individualmente algo que devia ser solucionado do ponto de vista coletivo. Uma das nossas grandes linhas de intervenção é a mobilidade, não só a circulação. Ou seja, nós precisamos ter uma política hoje de transporte coletivo humanamente responsável e de qualidade. Eu não posso gastar quatro, seis horas, isso é um processo de dilapidação de corpos no trabalho. Porque o patrão quer que ele chegue na hora e saia na hora. O que ele faz fora desse período e como faz pouco importa. Portanto, uma política ambiental hoje importante – relacionada à favela e periferia – precisa  valorizar a dimensão humana da nossa existência, independente da raça, gênero, orientação sexual. Uma política de direitos que valorize nossa vida, a dimensão humana como dimensão ecológica, não somos humanos plenos se não tivermos a natureza. Nós, em essência, somos a natureza. Como se combina isso, uma política ambiental e uma política cidadã, de direitos? Não é dizer pras pessoas não consumirem. Qual a possibilidade de a gente fazer uma política de direitos que garanta toda uma mudança no nosso modo de vida? Há tantas tradições culinárias, medicinais nas favelas, mas absolutamente subalternizadas, subterrâneas, despidas de valor. Como se retoma outras culturas de vida? Como criar uma política de habitação que dê conta da mobilidade e que não seja essa, por exemplo, do “Minha Casa Minha Vida”. Aqui no Rio de Janeiro o programa coloca todo mundo na zona oeste, com um processo brutal de desmatamento dessas áreas, que eram rurais, com sítios, desprovidas de equipamentos culturais, educacionais, de transporte público. Nós estamos vendo um processo de re-periferização da pobreza, distanciamento dos pobres das áreas centrais da cidade. Por outro lado, temos de observar que o discurso ambiental do poder público, de enchentes e áreas de risco, tem se prestado a políticas de remoção. Quando caracterizamos o debate ambiental, temos de ter uma leitura muito crítica, assim como se fala centro/periferia, favela/asfalto, os termos ambientais também são apropriados para políticas arbitrárias e autoritárias que legitimam as diferenças e desigualdades.  É preciso entender que o risco de desabamento é em ponto, não em área. Se há uma pessoa em risco, uma casa em risco é preciso atenção a ela. Inclusive fazer de tudo para que ela permaneça na própria comunidade porque ali ela tem relações de parentesco, de amizade, de confiança. Isso é fundamental. Para a classe média a unidade básica de proteção é a família. Para o pobre a unidade básica de proteção é o território.

Publicada em março de 2014 na Revista Página 22

Quem tem padrinho não morre pagão

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Minha mãe é das que guardam as provas de Matemática da 5ª série em que fui bem ou beirei o zero. As minhas e as da minha irmã, aconchegadas naquelas caixas-arquivo de papelão, na parte mais alta do armário, o que significa que toda essa papelada é revista uma vez a cada cinco anos, certamente quando  estamos há um tempo lhe devendo  uma visita. E foi numa dessas ausências nossas substituídas por boletins e carteirinhas do colégio estadual que minha mãe encontrou a redação – era assim o nome – em que pela primeira vez minha irmã a descrevia, talvez na terceira ou quarta série. “Minha mãe gosta mesmo é de uma lavação”.  Na cabeça dos sete anos da Mônica, lavação era a mãe molhando as plantas do jardim, jogando água na terra seca do quintal quando ficava muito tempo sem chover, lavando a louça do almoço e as outras ocupações domésticas que essa mãe aos 40 anos revezava com o trabalho intelectual. A água era o que mais próximo dela enxergava a filha. Uma matéria que, para quem nasceu antes dos anos 80, nos era líquida e certa e sem culpa.  

Suspeito que nos rituais aquáticos dona Cecília era menos afazeres e mais fuga de obrigações.

Neste mesmo cenário, a pergunta freqüente era se o bebê tinha chorado muito ou pouco na hora do batismo. Sinal de bom ou mau cristão? Dependia também da disposição do padre em derramar muita água na cabeça do menino, o que rendia comentários para uma semana. Mais tarde, um banho demorado era apelidado de banho Cleópatra, sabe-se lá o que a meninada pensava desse termo inventado no interior católico mineiro. Mas o certo é que a água era assim. Meu pai me deu um vidrinho de sal de fruta fechado com fita crepe e recomendou jogar em todos os cômodos da minha  casa na capital. Era a água que saía do túmulo de um padre santo. A mesma depositada numa pia na entrada da Igreja onde os fiéis molhavam a ponta do dedo e esparramavam pelo rosto. A fé do meu pai na água era de nascença. Meu avô adivinhava a chegada da chuva pela virada nas folhas das laranjeiras que plantou. Meu pai levou essas laranjeiras e árvores da fazenda para a cidade onde criou família, mas alguns vizinhos reclamam até hoje das folhas sujando a calçada e algumas vezes ele acaba errando o prognóstico da chuva.

Dia de lavar a caixa d´água era um deus nos acuda. Um mau humor geral se instalava na casa. Banhos rápidos, comida boba sem variedades, o povo calado e minha mãe com a cara torcida o dia inteiro. A água chegava e tudo voltava ao seu curso normal na rua Agostinho Azevedo. Se chovia muito, além de encher a caixa d´água, a população corria para ver a praia. A praia é o córrego do Lenheiro que corta a cidade e inunda só as casas da periferia. Quem não foi inundado, corre até a beira da praia, debaixo da sombrinha, para ver o caldo grosso e marrom chegando perto da ponte e arrastando tudo.

A água pagã e religiosa de São João Del Rei é a mesma que lava as escadarias do Bonfim, coisa que de obrigatória passou a festa.  Este ano se cumpriu a 254a  lavação reunindo ali católicos, espíritas, seguidores do camdomblé, umbanda, ricos e pobres na Bahia. A água rompeu a hierarquia e sobrou anunciar e celebrar.

Sem ela, também não sei o que seria dos casamentos na aldeia dos Tapirapés, no norte do Mato Grosso. No final da tarde, o cacique sai abraçado com sua mulher e toalhas nos ombros. O sol  está indo embora e deixa a água do riacho  morna. É hora do banho-namoro naquelas bandas. O riacho fica atrás das ocas e os casais vão andando sem pressa para a higiene diária. É também no riacho que as panelas são areadas e é onde os meninos brincam. Em São Félix do Araguaia, onde de um lado é Mato Grosso e do outro é Tocantins, o rio serve para a pesca, transporte, lazer, alimentação. Mas o rio sustenta ainda o Flutuante, bar-restaurante onde se come o melhor peixe assado da cidade. Do Flutuante, os homens lançam suas varas ao rio Araguaia e depois devolvem tudo que é pescado.  Sem o Flutuante, também não sei não.

 

Quando a margem é um rio

Na verdade, são dois rios e duas histórias contadas em documentários brasileiros que têm em comum o conflito das pessoas com seus territórios: pessoas que sonham com outros lugares a troco de qualquer condição, e outras, forçadas a deixar o lugar de origem e reconstruir a vida em local desconhecido. Quais as implicações dessas circunstâncias nas vidas de cada um e o que os espaços constroem no imaginário é o que os filmes – Do Outro Lado do Rio, de Lucas Bambozzi, e Sumidouro, de Cris Azzi – perpassam. Ainda inéditas no circuito comercial, as obras puderam ser vistas em festivais de cinema e, em breve, terão cópias em DVD nas locadoras. Em Do Outro Lado do Rio, o cineasta Lucas Bambozzi documenta a fronteira da Guiana Francesa com o Brasil, no Amapá. O rio é a passagem para uma nova vida, com promessa de ouro, euros e Paris. São 300 quilômetros de fronteira pelo Rio Oiapoque que suscitam a aventura e a fantasia; a felicidade está lá, a despeito do perigo da ilegalidade ou da violência e do medo que permeiam as duas cidades – Oiapoque no lado brasileiro e Saint Georges de L’Oyapock, no lado francês. Nesse caso, a fronteira geográfica é artificial, pois os “dois países” são habitados por iguais, convivem com miséria, prostituição e insegurança. “Na fronteira ninguém é amigo”, avisa o personagem Grande, desertor do Exército Brasileiro para tentar a vida na Guiana Francesa. Ex-garimpeiro, Fininho diz que a principal riqueza que se pode ter nessa profissão é a memória. Mesmo deportado e preso em Belém, não se arrepende de ter chegado ilegalmente ao outro lado. Os que ficam e os que vão estão sempre em conflito com o lugar eleito e carregam o anterior de alguma maneira – um território só existe em razão do outro, ou do que se imagina desse outro. Seja pelo medo de não ser bem-sucedido na empreitada ou ter de permanecer no mesmo lugar, todos estão em movimento. “Tenho muitas fantasias, quem não tem?”, pergunta a prostituta Telma, que se joga na saga de viver entre garimpos fazendo programas entre a gente tão ilegal e deslocada como ela. Para os travestis, aquela cidade pobre e decadente é o começo de Paris. O único consolo em meio à violência, medo e desilusões é a certeza de que sempre é tempo de voltar para casa. Já em Sumidouro, de Cris Azzi, o rio também é um território comum, mas desta vez ele vai subir, virar represa e inundar 42 comunidades para construção de uma usina hidrelétrica. A despeito das diferentes opiniões sobre a mudança forçada de casa, aquele território será “carregado” pelas cerca de 5 mil pessoas atingidas onde quer que estejam. Não se pode dizer se o afeto ou apego ao lugar de origem, também precário e miserável, tenha se fortalecido em consequência de uma Imposição externa. Mas na nova moradia – um chapadão seco de casas idênticas e planejadas em contraposição ao vale à beira do rio onde moravam – a vida não começa do zero. A ponto de Jaime visitar, nos primeiros dias, em sua canoa, o antigo espaço já completamente inundado. Numa imensidão de água, ele elenca lugares imaginários para as casas, o pé de manga que tinha na porta da cozinha, a origem das coisas. Dessa maneira há de se pensar que Nova Peixe Cru – nome dado para a vila que vai abrigar os deslocados pela barragem – seja um nome apropriado, porque contém o anterior, Peixe Cru, a mistura territorial que vai permear para sempre a vida daquelas pessoas. “As pessoas podem achar que é difícil, mas onde você vive é a sua raiz”, diz a dona de casa Sandra, entre lágrimas, ao deixar o lar à margem do rio. O curioso, conta o cineasta Cris Azzi, é que os moradores deixaram a beira do rio para a beira da estrada, mais um lugar que leva e traz. Outro ponto que merece análise é a opção – como refugiados ambientais – de um reassentamento coletivo. Cada um poderia buscar sua indenização e partir para o canto escolhido, mas as comunidades decidiram ir juntas para o mesmo lugar, mantendo até a vizinhança de outrora. Do ponto de vista político, relata o documentarista, as comunidades precisaram se organizar, criar associações e se fortaleceram para o debate com a companhia energética. O processo começou em 2002, quando receberam a notícia da construção da usina, mas a mudança para a nova vila só ocorreu em 2006. “Gerou angústia porque levou muito tempo. Angústia de saber como ia ser a casa nova, de quando ia sair o dinheiro; quase uma suspensão da vida, porque a mudança não acontecia, a obra atrasava, tinha gente que queria se casar, mas não tinha casa para morar.” Com foco nos territórios em movimento e nos conflitos das pessoas com esses espaços, os dois filmes podem ser pensados também por suas diferenças. Enquanto Do Outro Lado do Rio exibe personagens em busca de satisfações individuais e desarraigados dos locais de origem, Sumidouro mostra a força coletiva que surge quando seu lugar é ameaçado. Mesmo com diferentes opiniões sobre o deslocamento forçado, há uma unidade, uma organização que brota da emergência.