O Brasil é feitiço

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Por Ana d´Angelo e Amália Safatle/Revista Página 22

Tem que saber disso.  A rima rítmica na fala de Gilberto Gil está no seu entendimento do que é Brasil.  Na leitura do músico, quando José de Anchieta colocou os índios no colo, em profunda manifestação de afeto, reforçou um traço definidor da nossa sociedade.  Traço este que havia começado a se delinear na formação de um reino europeu diferenciado.  Pois, enquanto os demais exploradores foram guiados pela ambição material e pela busca de acumulação de riquezas, o projeto de expansão territorial dos portugueses fundamentou-se “no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência”.  Degredados que aqui deram início à miscigenação eram considerados criminosos porque fugiam da Inquisição, diz Gil nesta entrevista.

Assim, o Brasil se fundou no ideário de liberdade e espiritualidade, reavivando o mito de que esta é a terra da promessa, do encantamento, do conto de fadas, dançado nos Carnavais – com todos os problemas que isso também acarreta.  Um lugar que, para contragosto de muitos, subverte o modelo clássico europeu e tem nas mãos um pacote estratégico a oferecer a um mundo carente: afeto.

Mas que não está condenado a ser alguma coisa, e sim fadado a ser.  Lembrando que o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço, o fado é uma canção.  “O fado é o que a gente faz”, diz o bruxo Gil.

Na sua opinião, o que melhor a sociedade brasileira tem para oferecer ao mundo?  O que o Brasil produz que faz a diferença? O Brasil é uma nação que resulta de uma série de coisas particulares, próprias, de que outros povos não resultaram.  Isso para tratar do Brasil que depois leva este nome e se torna a nação configurada neste território, com presença dessas múltiplas vertentes étnicas.  A ameríndia estava aqui já, o português que chega, o africano que é trazido depois.  A formação da sociedade brasileira, e depois o Estado brasileiro: primeiro o Estado monárquico, depois o imperial, depois o republicano e, em meio a tudo isso, a sociedade foi marcando seu dia a dia dentro dessas possibilidades de configuração e com todos esses elementos.  O português chegando aqui, começando a miscigenação com os índios, depois com os africanos e criando essa nação mestiça, mameluca, cabocla…

Então é a diversidade que faz a diferença? A diversidade existe em qualquer lugar.  A diversidade brasileira é esta.  É diferente da diversidade americana, é diferente da Europa gaulesa, que é outra, da Europa escandinava, que é outra, da Europa eslava, que é outra, das Áfricas várias, que são várias, da América Latina, que é outra configuração, com a vertente espanhola que se mistura a povos andinos… Então a brasileira é a sua, a que foi “conscrita” neste território, com esses povos que fizeram o Brasil com essas expressões culturais desenvolvidas aqui.  Brasil é Brasil, não é a Argentina nem a Inglaterra.  É o Brasil.

Este Fórum Internacional Geopolítica da Cultura e da Tecnologia (ocorrido em São Paulo em meados de novembro), cuja curadoria teve sua colaboração, fala em transformar nossa singularidade em um valor estratégico que beneficie quem a inventou – o povo.  Que características estão aptas a ser transformadas em valor estratégico real nesse reposicionamento do mundo, nessa nova geopolítica? A vocação para uma configuração de uma comunidade mais integrada.  Mais integrada a partir de elementos fortes da espiritualidade, da fantasia, de uma subjetividade criativa, “celebracional”, mestiça em vários sentidos, com a preferência pela efusividade, pela alegria, enfim, pela solução afetiva de conflitos, gentil, cordial.

Que ao mesmo tempo tem uma violência… Tem.  Nada é só bom.  Mas a gente está falando dessas características configuradas num território, numa população mestiça, falando uma língua trazida da Europa, mas ao mesmo tempo trazida por um povo europeu muito distinto dos outros povos, quer dizer, com ambições diferenciadas em relação aos espanhóis, aos ingleses, aos franceses.  Os descobrimentos portugueses estavam inspirados pelo Espírito Santo.  Anchieta colocava os índios no colo e, apesar de minimamente estar submetido aos desígnios colonizadores do seu povo europeu, tinha pelos índios um amor… Foi ele quem insistiu e conseguiu que a Corte Portuguesa não escravizasse os índios.  Então essas coisas estão na origem brasileira.  Foi ele quem colocou os instrumentos, os violões, as guitarras, as flautas na mão dos índios.  Essa musicalidade extraordinária brasileira tem embrião nesses primeiros momentos.  São ingredientes que podem configurar a construção de um “pacote estratégico brasileiro”, que pode servir não só para nós, para nos relacionarmos com altivez e grandeza com o resto do mundo, mas também para sermos elemento importante para essas outras culturas do mundo.  Para ensinarmos, para sermos exemplo, referência a um mundo que está ficando muito complexo, está ficando muito confuso, está ficando muito célere, em que a formação de conflitos novos é exponencial.  Portanto, têm valor estratégico humanidades que possam desenvolver capacidade de afeto, de concórdia, de compreensão mútua, de fruição, de entendimento mais profundo de sua relação com a natureza, de pertencimento à natureza – e, portanto, de respeito à natureza –, de integração de necessidades materiais com profunda capacidade de reverenciar o espírito.  São questões estratégicas para a humanidade, vendo aí não mais a estratégia parcial da nação contra outra nação, não de um território contra outro território, e, sim, estratégia de vida para a humanidade no planeta.

Podemos considerar isso como o que há de mais moderno, no sentido de estar na ponta, estar na frente? Se houvesse um radar de inovação no globo, ele apontaria essas características como a “modernidade” que temos a oferecer?  É isso o que a Terra está dizendo no modo mais atual, mais contemporâneo de entender a vida.  Bem viver.  Produção de futuro.  Como produzir futuros desejáveis e sustentáveis, como produzir sociedades humanas mais integradas, como produzir sociedades humanas que vivam compartilhamentos mais efetivos de tudo, de riqueza material, de riqueza simbólica.  É assim que a Terra vê o seu futuro, não é o Brasil (risos).  Por acaso, coincide que o Brasil é um dos povos hoje em dia que mais podem contribuir para essa perspectiva futura da humanidade, porque ele já vem, desde sua formação, consolidando essa nova matriz de vida social.

Naquela sua canção com o Jorge Mautner, Outros Virão (sic)… Outros Viram.

Sim, desculpe. Mas pode ser Outros Virão, nesse sentido que nós estamos falando aqui.  Mas ali é o oposto, é outros viram essa coisa no Brasil.

Sim.  Mas por que, segundo a canção, eles viram e nós não?  Por que não vimos?  A gente se autossabota? É porque a gente só se vê no espelho.  A gente só se vê na superfície quieta das águas, ou no espelho no sentido mais moderno do termo, essa superfície lisa na parede que reflete nossa imagem.  Quem vê a gente por inteiro são os outros, são os de fora.  A gente só vê uma parte da gente, a mão… A gente não vê nossas costas.  Não vê o que está por trás… A gente só se vê parcialmente.  Quem pode ver a gente mais inteiramente é o outro, então a canção é sobre isso: como os outros viram o Brasil.

E como viram? Como um lugar da promessa.  Porque esse nome Brasil vem da raiz celta bras, que significa “terra encantada”.  Quer dizer, já antes da descoberta pelos portugueses, o Brasil aparecia nos mapas medievais como uma terra da promessa.  Ao longo da História, foi havendo uma reiteração dessa imagem, dessa visão, primeiro por causa dos índios levados para as cortes europeias, como exemplo de um ser humano íntegro, inocente, completo, pleno, belo.  E depois toda a criação artística brasileira, o Carnaval, todas essas coisas que foram “sendo saídas” de um encantamento, de um conto de fadas.  Então o Brasil está fadado um pouco a essa coisa, embora muita gente lute contra, porque queria uma inserção do Brasil em um modelo clássico, em um modelo ocidental europeu, que está justamente na cisão do processo civilizatório gestado na Europa.  Gestado ali exatamente no início, quando os Cruzados vêm, uns para criar os reinos europeus montados na ambição material, na ideia de mais conquistas de territórios e produção de riquezas, de acumulação etc. etc., e outros, no projeto de ocupação dos portugueses, fundamentados no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência.  Essas coisas são distintas na origem e o brasileiro não tem conhecimento dessas suas origens.  Até rejeita um pouco a origem portuguesa, a coisa dos degredados.  Mas quem eram os degredados?  Quem eram esses criminosos?  Eram criminosos porque estavam fugindo da Inquisição, porque professavam a fé no Espírito Santo, na chegada de um outro reino, na beleza da bondade e da verdade.  O Brasil está nessas origens, enquanto a América do Norte e outras áreas da expansão europeia pelo mundo com a colonização estavam fundadas em outros pressupostos.

Isso que chamamos de fundação, esses traços fundadores que parecem tão definidores, faz com que estejamos fadados a repetir para sempre as coisas boas e também as ruins, como desigualdade, preconceito etc? O fado é uma canção, o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço.  O fado é dinâmico, ele continua submetido à dinâmica da passagem do tempo e da ação do homem.  O fado é o que a gente faz.  Não é só aquilo a que estamos destinados.  Não é o destino.  É um caminho para o destino.  Não é como cair no fundo do poço de Alice no País das Maravilhas, e sermos jogados no lugar.  Nós temos de caminhar até esse lugar.  É um progresso, um processo, um caminhar.  Portanto, a tomada de consciência em relação a isso é profundamente importante.  Nós só vamos caminhar numa direção se soubermos qual é essa direção, se tivermos olhos voltados para vê-la, identificá-la, e construir o caminho que leva até ela.  Essa é a questão brasileira.  Não é uma condenação.  O brasileiro não está condenado a ser alguma coisa.  Ele está fadado a ser alguma coisa.

Um dos problemas do Brasil e da América Latina é a corrupção?  A corrupção é um problema da América Latina? Não, a corrupção é um problema da humanidade.  Há sistemas de relacionamento social que facilitam, propiciam – uns mais do que outros –, a corrupção.  Há sistemas jurídicos e sistemas econômicos que facilitam mais ou menos a corrupção.  Mas a corrupção hoje em dia, nesse sistema que está aí, que foi autorizando cada vez mais a exploração de uns por outros, a imposição de poder de uns sobre outros, surge por decorrência da própria falência natural que os sistemas vão sofrendo.  A falência dos controles, dos princípios.  Toda vez que se quer escorregar para infringir uma norma, a corrupção é uma das formas.  E não é uma questão brasileira.

Qual é a questão brasileira? Não há uma.  A questão brasileira é sermos o que somos no dia a dia transformador.  Transformarmo- nos do que somos no que seremos e no que não seremos.  É essa a atuação permanente da vida sobre nós e de nós sobre a vida.  O Brasil não precisa desenhar destinos e nem nada disso, não… Basta viver e pautar esse viver pela ideia do bem, do bem viver.  Cada vez entender melhor, coletivamente, o que é bem viver, o que é produzir a sua continuidade da maneira mais amena possível.  É criar bem-estar!

gil 2Nós temos alguns caminhos aí, como a indústria criativa.  Estávamos falando de diversidade cultural.  Temos também uma diversidade biológica muito grande.  São grandes riquezas, mas curiosamente a economia brasileira não vive disso.  Por que será? Em que medida o Brasil será capaz de se desgarrar dessa monocultura mundial, em que vemos o utilitarismo, a produtividade vista sob um certo aspecto enviesado e a prevalência do poder do mais forte, o “privilegiamento” dessa hierarquização, dessa forma de aceitar o primado do mais forte sobre o mais fraco?  A questão é se o Brasil será capaz de sair disso para realmente produzir uma sociedade de mais igualdade e fraternidade, mais fundada em princípios que são enunciados, anunciados, mas muito pouco perseguidos verdadeiramente pelo conjunto da humanidade.  A questão é se o Brasil será capaz – e possivelmente não poderá fazer isso sozinho – de juntar outros povos do mundo nessa proposta.  Quer dizer, vamos caminhar mesmo?  Vamos ter o caminho do nosso destino?  Isso é o nosso fazer.  O fato de estarmos discutindo isso, procurando compreender possibilidades agora de fazermos isso já é um sinal de que estamos querendo caminhar nessa direção.  Por que vocês que produzem e publicam informação estão querendo saber disso?  Por alguma razão.  Porque percebem que se quer saber disso.  Percebem que o Brasil e o mundo cada vez mais querem saber disso.  É sinal de um sinal que está por aí.  Sinal de que está no radar, usando a expressão que você colocou.

Há seis anos, metade do primeiro mandato do presidente Lula, eu (Ana d’Angelo) o entrevistei como ministro da Cultura e convidado do Fórum Mundial das Culturas, em Barcelona.  Interessante lembrar disso, porque naquela época o País entrava na moda na Europa, havia um clima de otimismo, não se falava em crise.  Havia quase uma reverência para com o Brasil.  E hoje, seis anos depois? Acho que isso aumentou muito no mundo.  Evidentemente que toda essa atitude reverente de expectativa positiva em relação ao Brasil tinha muito de modelos anteriores que se buscava repetir, dimensões utópicas já consagradas, que se gostaria de ver realizadas, manifestadas.  Tinha muito de um sonho da Europa frustrada por não ter sido aquilo que ela própria quis ser.  A Revolução Francesa que ficou pelo caminho, a Revolução Americana que ficou pelo caminho, as revoluções todas outras que ficaram pelo caminho.  E, de repente, a gente quer outra dimensão messiânica, alguém que seja o restaurador, o salvador.  E chega uma hora em que o mundo também começa a querer ver o Brasil sob essa ótica.  E talvez não, possivelmente o Brasil não será nada disso e é desejável que não seja exatamente isso.  É desejável que seja uma coisa nova, desconhecida, a ser construída.  Nesse sentido, acho que essa expectativa cresce, mas com uma qualidade instrutiva, quer dizer: cada vez mais o mundo todo espera do Brasil, mas cada vez mais se espera uma coisa que não se sabe o que é (risos).  Isso vai proporcionando capacidade de diálogo, de conversa, de entendimento, de afetividade, atratividade.  O Brasil vai se tornando atraente e vai atraindo também…

Quando se sabe muito bem o que se quer não se tem inovação, certo?Não tem!  Então é assim, feitiço.  O Brasil é feitiço, tem que saber disso…

E no governo Dilma, alguma possibilidade política? Para mim, não.  Não quero mais, não.

Já teve a experiência… Já e não quero, não me sinto capacitado.  O político tem de trabalhar com exiguidades muito precisas.  Um senso muito preciso de impossibilidades, de limites, de redução de horizontes etc.

É o oposto da arte, não é? É o oposto da arte.

Além disso, o orçamento da Cultura diante dos outros ministérios é de chorar… Também é muito pequeno.  Com toda a gritaria que a gente fez, a gente não conseguiu chegar a níveis razoáveis de recursos.  Mas estamos aí para ajudar.  Acho que a parceria dos governos com a sociedade é algo cada vez mais importante, no sentido de que os governos entendam que as sociedades precisam andar.  Apesar de as sociedades não saberem para onde, o governo tem de ter um pouco dessa capacidade interpretativa, de leitura dos desejos ocultos.  Espero que o governo da Dilma e tantos outros governos no mundo tenham essa capacidade de entender essa relação profunda com o desconhecido, essa relação respeitosa com o desconhecido para que ele seja fonte de instrução para o conhecido, para a busca do conhecimento.  Espero que esse espírito, essa visão, esteja – se possível – em todos os governos do mundo.

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A Cuba que Raúl encontrou

“Fidel é a principal força da revolução, mas também sua principal debilidade” –  Gabriel García Márquez

 

Para muitos, a herança que deixa Fidel Castro depois de 49 anos é terrível e ponto. Alguns se servem de estatísticas da Cuba republicana para demonstrar o fracasso: em 1959, com uma população de 6 milhões de pessoas, a Ilha possuía mais eletrodomésticos que qualquer outro país da América Latina e tinha mais quilômetros em linhas férreas e melhor infra-estrutura que qualquer um dos países vizinhos. Em 1958, a produção de açúcar superou quatro vezes a alcançada em 2007. Isso sem falar dos direitos políticos e civis e da reforma agrária, já que hoje praticamente metade das terras está nas mãos do Estado, improdutivas, o que força a uma importação de 80% dos alimentos consumidos.

Para os defensores do sistema, os dados que contam são outros: além da infra-estrutura sanitária e dos índices de saúde em nível de primeiro mundo, a revolução deixa um país com 800 mil graduados universitários, 1,5 milhão de pessoas com formação técnico profissional e 9.000 cientistas, um capital humano que é o principal orgulho de Cuba, junto a outros intangíveis como o sentido de independência e soberania, que tornam muito difícil a volta do “imperalismo ianque” contra o qual Castro lutou durante toda a vida.

Uma volta por Havana acaba por atestar todos os paradoxos de Cuba. Milhares de edifícios na capital parecem ter sido bombardeados na noite anterior, uma imagem que será a fatura mais alta que a história cobrará dos 49 anos de governo de Fidel Castro. O desastre é bem visível. Havana Velha, Centro Havana, Cerro e 10 de Outubro têm mais de 72 mil casas em estado precário. Até os turistas mais militantes ficam impressionados com a visão e voltam para casa impactados com isso, acima de qualquer consideração política. 

Da mesma forma, o processo que congelou o desenvolvimento de Havana durante cinqüenta anos conservou milagrosamente bairros como o Vedado, que passou incólume à especulação imobiliária e aos arranha-céus. A situação arquitetônica é um bom modelo para se entender o legado de Fidel Castro. E as contradições podem ser aplicadas a outros aspectos, sucessivamente. O escritor espanhol Manuel Vásquez Montalbán observou que  a revolução cubana possibilitou que Cuba tivesse mais bailarinos clássicos por habitante que qualquer outro país do mundo. Mas esse mesmo país não conseguia impedir que os bailarinos, neurocirurgiões, percussionistas e técnicos em informática fugissem dali assim que percebiam que ali não haveria emprego.

No mesmo passeio por Havana ou qualquer cidade do interior de Cuba, uma observação salta aos olhos. Cadeiras de balanço nas portas das casas, gente disposta a discutir assuntos variados e uma aptidão para a arte que parece nata a quem nasceu ali.

 No campo da educação, Cuba mantinha três universidades  antes de 59, concentradas em Havana. Hoje são  67 faculdades espalhadas pela Ilha, 98% da população estuda até a universidade e o analfabetismo é mínimo.  A escola é um patrimônio nacional, pais que não mandam filhos para escola são punidos.  Os livros são traduzidos em edições populares e o nível de leitura é muito alto. Um brasileiro não deve estranhar se algum cubano lhe perguntar por Gilberto Freyre, Jorge Amado ou Guimarães Rosa. 

Cuba tem um médico para cada 160 cubanos e aplica, como nenhum país da América Latina, a prática da medicina preventiva. A taxa de mortalidade infantil é de cinco crianças para cada 1.000 que nascem, índice equivalente a qualquer país de primeiro mundo.  Além da presença em todas as principais competições internacionais, Cuba incentiva a prática esportiva desde a infância, com “olheiros” do Ministério dos Esportes que buscam atletas com potencial a ser desenvolvido pelos quatro cantos da Ilha.

Contudo, a imagem dos caranguejos que insistem em atravessar a via asfaltada que leva às praias do extremo leste de Cuba supõe uma metáfora que leva a pensar  o que pode ser a vida dos cubanos daqui em diante. Há apostas de avanços, de regresso ou da manutenção do status.  Alguns caranguejos completam a travessia e chegam ao mangue, outros são atropelados no caminho. O barulho em torno da renúncia de Fidel Castro depois de 49 anos no poder não é para menos. O único e último líder carismático socialista da América Latina deixou  no governo seu irmão Raúl Castro e uma série de dúvidas sobre a situação real dos quase 12 milhões de habitantes do único país que implantou o socialismo no continente. 

Menos rebuliço que durante a Guerra Fria, os Estados Unidos, que mantêm um embargo econômico à Ilha desde a década de 60, quando Fidel chegou ao poder, se mantiveram expectadores da mudança histórica. Os líderes mundiais se manifestaram em prol da democracia e maior liberdade de expressão – os dois gargalos mais preementes – mas não se fala mais em interferência externa.

Afinal, que país recebe Raúl Castro? O mesmo país com invejáveis estatísticas de analfabetismo, próximo do zero, saúde preventiva e vigor cultural, sofre com moradias decadentes, falta de alimentos e transporte precário e empregos limitados.

Os cubanos buscarão seu próprio caminho, é a voz de defensores do regime que viveram algum tempo lá, como o ex-embaixador do Brasil em Cuba, Tilden Santiago. “O passado de Cuba nunca será seu futuro”, declara, em tom solene o ex-diplomata. O contexto alinhado à esquerda dos países latinos anima a discussão. Santiago acredita em mudanças graduais, sob o eixo do socialismo. Raúl em menos de um mês no poder liberou a venda de computadores e DVDs em Cuba, declarou que a meta será atender a “necessidades materiais e espirituais das pessoas”.  Na última medida noticiada, permitiu aos cubanos o uso do celular, antes restrito a funcionários públicos e estrangeiros.

Santiago aposta em soluções internas, a exemplo do que vem ocorrendo com os vizinhos latinos, que viram a ascensão de líderes representantes das classes populares e têm buscado seus próprios caminhos, a despeito dos acordos diplomáticos.

Uma abertura desordenada poderia exterminar os cubanos, alerta o professor da PUC Minas, especialista em América Latina, Javier Vadell. “Na União Soviética, a abertura causou morte em massa por falta de alimentos e saúde”, lembra.  Novos pontos de vista começam a aparecer agora, com o afastamento de Fidel, o que permite mudanças graduais, na opinião de Vadell. “Mas não haverá nada radical”.

Além de incrementar alternativas à escassez provocada pelo embargo econômicos dos EUA, Raúl terá de lidar com a decadência urbanística de Havana. A capital cubana tem uma imensa área em decomposição e o ritmo de reconstrução, apoiado por países europeus e pela ONU, não acompanha a velocidade do tempo. Havana Velha e seus casarios parecem cair a qualquer momento e, na maioria das ruas da região, o esgoto corre pelas calçadas. Morar em Havana é um problema. Quando um casal se casa, conta o ex-embaixador Tilden Santiago, a primeira coisa a se pensar é se vão morar com os pais da noiva ou do noivo. Não há moradia disponível.

O transporte dentro da capital e entre as cidades cubanas também é extremamente precário. O governo fez acordos recentes com países asiáticos para a compra de ônibus novos , mas ainda em número insuficiente. Os famosos carros dos anos 50 circulam em Havana como táxi, cobrando na moeda nacional, o peso cubano, outra contradição local. Turistas usam o peso conversível, o CUC, de valor equivalente ao dólar. Já os cubanos recebem e gastam em peso cubano, que vale algumas dezenas de vezes menos. A existência de duas moedas permite aos turistas acesso ao que existe em qualquer lugar do mundo e afasta definitivamente os cubanos desse universo.

Percival Puggina, autor de “Cuba, a Tragédia da Utopia” (editora Literalis, 2004) faz críticas contundentes ao regime.  

“Não existe qualquer milagre nos indicadores cubanos de educação. A taxa de analfabetismo, em 1959 era de apenas 20%. E tampouco existe mérito nos índices de “educação” de um povo onde os graduados em cursos superiores, médicos, engenheiros abordam turistas nas portas dos hotéis para se oferecerem como guias para visitas à cidade. O tipo de educação proporcionado aos cubanos não gera iniciativas numa economia que não produz oportunidades. Como me disse um casal idoso com quem conversei num fim de tarde, junto à mureta do Malecón: “É, dizem que esses indicadores são bons, mas quando a gente não está doente nem estudando, o resto é uma porcaria”. Para assegurar uma educação doutrinadora, constitucionalmente obrigada a servir ao comunismo, e uma oferta de serviços de saúde quantitativamente satisfatória mas sem qualidade alguma (nem técnica nem clínica), o governo cubano se apropria da totalidade da renda nacional e transforma o conjunto da população em escravos remunerados a um salário infamante de 10 dólares mensais”.

 Revista Planeta – junho de 2008