O Brasil é feitiço

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Por Ana d´Angelo e Amália Safatle/Revista Página 22

Tem que saber disso.  A rima rítmica na fala de Gilberto Gil está no seu entendimento do que é Brasil.  Na leitura do músico, quando José de Anchieta colocou os índios no colo, em profunda manifestação de afeto, reforçou um traço definidor da nossa sociedade.  Traço este que havia começado a se delinear na formação de um reino europeu diferenciado.  Pois, enquanto os demais exploradores foram guiados pela ambição material e pela busca de acumulação de riquezas, o projeto de expansão territorial dos portugueses fundamentou-se “no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência”.  Degredados que aqui deram início à miscigenação eram considerados criminosos porque fugiam da Inquisição, diz Gil nesta entrevista.

Assim, o Brasil se fundou no ideário de liberdade e espiritualidade, reavivando o mito de que esta é a terra da promessa, do encantamento, do conto de fadas, dançado nos Carnavais – com todos os problemas que isso também acarreta.  Um lugar que, para contragosto de muitos, subverte o modelo clássico europeu e tem nas mãos um pacote estratégico a oferecer a um mundo carente: afeto.

Mas que não está condenado a ser alguma coisa, e sim fadado a ser.  Lembrando que o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço, o fado é uma canção.  “O fado é o que a gente faz”, diz o bruxo Gil.

Na sua opinião, o que melhor a sociedade brasileira tem para oferecer ao mundo?  O que o Brasil produz que faz a diferença? O Brasil é uma nação que resulta de uma série de coisas particulares, próprias, de que outros povos não resultaram.  Isso para tratar do Brasil que depois leva este nome e se torna a nação configurada neste território, com presença dessas múltiplas vertentes étnicas.  A ameríndia estava aqui já, o português que chega, o africano que é trazido depois.  A formação da sociedade brasileira, e depois o Estado brasileiro: primeiro o Estado monárquico, depois o imperial, depois o republicano e, em meio a tudo isso, a sociedade foi marcando seu dia a dia dentro dessas possibilidades de configuração e com todos esses elementos.  O português chegando aqui, começando a miscigenação com os índios, depois com os africanos e criando essa nação mestiça, mameluca, cabocla…

Então é a diversidade que faz a diferença? A diversidade existe em qualquer lugar.  A diversidade brasileira é esta.  É diferente da diversidade americana, é diferente da Europa gaulesa, que é outra, da Europa escandinava, que é outra, da Europa eslava, que é outra, das Áfricas várias, que são várias, da América Latina, que é outra configuração, com a vertente espanhola que se mistura a povos andinos… Então a brasileira é a sua, a que foi “conscrita” neste território, com esses povos que fizeram o Brasil com essas expressões culturais desenvolvidas aqui.  Brasil é Brasil, não é a Argentina nem a Inglaterra.  É o Brasil.

Este Fórum Internacional Geopolítica da Cultura e da Tecnologia (ocorrido em São Paulo em meados de novembro), cuja curadoria teve sua colaboração, fala em transformar nossa singularidade em um valor estratégico que beneficie quem a inventou – o povo.  Que características estão aptas a ser transformadas em valor estratégico real nesse reposicionamento do mundo, nessa nova geopolítica? A vocação para uma configuração de uma comunidade mais integrada.  Mais integrada a partir de elementos fortes da espiritualidade, da fantasia, de uma subjetividade criativa, “celebracional”, mestiça em vários sentidos, com a preferência pela efusividade, pela alegria, enfim, pela solução afetiva de conflitos, gentil, cordial.

Que ao mesmo tempo tem uma violência… Tem.  Nada é só bom.  Mas a gente está falando dessas características configuradas num território, numa população mestiça, falando uma língua trazida da Europa, mas ao mesmo tempo trazida por um povo europeu muito distinto dos outros povos, quer dizer, com ambições diferenciadas em relação aos espanhóis, aos ingleses, aos franceses.  Os descobrimentos portugueses estavam inspirados pelo Espírito Santo.  Anchieta colocava os índios no colo e, apesar de minimamente estar submetido aos desígnios colonizadores do seu povo europeu, tinha pelos índios um amor… Foi ele quem insistiu e conseguiu que a Corte Portuguesa não escravizasse os índios.  Então essas coisas estão na origem brasileira.  Foi ele quem colocou os instrumentos, os violões, as guitarras, as flautas na mão dos índios.  Essa musicalidade extraordinária brasileira tem embrião nesses primeiros momentos.  São ingredientes que podem configurar a construção de um “pacote estratégico brasileiro”, que pode servir não só para nós, para nos relacionarmos com altivez e grandeza com o resto do mundo, mas também para sermos elemento importante para essas outras culturas do mundo.  Para ensinarmos, para sermos exemplo, referência a um mundo que está ficando muito complexo, está ficando muito confuso, está ficando muito célere, em que a formação de conflitos novos é exponencial.  Portanto, têm valor estratégico humanidades que possam desenvolver capacidade de afeto, de concórdia, de compreensão mútua, de fruição, de entendimento mais profundo de sua relação com a natureza, de pertencimento à natureza – e, portanto, de respeito à natureza –, de integração de necessidades materiais com profunda capacidade de reverenciar o espírito.  São questões estratégicas para a humanidade, vendo aí não mais a estratégia parcial da nação contra outra nação, não de um território contra outro território, e, sim, estratégia de vida para a humanidade no planeta.

Podemos considerar isso como o que há de mais moderno, no sentido de estar na ponta, estar na frente? Se houvesse um radar de inovação no globo, ele apontaria essas características como a “modernidade” que temos a oferecer?  É isso o que a Terra está dizendo no modo mais atual, mais contemporâneo de entender a vida.  Bem viver.  Produção de futuro.  Como produzir futuros desejáveis e sustentáveis, como produzir sociedades humanas mais integradas, como produzir sociedades humanas que vivam compartilhamentos mais efetivos de tudo, de riqueza material, de riqueza simbólica.  É assim que a Terra vê o seu futuro, não é o Brasil (risos).  Por acaso, coincide que o Brasil é um dos povos hoje em dia que mais podem contribuir para essa perspectiva futura da humanidade, porque ele já vem, desde sua formação, consolidando essa nova matriz de vida social.

Naquela sua canção com o Jorge Mautner, Outros Virão (sic)… Outros Viram.

Sim, desculpe. Mas pode ser Outros Virão, nesse sentido que nós estamos falando aqui.  Mas ali é o oposto, é outros viram essa coisa no Brasil.

Sim.  Mas por que, segundo a canção, eles viram e nós não?  Por que não vimos?  A gente se autossabota? É porque a gente só se vê no espelho.  A gente só se vê na superfície quieta das águas, ou no espelho no sentido mais moderno do termo, essa superfície lisa na parede que reflete nossa imagem.  Quem vê a gente por inteiro são os outros, são os de fora.  A gente só vê uma parte da gente, a mão… A gente não vê nossas costas.  Não vê o que está por trás… A gente só se vê parcialmente.  Quem pode ver a gente mais inteiramente é o outro, então a canção é sobre isso: como os outros viram o Brasil.

E como viram? Como um lugar da promessa.  Porque esse nome Brasil vem da raiz celta bras, que significa “terra encantada”.  Quer dizer, já antes da descoberta pelos portugueses, o Brasil aparecia nos mapas medievais como uma terra da promessa.  Ao longo da História, foi havendo uma reiteração dessa imagem, dessa visão, primeiro por causa dos índios levados para as cortes europeias, como exemplo de um ser humano íntegro, inocente, completo, pleno, belo.  E depois toda a criação artística brasileira, o Carnaval, todas essas coisas que foram “sendo saídas” de um encantamento, de um conto de fadas.  Então o Brasil está fadado um pouco a essa coisa, embora muita gente lute contra, porque queria uma inserção do Brasil em um modelo clássico, em um modelo ocidental europeu, que está justamente na cisão do processo civilizatório gestado na Europa.  Gestado ali exatamente no início, quando os Cruzados vêm, uns para criar os reinos europeus montados na ambição material, na ideia de mais conquistas de territórios e produção de riquezas, de acumulação etc. etc., e outros, no projeto de ocupação dos portugueses, fundamentados no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência.  Essas coisas são distintas na origem e o brasileiro não tem conhecimento dessas suas origens.  Até rejeita um pouco a origem portuguesa, a coisa dos degredados.  Mas quem eram os degredados?  Quem eram esses criminosos?  Eram criminosos porque estavam fugindo da Inquisição, porque professavam a fé no Espírito Santo, na chegada de um outro reino, na beleza da bondade e da verdade.  O Brasil está nessas origens, enquanto a América do Norte e outras áreas da expansão europeia pelo mundo com a colonização estavam fundadas em outros pressupostos.

Isso que chamamos de fundação, esses traços fundadores que parecem tão definidores, faz com que estejamos fadados a repetir para sempre as coisas boas e também as ruins, como desigualdade, preconceito etc? O fado é uma canção, o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço.  O fado é dinâmico, ele continua submetido à dinâmica da passagem do tempo e da ação do homem.  O fado é o que a gente faz.  Não é só aquilo a que estamos destinados.  Não é o destino.  É um caminho para o destino.  Não é como cair no fundo do poço de Alice no País das Maravilhas, e sermos jogados no lugar.  Nós temos de caminhar até esse lugar.  É um progresso, um processo, um caminhar.  Portanto, a tomada de consciência em relação a isso é profundamente importante.  Nós só vamos caminhar numa direção se soubermos qual é essa direção, se tivermos olhos voltados para vê-la, identificá-la, e construir o caminho que leva até ela.  Essa é a questão brasileira.  Não é uma condenação.  O brasileiro não está condenado a ser alguma coisa.  Ele está fadado a ser alguma coisa.

Um dos problemas do Brasil e da América Latina é a corrupção?  A corrupção é um problema da América Latina? Não, a corrupção é um problema da humanidade.  Há sistemas de relacionamento social que facilitam, propiciam – uns mais do que outros –, a corrupção.  Há sistemas jurídicos e sistemas econômicos que facilitam mais ou menos a corrupção.  Mas a corrupção hoje em dia, nesse sistema que está aí, que foi autorizando cada vez mais a exploração de uns por outros, a imposição de poder de uns sobre outros, surge por decorrência da própria falência natural que os sistemas vão sofrendo.  A falência dos controles, dos princípios.  Toda vez que se quer escorregar para infringir uma norma, a corrupção é uma das formas.  E não é uma questão brasileira.

Qual é a questão brasileira? Não há uma.  A questão brasileira é sermos o que somos no dia a dia transformador.  Transformarmo- nos do que somos no que seremos e no que não seremos.  É essa a atuação permanente da vida sobre nós e de nós sobre a vida.  O Brasil não precisa desenhar destinos e nem nada disso, não… Basta viver e pautar esse viver pela ideia do bem, do bem viver.  Cada vez entender melhor, coletivamente, o que é bem viver, o que é produzir a sua continuidade da maneira mais amena possível.  É criar bem-estar!

gil 2Nós temos alguns caminhos aí, como a indústria criativa.  Estávamos falando de diversidade cultural.  Temos também uma diversidade biológica muito grande.  São grandes riquezas, mas curiosamente a economia brasileira não vive disso.  Por que será? Em que medida o Brasil será capaz de se desgarrar dessa monocultura mundial, em que vemos o utilitarismo, a produtividade vista sob um certo aspecto enviesado e a prevalência do poder do mais forte, o “privilegiamento” dessa hierarquização, dessa forma de aceitar o primado do mais forte sobre o mais fraco?  A questão é se o Brasil será capaz de sair disso para realmente produzir uma sociedade de mais igualdade e fraternidade, mais fundada em princípios que são enunciados, anunciados, mas muito pouco perseguidos verdadeiramente pelo conjunto da humanidade.  A questão é se o Brasil será capaz – e possivelmente não poderá fazer isso sozinho – de juntar outros povos do mundo nessa proposta.  Quer dizer, vamos caminhar mesmo?  Vamos ter o caminho do nosso destino?  Isso é o nosso fazer.  O fato de estarmos discutindo isso, procurando compreender possibilidades agora de fazermos isso já é um sinal de que estamos querendo caminhar nessa direção.  Por que vocês que produzem e publicam informação estão querendo saber disso?  Por alguma razão.  Porque percebem que se quer saber disso.  Percebem que o Brasil e o mundo cada vez mais querem saber disso.  É sinal de um sinal que está por aí.  Sinal de que está no radar, usando a expressão que você colocou.

Há seis anos, metade do primeiro mandato do presidente Lula, eu (Ana d’Angelo) o entrevistei como ministro da Cultura e convidado do Fórum Mundial das Culturas, em Barcelona.  Interessante lembrar disso, porque naquela época o País entrava na moda na Europa, havia um clima de otimismo, não se falava em crise.  Havia quase uma reverência para com o Brasil.  E hoje, seis anos depois? Acho que isso aumentou muito no mundo.  Evidentemente que toda essa atitude reverente de expectativa positiva em relação ao Brasil tinha muito de modelos anteriores que se buscava repetir, dimensões utópicas já consagradas, que se gostaria de ver realizadas, manifestadas.  Tinha muito de um sonho da Europa frustrada por não ter sido aquilo que ela própria quis ser.  A Revolução Francesa que ficou pelo caminho, a Revolução Americana que ficou pelo caminho, as revoluções todas outras que ficaram pelo caminho.  E, de repente, a gente quer outra dimensão messiânica, alguém que seja o restaurador, o salvador.  E chega uma hora em que o mundo também começa a querer ver o Brasil sob essa ótica.  E talvez não, possivelmente o Brasil não será nada disso e é desejável que não seja exatamente isso.  É desejável que seja uma coisa nova, desconhecida, a ser construída.  Nesse sentido, acho que essa expectativa cresce, mas com uma qualidade instrutiva, quer dizer: cada vez mais o mundo todo espera do Brasil, mas cada vez mais se espera uma coisa que não se sabe o que é (risos).  Isso vai proporcionando capacidade de diálogo, de conversa, de entendimento, de afetividade, atratividade.  O Brasil vai se tornando atraente e vai atraindo também…

Quando se sabe muito bem o que se quer não se tem inovação, certo?Não tem!  Então é assim, feitiço.  O Brasil é feitiço, tem que saber disso…

E no governo Dilma, alguma possibilidade política? Para mim, não.  Não quero mais, não.

Já teve a experiência… Já e não quero, não me sinto capacitado.  O político tem de trabalhar com exiguidades muito precisas.  Um senso muito preciso de impossibilidades, de limites, de redução de horizontes etc.

É o oposto da arte, não é? É o oposto da arte.

Além disso, o orçamento da Cultura diante dos outros ministérios é de chorar… Também é muito pequeno.  Com toda a gritaria que a gente fez, a gente não conseguiu chegar a níveis razoáveis de recursos.  Mas estamos aí para ajudar.  Acho que a parceria dos governos com a sociedade é algo cada vez mais importante, no sentido de que os governos entendam que as sociedades precisam andar.  Apesar de as sociedades não saberem para onde, o governo tem de ter um pouco dessa capacidade interpretativa, de leitura dos desejos ocultos.  Espero que o governo da Dilma e tantos outros governos no mundo tenham essa capacidade de entender essa relação profunda com o desconhecido, essa relação respeitosa com o desconhecido para que ele seja fonte de instrução para o conhecido, para a busca do conhecimento.  Espero que esse espírito, essa visão, esteja – se possível – em todos os governos do mundo.

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Outra Utopia de Cidade

Para quem sai da Zona Sul são dois ônibus, com risco de pegar a linha errada já que os olhos estão acostumados àquela paisagem do cartão postal em que vive a elite branca carioca. O Complexo da Maré impressiona, primeiro, pelo tamanho e formato – são cerca de 130 mil moradores em diversas comunidades e conjuntos habitacionais espalhados horizontalmente – e por estar às margens da avenida Brasil e da baía de Guanabara. O manguezal da Maré foi ocupado a partir do século XX por barracos e palafitas, depois aterrado pela população e poder público. Virava notícia só quando o aglomerado inundava ou nos episódios de violência – ao menos três facções criminosas ali se alojam. Tirando a enchente, pouco mudou com os anos, tal como as distinções periferia/centro, asfalto/favela que cuidam de perpetuar estereótipos, evitando um pensamento de transformações. A diversidade da Maré comporta, desde 2001, o Observatório de Favelas, organização social que trata de reposicionar o tema e os espaços populares na vida da cidade. “A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade a partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. É preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade”, afirma Jorge Barbosa, um dos fundadores do Observatório de Favelas, que falou com exclusividade para esta edição da Página 22.

O Observatório é uma organização social criada em 2001 na perspectiva de se construir conhecimento sobre as favelas e espaços populares.  Nesses primeiros anos, o foco era incentivar essa produção de informações e, ao mesmo tempo, formar pesquisadores locais, nas comunidades. Os próprios fundadores e hoje diretores vieram dessas comunidades? Podemos dizer que o início do Observatório era colocar a favela e a periferia na pauta de discussões da sociedade? Torná-la visível?  Fale sobre este começo e o que implica uma organização social surgir de gente de dentro da realidade vivida.

O Observatório é uma instituição que busca a produção de conhecimento. Nós somos oriundos de espaços populares e passamos pela universidade. Nunca nos afastamos das nossas relações de pertencimento aos espaços populares. A ideia de construir um observatório era ter uma instituição capaz de construir conhecimento inovador, fazer desse conhecimento uma mediação para ação pública, sobretudo, colocando a favela na agenda da cidade de uma forma positiva. A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade, mas de uma forma negativa. A partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. E cujo receituário era remoção, ou seja, a favela sempre vista como problema ou distorção da urbanização acelerada do território brasileiro. A ideia era,  a partir da produção do conhecimento, colocar  a periferia e a favela de uma forma propositiva e positiva. Mostrar que ela é produto das contradições da cidade e das desigualdades sociais, da distinção territorial dos direitos e, ao mesmo tempo, é uma expressão legítima do direito de habitar a cidade por parte de grupos sociais mais vulneráveis, mais desiguais. Isso gera uma inversão, uma inflexão política do lugar da favela na agenda. Ao invés de ser um problema, ela se torna uma esfera da busca pelo direito de cidade. Ah, precisa urbanizar as favelas, dizem. Claro, é preciso ter saneamento, habitações qualificadas, equipamentos culturais e educacionais, ou seja, toda a urbanidade que uma cidade possui. Mas mais que isso, é preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade. Novas sociabilidades, novos encontros e experiências de estar com o outro, reconhecimento de que somos uma sociedade diferente e plural. Tentamos pautar não um projeto para a favela, mas um projeto para a cidade, um projeto novo e radical de cidade.

Jorge, e quem eram vocês há 13 anos atrás, quando da fundação do OF? Eram colegas de universidade, vizinhos de bairro?

Eu e Jailson  (Jailson de Souza e Silva também é fundador e diretor do OF) estudamos juntos, na mesma universidade, no curso de Geografia. E sou do Caju e o Jailson é de Brás de Pina, depois ele se mudou para a Maré. Nós viemos de bairros populares e já tínhamos alguma experiência de militância. Ele mais na militância católica popular, eu mais na militância estudantil. Ele já fazia um trabalho na Maré e me convidou para trabalhar no censo da Maré, na leitura dos dados. Fui ficando e resolvemos criar uma  instituição, como um observatório, que não fosse da Maré e para a Maré. Fizemos um projeto para a Fundação Ford e durante dois anos tivemos esse apoio, criamos um grande projeto de formação de pesquisadores populares o que abriu o horizonte de construção da instituição que acabou ficando na Maré, nosso berço.

 

E como foi a transformação do OF ao longo do tempo, quando passou a abrigar pessoas com formações e origens diversas? Isso foi guiado pelos projetos?

Nós passamos a entender que havia uma agenda de democratização da cidade a partir de políticas públicas. E passamos a entender quais os campos principais do debate para o direito à cidade, trabalhando nessas grandes temáticas: direitos humanos, por exemplo, para nós é decisivo diante do processo brutal de repressão e violência porque partimos da consideração que as favelas não são violentas. Elas são mais duramente afetadas pela violência. Isso faz uma inflexão na política de segurança pública, ou seja, a favela é um lugar de pessoas mais desprotegidas, mais frágeis e vulneráveis à violência urbana. Porque o Estado abdicou das favelas e não impediu, de uma forma segura e efetiva, que elas fossem ocupadas por grupos criminosos e armados. Criamos uma outra linha para se pensar direitos humanos, trazendo este debate para dentro do território. Entramos também na educação, entendíamos que a política de educação no campo da universidade era um divisor de águas que  não superava as desigualdades. Sobretudo desigualdades raciais e territoriais. Que a universidade abrigasse de fato a democracia, os grupos populares e não estivesse tão distante que as pessoas não pudessem sonhar. Então criamos o projeto Conexões de Saberes, de 2005 a 2008, que depois se tornou uma política pública do MEC e hoje é um PET – Programa Especial de Treinamento do Ministério da Educação. Desenhamos este projeto que aconteceu em 33 universidades. O MEC absorveu muita coisa do projeto. Deu a possibilidade de o MEC trabalhar a política de cota com muito mais conhecimento do que acontecia em termos de ingresso e permanência dos jovens nas universidades. Fizemos uma grande pesquisa em 33 universidades brasileiras sobre a questão do ingresso, pegando os cursos mais procurados e os menos procurados e como o jovem de origem popular ingressava em um lado ou outro. A partir daí vimos que  estudantes de escolas privadas ou escolas públicas federais têm muito maior probabilidade de entrar nos cursos de maior concorrência do que os de origem popular. Outro dado foi a renda familiar. Filhos de determinadas classes com maior renda e propriedade também têm maior chance de entrar nas universidades. Isso já estava consagrado,  mas conseguimos comprovar pelas pesquisas. O que não estava comprovado e foi determinante para uma política pública afirmativa era o dado que a gente descobriu: a escolaridade dos pais, o currículo implícito. Um jovem de origem popular, em média, entrava aos 24 anos na universidade, já entrava na hora de sair. Já tinha um recorte aí e outras implicações: a variável fundamental era escolaridade dos pais. Ou seja, um jovem cujo pai e mãe têm mestrado, doutorado ou graduação tem muito mais chance de entrar na universidade que a questão da renda ou o fato de ter passado por escola privada. Porque este jovem teve acesso a um livro, ia ao teatro, ao cinema, tinha um currículo implícito que o distinguia dos demais. O capital social e cultural tornava-se fundamental para o vestibular e para entrar  no curso. Daí se juntarmos um recorte racial – nós sabemos que grande parte dos negros tem mais dificuldade de acesso – mais a questão social (o currículo implícito) ficou evidenciado que para superar essa situação de desigualdade social que a universidade reproduzia, só com uma política de ação afirmativa, de cotas. Entre um jovem que mora na Rocinha e outro que mora num apartamento em condomínio de São Conrado , apesar de serem vizinhos, há uma territorialidade muito diferente. Um jovem da Rocinha para alcançar um nível de escolaridade de um jovem de São Conrado levaria 100 anos sem as políticas públicas de acesso. Passamos a pautar esse debate nas universidades que se beneficiaram destes estudos. Eu e Jailson, por exemplo, fomos os primeiros das nossas famílias a entrar na universidade, o que mostra como ela esteve distante dos projetos e sonhos de uma grande parte da população, por muitas gerações. Este foi um projeto que deixou um lastro. Também tivemos outros, como o programa para redução da violência letal. Fizemos uma pesquisa em 16 cidades brasileiras e criamos um índice de homicídios entre jovens e adolescentes, mostrando na pesquisa quem eram os jovens mais vulneráveis aos homicídio, negros, moradores de favelas e periferias são os mais vitimados, seja na ação da polícia seja no enfrentamento entre facções criminosas. Criamos um guia de redução de violência letal que se tornou política pública federal para os municípios, com apoio da Unicef e Secretaria Especial de Direitos Humanos. Este também é um legado importante que o Observatório deixou em termos de política pública.

E o projeto teve financiamento da iniciativa privada?

A iniciativa privada não está interessada em políticas de direitos, sociais. Está interessada em política pública que garanta os seus interesses. Este projeto foi financiado pelo governo mesmo e, em parte, pela Unicef.

Mas a Petrobras, por ex, não está por trás de muitos financiamentos?

Mas a Petrobras é uma empresa estatal, é diferente, tem pressupostos de lucratividade,  mas tem uma missão pública. Tem apoiado diversos projetos nossos e de outras instituições como o  Solos Culturais e a Escola Popular de Comunicação, uma outra linha que passamos a trabalhar. Entendemos que precisávamos atuar nesta área porque os grandes veículos sempre tinham leitura distorcida dos espaços populares, reproduzindo o senso comum sobre favelas e periferias. A ideia era que tínhamos de disputar um imaginário de cidade, uma política no campo da comunicação. Não uma disputa por mensagens ou notícias, mas no campo da formação e politização e da opção de representação por parte dos jovens das favelas. Derivado disso surgiu também a escola popular de fotógrafos, a Imagem dos Povos.

Quem financia esses projetos?

A Espocc é financiada pela Petrobras. A Imagem dos Povos já foi financiada pelo Criança e Esperança, patrocinadores internacionais e agora passamos a gerar produtos, livros.

E eles hoje se auto-sustentam?

Olha, a busca é esta, da auto-sustentabilidade. Mas nós vivemos de projetos e programas, parcerias, não há uma política de apoio a instituições. Este é um dos grandes problemas que enfrentam as organizações da sociedade civil. Primeiro porque precisamos participar de editais, feitos de acordo com políticas do Estado ou de empresas e organizações. Acho os editais um avanço, mas ficamos muitas vezes sujeitos a políticas temporárias, um edital abre um ano, não abre no ano seguinte, o que gera um problema de continuidade. A segunda questão é a constante criminalização de entidades da sociedade civil, sobretudo as ONGs, tidas como picaretas, que pegam dinheiro do governo e não prestam contas a ninguém.

Você dizia das empresas privadas como distantes da realidade do apoio a projetos sociais, elas não são parceiras?

No caso do Observatório elas não são fontes de recursos, como para a grande maioria dos instituições sociais.

É mais fácil ainda captar no exterior?

Muitas vezes sim é mais fácil. Embora hoje os recursos das instituições internacionais para projetos no Brasil tenham sido bastante limitados porque acham que o Brasil já resolveu todos os seus problemas, já está bem, é a oitava economia do mundo e está tudo bom. Acham que deve ir mais pra África. Mas a desigualdade no Brasil é imensa, é um país paradoxal. Pode reduzir a pobreza sem reduzir a desigualdade, o que tem sido feito nos últimos 12 anos.

Centro/periferia ou asfalto/favela são palavras e distinções ainda usadas correntemente. Como as entende? O que elas compreendem (território, condição financeira, diferença) e o  que suscitam?

Quando se colocam estas palavras o que querem dizer? Sempre tem uma conotação de valorização. Só existe centro se houver periferia, asfalto se tiver favela. Ideias de superiorização e de que o mundo pode ser partido em coisas binárias, de que o centro não seria o centro sem a periferia. Existem conflitos e tensões que precisamos trabalhar,  mas não de uma forma distintiva, que tem consequências sérias em relação à própria vida de quem habita cada espaço. Estas palavras trazem a ideia de que vivemos em cidades partidas, metrópolis partidas e isso acaba ocultando a questão da desigualdade socioeconômica que se expressa territorialmente e que nós chamamos de distinção territorial de direitos. Algumas pessoas dentro da cidade têm mais direitos que as outras. Por isso a vida de algumas pessoas é mais valorizada que a de outros. Ou seja, essas construções binárias ocultam contradições e conflitos e perpetuam e naturalizam as desigualdades. Nosso exercício é desnaturalizar a desigualdade, pautando a diferença. A diferença no Brasil acaba servindo de legitimidade para a desigualdade. Ah você é assim porque é mulher, porque é negro, é favelado. Ou seja, nós temos de ser bastante efetivos na valorização da diferença e na superação da desigualdade. Como se faz isso? A política pública no âmbito da cultura, da urbanidade, dos direitos a vida, da comunicação e educação tem que se pautar por uma inflexão territorial dos direitos públicos. Tem que tratar de modo desigual os desiguais. Se não tiver uma inflexão territorial, vamos ter uma concentração de investimentos públicos em determinados espaços da cidade que só reproduzem a desigualdade.  As favelas e periferias têm de ser reconhecidas como espaços de produção de arte, de sociabilidade que podem construir um novo projeto de cidade. Você supera a ideia de periferia e aponta a periferia como centro difusor de cultura, de arte, experiências de solidariedade, de invenção de possibilidades. Hoje a periferia é essa centralidade importante.

Há alguns anos a periferia e a favela chegavam à mídia quando se tratava de violência, exclusão social, pobreza, mundo informal. Agora vemos o rolezinho, a veiculação da imagem das favelas nas novelas e na publicidade, em matérias jornalísticas que traçam o perfil das classes C, D e E. Até que ponto não se trata de meras substituições de temas para manutenção dos estereótipos?  O que mudou?

 

Existe um foco em cima de estereótipos e que tende a ser romantizado. Quando se fala do fenômeno do rolezinho vemos que ele acontece nos shoppings de periferia da cidade. Por que? O shopping da periferia é para o menino frequentar se ele não tem um museu, uma praça, um parque, uma biblioteca, onde ele vai fazer o seu encontro? Ele tem suas tramas virtuais, mas chega um momento em que os caras querem dar beijo na boca, se abraçar, tirar fotografia, conversar, se tocar. Pra onde eles vão? Os shoppings das periferias precisam reconhecer que devem se tornar espaços públicos. E abrigar a diferença. Ou a propriedade privada acha que não tem nada a ver com a sociedade? É uma ilha fechada em si mesmo que só vai tratar as pessoas como consumidores? Por outro lado, essas imagens que estamos vendo na mídia, seja na TV ou no cinema, a favela virou um espetáculo. O espetáculo da violência. As cenas de um filme que espetacularizam a violência acontecem onde? Na favela. Então tem também uma espetacularização da pobreza, da cultura e, na verdade, o que isso contribui para que a favela entre na cena política? Muito pouco porque tudo mantém os estereótipos. Então como ela deve entrar na mídia? Como ela é. A favela e a periferia são legítimos espaços de luta para habitar a cidade, pelo direito à cidade, mas têm conflitos, contradições, desemprego, violência doméstica, tem a presença do narcotráfico, tem a ação violenta da polícia, tem habitações e situação de risco. Então, não dá pra glamurizar a favela. Ela precisa ser vista como esforços de gerações e gerações pelo legítimo direito de morar. Reconhecer não significa achar que tá tudo legal. Eu conheço a periferia de São Paulo, falta saneamento, há problemas ambientais sérios, desemprego, violação de direitos, ou seja, quando passa na novela “Salve Jorge”, as pessoas estão desfilando, dançando, sambando no bar. Existe isso, mas tem contradições e conflitos também que precisam ser compreendidos e considerados.

Você poderia falar sobre o fato de a periferia ser vista hoje como um grande mercado de consumo. O rolezinho, neste caso, seria apenas a exposição desses sinais, a periferia como toda a sociedade estão ditadas por aspirações que emergem de um modelo de consumo capitalista. (aqui caberia um paralelo com a questão climática, países em desenvolvimento como o Brasil estão sendo cobrados pelo aumento das emissões, muitos carros na rua etc)

O Brasil é dos principais mercados de carros do mundo. A ideia consolidada pelas próprias classes dominantes é que a cidadania está ligada a consumo. Ou seja, sou mais cidadão quanto mais eu consumo. É a partir da aquisição de bens distintivos que as pessoas se afirmam, se valorizam. Ou seja, de certo modo, a política econômica traz essa subjetividade. Pensamos que a política econômica é objetiva, dinheiro aqui, mercadoria ali, mas ela tem uma forte subjetividade. Eu sou melhor do que você devido ao objeto que eu compro. Então você está diante de um dilema entre o consumidor e cidadão. Vamos voltar às pessoas. As pessoas que moram nas favelas e periferias não estão numa ilha, elas participam da vida urbana, vivem numa cultura urbana, com valores juízos e distinções que são hegemônicos na sociedade. Então você quer que o cara da favela seja ecologicamente correto? Não dá né.  Ele não tem saneamento, não tem coleta de lixo regular, a beira do rio enche sempre, mas, sim, ele precisa ser ecologicamente correto. A sociedade pode ser incorreta. Eles estão inseridos numa sociedade de consumo onde o consumidor vale mais que o cidadão. Como você muda isso? Com política pública. Por exemplo, as pessoas da periferia de São Paulo e do Rio de janeiro gastam quantas horas para chegar ao trabalho e voltar? Duas, três horas? Num ônibus apertado ou no trem lotado. Duas horas para ir duas pra voltar. A que horas essa pessoa dorme, lê, se diverte, encontra os amigos? Ora, se você tem a oportunidade de comprar um carro e se livrar daquele negócio apertado que não obedece horário e te maltrata, a pessoa vai comprar um carro, uma moto. Ela está tentando solucionar individualmente algo que devia ser solucionado do ponto de vista coletivo. Uma das nossas grandes linhas de intervenção é a mobilidade, não só a circulação. Ou seja, nós precisamos ter uma política hoje de transporte coletivo humanamente responsável e de qualidade. Eu não posso gastar quatro, seis horas, isso é um processo de dilapidação de corpos no trabalho. Porque o patrão quer que ele chegue na hora e saia na hora. O que ele faz fora desse período e como faz pouco importa. Portanto, uma política ambiental hoje importante – relacionada à favela e periferia – precisa  valorizar a dimensão humana da nossa existência, independente da raça, gênero, orientação sexual. Uma política de direitos que valorize nossa vida, a dimensão humana como dimensão ecológica, não somos humanos plenos se não tivermos a natureza. Nós, em essência, somos a natureza. Como se combina isso, uma política ambiental e uma política cidadã, de direitos? Não é dizer pras pessoas não consumirem. Qual a possibilidade de a gente fazer uma política de direitos que garanta toda uma mudança no nosso modo de vida? Há tantas tradições culinárias, medicinais nas favelas, mas absolutamente subalternizadas, subterrâneas, despidas de valor. Como se retoma outras culturas de vida? Como criar uma política de habitação que dê conta da mobilidade e que não seja essa, por exemplo, do “Minha Casa Minha Vida”. Aqui no Rio de Janeiro o programa coloca todo mundo na zona oeste, com um processo brutal de desmatamento dessas áreas, que eram rurais, com sítios, desprovidas de equipamentos culturais, educacionais, de transporte público. Nós estamos vendo um processo de re-periferização da pobreza, distanciamento dos pobres das áreas centrais da cidade. Por outro lado, temos de observar que o discurso ambiental do poder público, de enchentes e áreas de risco, tem se prestado a políticas de remoção. Quando caracterizamos o debate ambiental, temos de ter uma leitura muito crítica, assim como se fala centro/periferia, favela/asfalto, os termos ambientais também são apropriados para políticas arbitrárias e autoritárias que legitimam as diferenças e desigualdades.  É preciso entender que o risco de desabamento é em ponto, não em área. Se há uma pessoa em risco, uma casa em risco é preciso atenção a ela. Inclusive fazer de tudo para que ela permaneça na própria comunidade porque ali ela tem relações de parentesco, de amizade, de confiança. Isso é fundamental. Para a classe média a unidade básica de proteção é a família. Para o pobre a unidade básica de proteção é o território.

Publicada em março de 2014 na Revista Página 22