Uma costura das bordas ao coletivo Dulcineia Catadora

Ao tentar fazer a inscrição para o edital do Minc para intercâmbio de pesquisadores com objetivo de apresentar meu projeto de mestrado na Jalla 2012 – Jornadas Andinas de Literatura Latino Americana – me ocorreu com mais propriedade sua falta de encaixe nas ciências tradicionais ou na arte canônica e suas divisões até agora percebidas. Arte contemporânea, cultura popular, economia criativa, ativismo, edição criativa, literatura popular e outras combinações que poderiam gastar linhas.

Ao tornar-me participante do projeto, que ora observo, dois teóricos escancararam aquilo que no dia-a-dia me parecia óbvio. Nicolas Bourriaud e sua estética relacional e Jacques Rànciere e a Partilha do Sensível me apresentaram brechas de formas de comunicação/vida/fazer artístico que se espalham no globo, seja por uma decadência das formas de arte experimentadas até as últimas décadas seja por uma urgência cidadã em se fazer pertinente, atuante e coletivo, dessa vez por livre e espontâneo desejo e alguma forte atração pela casualidade e instantaneidade. Uma fuga apropriada para corpos e mentes cansados. Espaços que se inventam dentro do mundo como ele é, sem nenhuma necessidade representativa, mas somente a organização de encontros em tempos-espaços criados na vida urbana.

Ali estávamos exercitando isso sem dar conta de que rompia a regra com tamanha avidez que só as microutopias permitem. Então observando outros espaços-tempos que a vida me permitiu enxergar: o encontro do cinema independente na Mostra de Cinema de Tiradentes (críticos, cineastas, produtores, público, alunos), a feitura de uma revista que pretende tratar a sustentabilidade como alguma coisa palpável e vislumbrável e não mais um conceito-produto, a Revista Página 22 (fotógrafos, designers, jornalistas, pesquisadores) percebi que o prazer do encontro nestas zonas temporárias constituídas  não pode ser mensurado nem pensado através dos conceitos estanques.

No contato com o conceito da cultura de bordas, elaborado por Jerusa Pires Ferreira, nova janela se abriu. Acompanhar o desenvolvimento da cultura fora dos sistemas centrais e principalmente porque se estabelece como desafio para o impasse do que se acostumou colocar na conta da cultura da periferia, marginal, das margens.

A borda recheada de significados e, ao mesmo tempo, se esquivando solenemente de todos eles. A borda pode encontrar a vanguarda, o artesanal, o samba de quintal no seu luxo da alegria. E os livros editados por Dulcineia Catadora me transportaram para um universo que namorava essa borda, pertencer e recusar-se.

Pertencer ao passo que inclui os diversos, se insere no espaço do catador de lixo enquanto realiza oficinas dentro de uma cooperativa de materiais recicláveis no Glicério, em São Paulo, mas põe o dedo em uma profissão de sobrevivência sem opção. Recusa porque expõe e vende seus livros na Galeria Vermelho, templo dos jovens talentos da arte contemporânea, expõe e tenta vender seus livros durante a Flip – Feira de Literatura de Paraty, concorrendo com a editora convencional que está a espera do mundaréu de gente, saindo da palestra do autor para comprar o livro a qualquer preço. E Dulcineia estava ali do lado, quase expulsa, vendendo uns trechos por R$ 6.

E do que somos feitos senão pertencimento e recusa? O projeto ressignifica os que a ele aderem, e a memória coletiva ali é construída dos depósitos pessoais, mas também da atmosfera do convívio, do que não se explica, mas se sente ao construir capas de livros com papelão pintado a mão, numa mesa circular, trocando pincéis e falas.

Neste meu sentir e ser apresentada a novas leituras, os teóricos semioticistas russos chegaram de uma forma aprazível e também aliviante. Minha percepção muito superficial foi de que o humanismo estava a salvo ao tomar conhecimento de um pensamento de cultura tão abrangente, sem amarras e pré-disposto a vida, que afinal, está repleta de diferenças, rasuras, sujeiras e imperfeições como as do papelão que embala os livros que ajudo a fabricar.

A criação de conceitos como o da semiótica da cultura em ambientes vedados ao livre pensamento e manifestação naquela URSS me fizeram transpor este clima para a nossa incapacidade do diálogo e convívio, sob a pressão do trabalho eficiente e do consumo, que fizeram brotar as iniciativas como o Dulcineia Catadora.

O contato primeiro com o pensamento de Lotman e sua crítica à história previsível e regular, como se existisse fora dos mecanismos da cultura me proporciona outra imensa descoberta e, em seguida, uma alegria ao definir a história como uma avalanche de matéria viva que se autodesenvolve.

A inquietação desses pensadores e a aceitação de uma perda de limites para se pensar a cultura me pareceu iluminar o projeto do qual participo e agora me debruço para pensar.

Um ateliê no subsolo, com rasuras e literatura política que em seguida decide ocupar as ruas – a intervenção ´O que Te toca?´ percorreu a região do parque Dom Pedro, no centro de São Paulo – festivais e feiras e prateleiras impensadas, como um bar frequentado por intelectuais e artistas da capital.

A possibilidade de um encontro semanal de tantos diferentes repertórios, como uma artista plástica, um videomaker, jornalistas, catadores de papelão, moradores de rua, psicóticos com internações frequentes resultando em livros de literatura acessível em valor financeiro. Que arcabouço de memória é possível construir nestes momentos? Como se estabelece a comunicação e o convívio nesta circunstância que acaba tornando o livro uma parte, mas não toda a proposta?  Durante estes encontros, o que esquecemos e o que lembramos? Nestas idas e vindas construímos uma cultura cartonera?

O estabelecimento de mais de 30 editoras cartoneras em países latino-americanos faz pensar que sim. Vladimir Safatle diz que uma ideia já está lá, apenas a espera do momento certo de se manifestar e se multiplicar.

Este sampler latino, com aproximações e dissidências, lideranças e ausência de líderes, tomou seu curso próprio, apresentando uma junção caótica, contudo, parte do mundo como é: trabalho/vida/arte.  A linha fina e colorida das editoras cartoneras latinas oferece um mapeamento do que somos e do que também não somos, um texto cultural livre e aberto para reflexões em seu desenrolar que virá.

 Artigo publicado no site Overmundo

Fio de Papelão (Prêmio Avina de Reportagem)

Editoras cartoneras se espalham pelo continente transformando papelão coletado nas ruas em objeto de arte, recheado de literatura latina; projeto iniciado na Argentina pós-crise aproxima universos improváveis como jovens de famílias de catadores, escritores, moradores de rua, acadêmicos e galeristas

Um fio  sai da churrasqueira e se estende ao outro lado da parede fazendo um tipo de cortina para quem passa em direção ao banheiro do bar. Pregados no varal uma dezena de livros com títulos enormes de cores vivas, feitos com capas de papelão. Um cartaz colado na chaminé da churrasqueira anuncia beba dulcinéia, fritas, poesia, chopp, conto, Engov.  Os livros são do coletivo Dulcinéia Catadora, o bar é a Mercearia São Pedro, em zona-elite de São Paulo. Os universos são um grupo que compra o papelão que virou lixo, o transforma em capa de livro e publica autores que não teriam chance em outra editora que não aquela e outros consagrados que adoraram a idéia de ver sua literatura embalada com o dejeto transformado em objeto único, numa capa pintada a guache, algumas vezes, pelo filho de um catador de papelão. Essa idéia que chegou aos bares, galerias de arte e viadutos de São Paulo em 2007 começou na Argentina, bairro La Boca pós-crise de 2001 e já se estendeu, como um vírus, por pelo menos outros cinco países latino-americanos. Não menos importante, os livros custam, em geral, irrisórios cinco dinheiros.

As editoras cartoneras podem ser lidas também como uma linha fina, colorida e poderosa entre Brasil, Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Peru e rapidamente em outros lugares onde há gente adepta da convivência no trabalho livre e de planos paralelos para a literatura. Sentados e de pincéis em punho somos todos latino-americanos? Feito um instantâneo do continente, esta idéia simples parece se contrapor a pretensiosas e burocráticas tentativas de governos e organizações em conformar algum tipo de identidade nossa. Formas criativas necessárias frente ao colapso do capital, terra, lixo, saúde e informação. “A modernidade contemporânea poderia percorrer um novo caminho, no qual os elementos emancipatórios do imaginário da modernidade – liberdade igualitária, solidariedade e novas formas de responsabilidade coletiva – pudessem sobrepor-se às instituições e giros modernizadores que traem o que surgiu como uma das grandes invenções da humanidade em sua rica e atormentada história até hoje. A América Latina parece ter de fato um papel particular a desempenhar nesse processo”, diz José Maurício Domingues, em “A América Latina e a Modernidade Contemporânea – Uma Interpretação Sociológica” (editora UFMG).

Argentina, Buenos Aires, ano 2001, a economia em profunda recessão deixa 22% da população sem emprego e sem expectativa de mudança. Quem pode negar que o contingente de 9.000 catadores de papel da capital portenha tenha engrossado a partir daí?

República de La Boca, bairro onde o futebol na Bombonera ainda aliviava os ânimos. Um poeta suburbano de codinome Washington Cucurto resolve fazer o que já matutava há tempos. Corta uma dúzia de caixas de papelão em formato de uma folha A4, tira Xerox de textos próprios, cola e pinta a capa com título e nome do autor com tinta guache, da forma mais esgarranchada e colorida possível. “Disseram que eu era louco, que papelão fedia, era sujo”, conta baixinho Cucurto, seis anos depois, enquanto não pára um instante de dobrar catálogos e capas prontas para receber cola e tinta,  no ateliê  sede do Eloisa Cartonera, no mesmo La Boca do princípio.

É ali que se reúnem, de segunda a sábado,  o poeta e ex-vendedor de produtos químicos Ricardo, o estudante chileno Alejandro, o colombiano Juan , a ex-cartonera Míriam La Osa Poderosa e  Leo de La Carto que vende o papelão que vai virar capa de livro. Se qualquer um quiser, na página da web do projeto argentino se aprende a fazer um livro cartonero a partir de um vídeo com Míriam La Osa, integrante do Eloisa há um ano. “Você corta o papelão de forma que dobrado abrace o livro, faz uma máscara branca com o título e nome do autor e depois usa as tintas a seu gosto. No Eloisa, a regra é quanto mais colorido melhor”, ensina La Osa.

Riso e avião

Míriam coletava material reciclável no bairro de La Boca desde pequena. Passou a freqüentar a sede do Eloisa e bater papo com o grupo. Bater papo e agregar gente é especialidade dela. Grande e forte, conhece toda a gente do bairro, das feiras de livro, de movimentos sociais, das universidades de Buenos Aires. Tem um riso largo e contagiante, o que certamente lhe conferiu o título Osa Poderosa. Cucurto se encantou pela cartonera, escreveu várias crônicas e artigos sobre a menina que comia lixo e algumas vezes levava presentes a eles encontrados nas suas andanças, da força e do coração de uma mulher que sabe partilhar. Ela coleciona os textos a seu respeito e pede aos visitantes do ateliê que os leiam em voz alta. Sabe ler mas não gosta muito. Prefere pintar capas e fazer empanadas. Seu maior orgulho é ter viajado de avião pelo projeto. Foi participar de uma feira de livros no Chaco, no ano passado. “Nunca imaginava que isso ia acontecer comigo”. Dá entrevistas e com um gravador na mão é capaz de fazer uma reportagem e meia com os moradores do La Boca.

Cucurto chega ao ateliê no final da tarde junto com Maria, sua substituta imediata e dona do maior grau de ação e organização naquele espaço. Trabalham juntos na impressora, põem tintas, rodam o catálogo que será levado naquele mesmo dia a um festival de cinema. Maria cobra as vendas de Juan e Alejandro, questiona sobre uma feira que foram e não venderam.  Antes de chegar, porém, já tinha ligado para saber como anda o dia, quem está fazendo o quê, como está o movimento. O ateliê funciona na base do que é necessário. Se alguém precisa de uma água, o outro vai buscar, se é de papelão, idem. Trabalho colaborativo nonstop até para quem acaba de chegar. Acontece de as visitas começarem a fazer capas.

Só é possível falar com Cucurto no meio de muito trabalho. E trabalho significa que ele também terá arrumado uma incumbência para você. Trabalho é a palavra que ele mais repete. Diz que o transformou, o moldou. “Tudo depende de nós, se vamos bem ou mal, se trabalhamos mais ganhamos mais. Eu não sabia nada disso, como imprime, cola, pinta. Tudo é uma experiência, vamos aprendendo. São seis anos de cartoneria. Mas ainda vamos aprendendo dia-a-dia. O importante é que se faz o que se gosta, independente de patrão, do massacre que é esse sistema capitalista neoliberal”.

O grupo se modifica muito. O salário é um mistério. Juan diz que ganham entre 700 e 800 pesos por mês, Cucurto diz que é mais, desconfiado. Faz parte do jogo. No começo, com Javier Barilaro, havia pretensões artísticas. Com a saída do artista plástico, ficou o trabalho. Autor celebrado entre os críticos argentinos, Cucurto diz que apenas se diverte fazendo literatura. “É bom saber que se pode fazer literatura, qualquer pessoa, seja boa ou má”. Quando o assunto é o Eloisa, livro não é mais importante que fazer um alfajor ou o choripan, pão com chourizo portenho. O trabalho coletivo sim é a alma do negócio. “Antes me importava ganhar mais dinheiro para mim e minha família. Agora vejo que não é tão importante assim. Vamos fazer uma escola agrícola. As cidades também estão ficando inviáveis, é preciso voltar para o campo, nos autogerenciar e produzir o que comemos. Plantar, trabalhar a terra em conjunto, aprender. Vamos comprar um terreno, virar cooperativa, buscar financiamento”, profetiza.

Viver junto

A idéia é que a cartoneira cresça  – mas não muito – uma convergência com o projeto irmão no Brasil, Dulcinéia Catadora. Do lado de cá, na sala emprestada na Vila Madalena, Lúcia Rosa não acredita em números nem propostas ribombantes. A artista plástica que coordena a editora cartonera brasileira gosta de se dedicar pessoalmente a cada um dos integrantes do Dulcinéia. Tapa os olhos de um novato para que ele se veja livre para pintar. Aquilo dá um pouco de medo no menino. Mas logo ele dispara as pinceladas. Sem cartilha, Lúcia gosta de citar  Nicolas Bourriaud e sua estética relacional –  arte como  processo e o afeto coletivo gerado sem obrigação do objeto final.

A diversidade entre os participantes estimula a discussão e o respeito a diferenças, abrindo espaço para uma troca intensa de vivências. Compartem a mesa dos pincéis Tião, o ex-morador de rua e escritor que vai e vem, Peterson e Marlon,  jovens dedicados , filhos de Ailton, catador de papelão, dois que começam a desafiar o destino e armar outros rumos para eles, Seu Israel, que apareceu no ateliê com sua pintura sui generis de bonequinhos em disparada, Carlos, cardiologista que escreve, dá moral a turma, faz curadoria e sai pra rua vestido de papelão recitando poesia nas intervenções artísticas do coletivo. “A opção é que a experiência estética seja um ato conjunto, gerando prazer no encontro e participação”, é o mantra Dulcinéia. A despeito disso, cada participante ganha uma diária de R$ 30 pelo trabalho, tudo que entra além disso é dividido em partes iguais, sem dependência de patrocínios públicos ou privados. A renda vem da venda de livros (R$ 6 reais cada) e cachês de trabalhos artísticos.

Em ritmo menos acelerado que no ateliê argentino, ali se deixa e se aproveita alguma marca do papelão em seu estado anterior, a primeira história do dejeto que depois vai ganhar a função de proteger e apresentar uma obra literária. Os meninos são estimulados a ler, escrever. Tião já lançou seu “Cátia, Simone e Outras Marvadas” pelo Dulcinéia e está preparando um próximo.  Peterson gosta de fotografia e acaba de conseguir trabalho em um estúdio.  Recitou poema em megafone durante intervenção artística em um festival de cinema em Minas Gerais, cuida do livro de vendas e tem seus sonhos.

Num certo dia, os meninos preparam o cartaz para evento na Mercearia São Pedro. Vão reeditar uma antologia de 2004 com as capas de papelão pintado. Num instante espicham o papelão na mesa, cada um dá sua pincelada de contribuição, Tião solta das suas… Beba Dulcinéia, a gente podia mudar o cardápio, colocar batata frita, poesia, conto, engov… Lúcia vibra. De avental  sujo de tinta ela vai contando aos poucos suas próximas idéias, reforçando que o “nós” prevalece. “Não é comercial. Mas queremos, por exemplo, que os catadores comecem a vender os livros também. Ele vende o papelão mas também vende os livros, isso muda tudo, ele participa desde a coleta do lixo até o lixo transformado num objeto de maior valor, com isso ele também se dará maior valor”.  Seu Ailton, pai de Peterson e Marlon, já está interessado em vender os livros. Tem esperança, mas se preocupa com o destino dos dois meninos, conta no meio do trabalho na Cooperativa de Catadores da Baixada do Glicério, com sede bem debaixo do viaduto do Glicério, centro de São Paulo. “Meu pai foi catador por 50 anos aqui, eu já fui, larguei, fiquei doente e voltei. Tem trabalho nesta cidade. O importante é não ter vergonha do que se faz”. Ailton é franzino e sorridente. Com  seus 43 anos é capaz de pilotar seu carrinho catador pelas ruas da região. Carrega de 200 kg a 300 kg por viagem.  O Dulcinéia Catadora chegou a comprar papelão da cooperativa do Glicério, mas agora optou por uma central mais próxima do ateliê. “Era uma briga danada para vender porque eles pagam R$ 1 o kg e o preço na época era R$ 0,20”. Um compromisso de editoras cartoneras é comprar o papelão por um preço acima do praticado no mercado de forma a valorizar a matéria-prima para literatura de primeira.

Na ponta final, os livros do Dulcinéia Catadora podem ser vistos em São Paulo na Galeria Vermelho, de arte contemporânea, livrarias, sebos e bares. Com a cara e  coragem, Dulcinéia Catadora seguiu para a Flip de 2007, sofisticada feira de literatura em Paraty, oferecendo seus livros de R$ 5 , uma editora não gostou, reclamou, pense na petulância. Ronaldo Bressane, escritor brasileiro que publicou livros pelo coletivo brasileiro (“Corpo Porco Alma Lama”) e pela irmã paraguaia Yiyi Jambo, diz que não conhece autor que não doe seus escritos para uma cartonera e põe fé nos “talentos insuspeitados” que habitam as editoras, pintando livros no anonimato.

Desacreditar na arte desconectada da vida é um princípio que o Dulcinéia Catadora levou da sua origem, a Bienal de Artes de SP com o tema “Como Viver Junto”, em 2007. A curadoria convidou o Eloisa Cartonera para que reproduzisse seu trabalho ali naquele painel da arte contemporânea mundial e jovens filhos de catadores de papelão brasileiros foram chamados a participar da oficina de manufatura do livro cartonero. Ao final, uma nova editora de papelão surgia em São Paulo.  Neste meio-termo, a idéia ganhava outras plagas.  Em 2005, no Peru, um grupo de intelectuais criava o Sarita Cartonera que inspirou iniciativas na Bolívia (Yerba Mala) e no México (La Cartonera).

Intercâmbio selvagem

O intercâmbio entre as editoras cartoneras não é uniforme, mas existe. À uma chamada geral da editora chilena Animita Cartonera, as irmãs latinas atenderam e publicaram simultaneamente o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro. Lúcia descolou uma tradutora para a versão portuguesa e lançou uma edição bilíngüe.

A integração cartonera se dá ainda pelo curioso e potente portunhol selvagem. A língua híbrida do português, espanhol e tupi guarani é invenção do poeta Douglas Diegues, editor cartonero do selo paraguaio Yiyi Jambo.  Autores brasileiros e paraguaios, como o próprio Douglas, lançaram títulos no novo idioma, sublinhando uma questão que insiste em separar Brasil dos outros países latinos quando há mais semelhanças que diferenças.

Washington Cucurto diz que não ensinou ninguém nem foi procurado pelas outras cartoneras. Foram acontecendo. Desse mesmo jeito, em uma semana,  Eloisa Cartonera foi procurada, visitada, freqüentada por duas acadêmicas portuguesas – que estão fazendo pós-doutorado sobre o tema – jornalistas alemães, poloneses e artistas espanhóis que querem fazer parceria com o projeto. Sem contar críticos e professores de Literatura que se debruçam sobre a história nas suas mais variadas pegadas: sustentabilidade, convergência das artes, inclusão social, negócio inclusivo, legado criativo da crise.   Você colocou a literatura latina onde deveria estar? , pergunto a Washington Cucurto. “Que sé yo!”, responde no melhor argentinês.

Matéria resultado do Prêmio Avina de Jornalismo Investigativo, publicada na Revista Fórum

O que te toca?

dulcineia-em-acao-0411O que te toca? Aos 46 minutos de 2008, munida da pergunta e de um manto de livros, Dulcinéia Catadora saiu em busca da gente no Parque Dom Pedro, o lugar das idas e vindas no centro de São Paulo. Para quebrar o gelo, Dulcinéia comprou uma água de côco, parou na praça, olhou os jogadores de cartas, o arco da entrada da estação de trem suando no calor descomunal. Jogou uma conversa fora com o vendedor de pilhas, celular, mp3, fitas, DVDs e obteve sua primeira resposta. Ele abriu o livro em branco no peito da mulher e desfiou suas linhas, uma mistura da miséria da existência e da esperança que ele guarda no intervalo do trabalho. Dulcinéia levantou, agradeceu e nem percebeu que a gente não andava tão corrida assim, tão mercenária assim; talvez mais pra cansada. Aprumou sua armadura de papelão e saiu rebolando cores pelas ruelas do parque. No ponto de ônibus encontrou sorrisos; engraçado; a gente não quer chegar em casa logo? E sapecou mais uma história no livro em branco no centro do vestido. “Meu amor, você não entende, tudo o que eu faço é pra você; minha dor é você não perceber; eu espero que nesse 2009…” Dulcinéia ainda tentou retrucar em favor das mulheres, os tempos estão difíceis, veja você, estamos aqui, nossa família, trabalhando, ela deve trabalhar muito, bobo, te liga, nego. Carlos embarcou conformado, isso ela supôs pelo risão branco desinteressado que lhe devolveu do alto do Estrada das Lágrimas, Sacomã, que já enfumaçava o cenário. Tratou de engatar mais umas palavras com a gente do ponto, as donas chupavam manga com gosto, o estagiário riu de canto no aparelho fixo. Não é que se tocavam? Deu a última rabiola no ponto e entrou numa discussão quente na carroça de manga. O rapa, olha que o rapa vem, lá vem eles porque os rapa não tem condição. Anotou tudo direitinho, o vizinho, o conhecido, o menino que apareceu com a boca aberta, a compra do ano que sumiu no caveirão fazendo a curva, o mesmo homem que pergunta as mesmas coisas, o que não pergunta coisas e bate igual, as aflições, as aflições. Dulcinéia quedou em silêncio. Não tinha reservatório para aquela hora. Fez reverência com seu saiote-papelão e seguiu em frente mastigando um abacaxi amarelo. Colheu mais umas histórias de amor, sempre o amor a refrigerar a gente. Paulo, meu rei, Ana Amália me toca, Sabino, seu desgramado, ainda te pego, Carlinha no céu e na terra. Parou a reparar quem ganhava o truco e notou que tinham ali muitas coisas para o livro branco. Só não tinham a munição das palavras. Dulcinéia arqueou seu saco de papelão e emprestou umas palavras gastas, outras bem novinhas e eles foram experimentando, os jogadores. Bons jogadores na vida, tinham saído de longe para chegar até a praça. Tinham feito casa, cheques, filhos, entregas, dirigido caminhões, ido a muitas festas de 15 anos. As folhas brancas que caíam sobre as suas cabeças eles espanavam com orgulho. E tiveram alegria com o pacote de letras, trocavam elas de lugar numa satisfação de modo que não arredavam o pé das próprias linhas para o livro branco e desancaram o palavreado, assim só por surpresa: toca banda, boi, boiada, circo, jardim, carambola, cuca fresca, Petrolina, pau de arara, pau de sebo, arranca-rabo, sangue de boi, cruz vermelha, patroa, coroinha. Dulcinéia, a seu passo, achou boa essas novas jogadas aprendidas com os jogadores. Acenou à turma e seguiu rumo ao churrasquinho. Ali foi uma dificuldade porque o povo tem fome e a tora de carne vai definhando conforme a hora; no almoço é um deus nos acuda, fila que não acaba mais. É Cuma? Perguntou o responsável. Um livro aberto em branco aqui ó. Você pode escrever o que quiser, fio, vai, abusa. Não, não posso parar não madame. Nesse quadrado aqui é o dia inteiro, abre o pão, corta a carne, passa o rodo, roda o bifão sanguinolento, pingando gordura e aí tem os pombos, sacou? Apavorada com a suadeira, Dulcinéia esbarrou na melancia que saía como água. Para a felicidade de Josué, ele deu ponto final àquele capítulo do livro branco com seu garrancho espalhafatoso de uma página carimbado no peito da moça: O que me toca é a mão.

Publicado no livro Trilogia Bêbada, editado pelo Dulcineia Catadora