O Brasil é feitiço

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Por Ana d´Angelo e Amália Safatle/Revista Página 22

Tem que saber disso.  A rima rítmica na fala de Gilberto Gil está no seu entendimento do que é Brasil.  Na leitura do músico, quando José de Anchieta colocou os índios no colo, em profunda manifestação de afeto, reforçou um traço definidor da nossa sociedade.  Traço este que havia começado a se delinear na formação de um reino europeu diferenciado.  Pois, enquanto os demais exploradores foram guiados pela ambição material e pela busca de acumulação de riquezas, o projeto de expansão territorial dos portugueses fundamentou-se “no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência”.  Degredados que aqui deram início à miscigenação eram considerados criminosos porque fugiam da Inquisição, diz Gil nesta entrevista.

Assim, o Brasil se fundou no ideário de liberdade e espiritualidade, reavivando o mito de que esta é a terra da promessa, do encantamento, do conto de fadas, dançado nos Carnavais – com todos os problemas que isso também acarreta.  Um lugar que, para contragosto de muitos, subverte o modelo clássico europeu e tem nas mãos um pacote estratégico a oferecer a um mundo carente: afeto.

Mas que não está condenado a ser alguma coisa, e sim fadado a ser.  Lembrando que o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço, o fado é uma canção.  “O fado é o que a gente faz”, diz o bruxo Gil.

Na sua opinião, o que melhor a sociedade brasileira tem para oferecer ao mundo?  O que o Brasil produz que faz a diferença? O Brasil é uma nação que resulta de uma série de coisas particulares, próprias, de que outros povos não resultaram.  Isso para tratar do Brasil que depois leva este nome e se torna a nação configurada neste território, com presença dessas múltiplas vertentes étnicas.  A ameríndia estava aqui já, o português que chega, o africano que é trazido depois.  A formação da sociedade brasileira, e depois o Estado brasileiro: primeiro o Estado monárquico, depois o imperial, depois o republicano e, em meio a tudo isso, a sociedade foi marcando seu dia a dia dentro dessas possibilidades de configuração e com todos esses elementos.  O português chegando aqui, começando a miscigenação com os índios, depois com os africanos e criando essa nação mestiça, mameluca, cabocla…

Então é a diversidade que faz a diferença? A diversidade existe em qualquer lugar.  A diversidade brasileira é esta.  É diferente da diversidade americana, é diferente da Europa gaulesa, que é outra, da Europa escandinava, que é outra, da Europa eslava, que é outra, das Áfricas várias, que são várias, da América Latina, que é outra configuração, com a vertente espanhola que se mistura a povos andinos… Então a brasileira é a sua, a que foi “conscrita” neste território, com esses povos que fizeram o Brasil com essas expressões culturais desenvolvidas aqui.  Brasil é Brasil, não é a Argentina nem a Inglaterra.  É o Brasil.

Este Fórum Internacional Geopolítica da Cultura e da Tecnologia (ocorrido em São Paulo em meados de novembro), cuja curadoria teve sua colaboração, fala em transformar nossa singularidade em um valor estratégico que beneficie quem a inventou – o povo.  Que características estão aptas a ser transformadas em valor estratégico real nesse reposicionamento do mundo, nessa nova geopolítica? A vocação para uma configuração de uma comunidade mais integrada.  Mais integrada a partir de elementos fortes da espiritualidade, da fantasia, de uma subjetividade criativa, “celebracional”, mestiça em vários sentidos, com a preferência pela efusividade, pela alegria, enfim, pela solução afetiva de conflitos, gentil, cordial.

Que ao mesmo tempo tem uma violência… Tem.  Nada é só bom.  Mas a gente está falando dessas características configuradas num território, numa população mestiça, falando uma língua trazida da Europa, mas ao mesmo tempo trazida por um povo europeu muito distinto dos outros povos, quer dizer, com ambições diferenciadas em relação aos espanhóis, aos ingleses, aos franceses.  Os descobrimentos portugueses estavam inspirados pelo Espírito Santo.  Anchieta colocava os índios no colo e, apesar de minimamente estar submetido aos desígnios colonizadores do seu povo europeu, tinha pelos índios um amor… Foi ele quem insistiu e conseguiu que a Corte Portuguesa não escravizasse os índios.  Então essas coisas estão na origem brasileira.  Foi ele quem colocou os instrumentos, os violões, as guitarras, as flautas na mão dos índios.  Essa musicalidade extraordinária brasileira tem embrião nesses primeiros momentos.  São ingredientes que podem configurar a construção de um “pacote estratégico brasileiro”, que pode servir não só para nós, para nos relacionarmos com altivez e grandeza com o resto do mundo, mas também para sermos elemento importante para essas outras culturas do mundo.  Para ensinarmos, para sermos exemplo, referência a um mundo que está ficando muito complexo, está ficando muito confuso, está ficando muito célere, em que a formação de conflitos novos é exponencial.  Portanto, têm valor estratégico humanidades que possam desenvolver capacidade de afeto, de concórdia, de compreensão mútua, de fruição, de entendimento mais profundo de sua relação com a natureza, de pertencimento à natureza – e, portanto, de respeito à natureza –, de integração de necessidades materiais com profunda capacidade de reverenciar o espírito.  São questões estratégicas para a humanidade, vendo aí não mais a estratégia parcial da nação contra outra nação, não de um território contra outro território, e, sim, estratégia de vida para a humanidade no planeta.

Podemos considerar isso como o que há de mais moderno, no sentido de estar na ponta, estar na frente? Se houvesse um radar de inovação no globo, ele apontaria essas características como a “modernidade” que temos a oferecer?  É isso o que a Terra está dizendo no modo mais atual, mais contemporâneo de entender a vida.  Bem viver.  Produção de futuro.  Como produzir futuros desejáveis e sustentáveis, como produzir sociedades humanas mais integradas, como produzir sociedades humanas que vivam compartilhamentos mais efetivos de tudo, de riqueza material, de riqueza simbólica.  É assim que a Terra vê o seu futuro, não é o Brasil (risos).  Por acaso, coincide que o Brasil é um dos povos hoje em dia que mais podem contribuir para essa perspectiva futura da humanidade, porque ele já vem, desde sua formação, consolidando essa nova matriz de vida social.

Naquela sua canção com o Jorge Mautner, Outros Virão (sic)… Outros Viram.

Sim, desculpe. Mas pode ser Outros Virão, nesse sentido que nós estamos falando aqui.  Mas ali é o oposto, é outros viram essa coisa no Brasil.

Sim.  Mas por que, segundo a canção, eles viram e nós não?  Por que não vimos?  A gente se autossabota? É porque a gente só se vê no espelho.  A gente só se vê na superfície quieta das águas, ou no espelho no sentido mais moderno do termo, essa superfície lisa na parede que reflete nossa imagem.  Quem vê a gente por inteiro são os outros, são os de fora.  A gente só vê uma parte da gente, a mão… A gente não vê nossas costas.  Não vê o que está por trás… A gente só se vê parcialmente.  Quem pode ver a gente mais inteiramente é o outro, então a canção é sobre isso: como os outros viram o Brasil.

E como viram? Como um lugar da promessa.  Porque esse nome Brasil vem da raiz celta bras, que significa “terra encantada”.  Quer dizer, já antes da descoberta pelos portugueses, o Brasil aparecia nos mapas medievais como uma terra da promessa.  Ao longo da História, foi havendo uma reiteração dessa imagem, dessa visão, primeiro por causa dos índios levados para as cortes europeias, como exemplo de um ser humano íntegro, inocente, completo, pleno, belo.  E depois toda a criação artística brasileira, o Carnaval, todas essas coisas que foram “sendo saídas” de um encantamento, de um conto de fadas.  Então o Brasil está fadado um pouco a essa coisa, embora muita gente lute contra, porque queria uma inserção do Brasil em um modelo clássico, em um modelo ocidental europeu, que está justamente na cisão do processo civilizatório gestado na Europa.  Gestado ali exatamente no início, quando os Cruzados vêm, uns para criar os reinos europeus montados na ambição material, na ideia de mais conquistas de territórios e produção de riquezas, de acumulação etc. etc., e outros, no projeto de ocupação dos portugueses, fundamentados no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência.  Essas coisas são distintas na origem e o brasileiro não tem conhecimento dessas suas origens.  Até rejeita um pouco a origem portuguesa, a coisa dos degredados.  Mas quem eram os degredados?  Quem eram esses criminosos?  Eram criminosos porque estavam fugindo da Inquisição, porque professavam a fé no Espírito Santo, na chegada de um outro reino, na beleza da bondade e da verdade.  O Brasil está nessas origens, enquanto a América do Norte e outras áreas da expansão europeia pelo mundo com a colonização estavam fundadas em outros pressupostos.

Isso que chamamos de fundação, esses traços fundadores que parecem tão definidores, faz com que estejamos fadados a repetir para sempre as coisas boas e também as ruins, como desigualdade, preconceito etc? O fado é uma canção, o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço.  O fado é dinâmico, ele continua submetido à dinâmica da passagem do tempo e da ação do homem.  O fado é o que a gente faz.  Não é só aquilo a que estamos destinados.  Não é o destino.  É um caminho para o destino.  Não é como cair no fundo do poço de Alice no País das Maravilhas, e sermos jogados no lugar.  Nós temos de caminhar até esse lugar.  É um progresso, um processo, um caminhar.  Portanto, a tomada de consciência em relação a isso é profundamente importante.  Nós só vamos caminhar numa direção se soubermos qual é essa direção, se tivermos olhos voltados para vê-la, identificá-la, e construir o caminho que leva até ela.  Essa é a questão brasileira.  Não é uma condenação.  O brasileiro não está condenado a ser alguma coisa.  Ele está fadado a ser alguma coisa.

Um dos problemas do Brasil e da América Latina é a corrupção?  A corrupção é um problema da América Latina? Não, a corrupção é um problema da humanidade.  Há sistemas de relacionamento social que facilitam, propiciam – uns mais do que outros –, a corrupção.  Há sistemas jurídicos e sistemas econômicos que facilitam mais ou menos a corrupção.  Mas a corrupção hoje em dia, nesse sistema que está aí, que foi autorizando cada vez mais a exploração de uns por outros, a imposição de poder de uns sobre outros, surge por decorrência da própria falência natural que os sistemas vão sofrendo.  A falência dos controles, dos princípios.  Toda vez que se quer escorregar para infringir uma norma, a corrupção é uma das formas.  E não é uma questão brasileira.

Qual é a questão brasileira? Não há uma.  A questão brasileira é sermos o que somos no dia a dia transformador.  Transformarmo- nos do que somos no que seremos e no que não seremos.  É essa a atuação permanente da vida sobre nós e de nós sobre a vida.  O Brasil não precisa desenhar destinos e nem nada disso, não… Basta viver e pautar esse viver pela ideia do bem, do bem viver.  Cada vez entender melhor, coletivamente, o que é bem viver, o que é produzir a sua continuidade da maneira mais amena possível.  É criar bem-estar!

gil 2Nós temos alguns caminhos aí, como a indústria criativa.  Estávamos falando de diversidade cultural.  Temos também uma diversidade biológica muito grande.  São grandes riquezas, mas curiosamente a economia brasileira não vive disso.  Por que será? Em que medida o Brasil será capaz de se desgarrar dessa monocultura mundial, em que vemos o utilitarismo, a produtividade vista sob um certo aspecto enviesado e a prevalência do poder do mais forte, o “privilegiamento” dessa hierarquização, dessa forma de aceitar o primado do mais forte sobre o mais fraco?  A questão é se o Brasil será capaz de sair disso para realmente produzir uma sociedade de mais igualdade e fraternidade, mais fundada em princípios que são enunciados, anunciados, mas muito pouco perseguidos verdadeiramente pelo conjunto da humanidade.  A questão é se o Brasil será capaz – e possivelmente não poderá fazer isso sozinho – de juntar outros povos do mundo nessa proposta.  Quer dizer, vamos caminhar mesmo?  Vamos ter o caminho do nosso destino?  Isso é o nosso fazer.  O fato de estarmos discutindo isso, procurando compreender possibilidades agora de fazermos isso já é um sinal de que estamos querendo caminhar nessa direção.  Por que vocês que produzem e publicam informação estão querendo saber disso?  Por alguma razão.  Porque percebem que se quer saber disso.  Percebem que o Brasil e o mundo cada vez mais querem saber disso.  É sinal de um sinal que está por aí.  Sinal de que está no radar, usando a expressão que você colocou.

Há seis anos, metade do primeiro mandato do presidente Lula, eu (Ana d’Angelo) o entrevistei como ministro da Cultura e convidado do Fórum Mundial das Culturas, em Barcelona.  Interessante lembrar disso, porque naquela época o País entrava na moda na Europa, havia um clima de otimismo, não se falava em crise.  Havia quase uma reverência para com o Brasil.  E hoje, seis anos depois? Acho que isso aumentou muito no mundo.  Evidentemente que toda essa atitude reverente de expectativa positiva em relação ao Brasil tinha muito de modelos anteriores que se buscava repetir, dimensões utópicas já consagradas, que se gostaria de ver realizadas, manifestadas.  Tinha muito de um sonho da Europa frustrada por não ter sido aquilo que ela própria quis ser.  A Revolução Francesa que ficou pelo caminho, a Revolução Americana que ficou pelo caminho, as revoluções todas outras que ficaram pelo caminho.  E, de repente, a gente quer outra dimensão messiânica, alguém que seja o restaurador, o salvador.  E chega uma hora em que o mundo também começa a querer ver o Brasil sob essa ótica.  E talvez não, possivelmente o Brasil não será nada disso e é desejável que não seja exatamente isso.  É desejável que seja uma coisa nova, desconhecida, a ser construída.  Nesse sentido, acho que essa expectativa cresce, mas com uma qualidade instrutiva, quer dizer: cada vez mais o mundo todo espera do Brasil, mas cada vez mais se espera uma coisa que não se sabe o que é (risos).  Isso vai proporcionando capacidade de diálogo, de conversa, de entendimento, de afetividade, atratividade.  O Brasil vai se tornando atraente e vai atraindo também…

Quando se sabe muito bem o que se quer não se tem inovação, certo?Não tem!  Então é assim, feitiço.  O Brasil é feitiço, tem que saber disso…

E no governo Dilma, alguma possibilidade política? Para mim, não.  Não quero mais, não.

Já teve a experiência… Já e não quero, não me sinto capacitado.  O político tem de trabalhar com exiguidades muito precisas.  Um senso muito preciso de impossibilidades, de limites, de redução de horizontes etc.

É o oposto da arte, não é? É o oposto da arte.

Além disso, o orçamento da Cultura diante dos outros ministérios é de chorar… Também é muito pequeno.  Com toda a gritaria que a gente fez, a gente não conseguiu chegar a níveis razoáveis de recursos.  Mas estamos aí para ajudar.  Acho que a parceria dos governos com a sociedade é algo cada vez mais importante, no sentido de que os governos entendam que as sociedades precisam andar.  Apesar de as sociedades não saberem para onde, o governo tem de ter um pouco dessa capacidade interpretativa, de leitura dos desejos ocultos.  Espero que o governo da Dilma e tantos outros governos no mundo tenham essa capacidade de entender essa relação profunda com o desconhecido, essa relação respeitosa com o desconhecido para que ele seja fonte de instrução para o conhecido, para a busca do conhecimento.  Espero que esse espírito, essa visão, esteja – se possível – em todos os governos do mundo.

Coluna mensal Página Cultural – Revista Página 22 (2008 a 2014)

http://www.pagina22.com.br/2013/02/04/pagina-cultural-36/

http://www.pagina22.com.br/2013/06/06/pagina-cultural-40/

http://www.pagina22.com.br/2013/03/07/pagina-cultural-37/

http://www.pagina22.com.br/2012/10/11/pagina-cultural-33/

http://www.pagina22.com.br/2011/02/07/pagina-cultural-14/

 

 

 

Festival Conexão Rio – assessoria de imprensa + textos + relações públicas

http://guia.uol.com.br/rio-de-janeiro/shows/noticias/2013/07/11/festival-conexao-traz-para-o-rio-circuito-com-29-shows-instrumentais-gratuitos.htm

“Conexão Rio” espalha música pela cidade

http://oglobo.globo.com/cultura/festival-conexao-rio-reune-partir-de-hoje-diversas-geracoes-segmentos-da-musica-instrumental-na-cidade-8988556

http://www.cultura.rj.gov.br/evento/festival-conexao-rio

http://www.backstage.com.br/noticia/962/festival-conexao-rio-leva-musica-instrumental-ao-grande-publico

http://cultmagazine.com.br/festival-conexao-rio-promove-shows-gratuitos-por-diversos-pontos-da-cidade/

 

quarteirão

meu local global me salva dos devaneios mais graves. no meu quarteirão sou peça fundamental, como o arabinho que sonhou alto demais e fechou, distribuiu as esfirras da bandeijinha e deixou a bandeirola do estabelecimento pendurada na fachada. alexandre da banca ama doce mas leu blue sugar e agora tem pavor. o segurança acaju alma sebosa quer pegar no pé do meu josé e dorme em serviço. as irmãs do bicicletas de belleville que falam ao mesmo tempo com o mesmo problema de coluna para a esquerda e inspiram confiança. os porteiros que até abrem a porta e as intrigas da aspirante à síndica me comovem na minha caminhada vagarosa saída do bloco C com meus nove quilinhos de alegria pendurados no meu peito. o sling é a tradução mais completa do amor de mãe e filho, grudados no peito, andando pelo mundo olhos nos olhos um do outro.

no meu quarteirão devo ser a mulher nova do doutor com o filho caçula do doutor. quem não ama um doutor ou ao menos chamar de doutor. doutor é coisa chique, no meu interior devo ser a filha do braga que casou com um doutor. sem querer querendo realizei meus sonhos de menina do interior mineiro.

e trotando com meu josé vimos verão outono primavera, dentro e fora da barriga, roubamos flores cheirosas e paramos perto da bouganville da vizinha porque mistura rosa e laranja e é uma beleza que nossa senhora. sim, frequentamos a padaria tosca do portuga porque tem um balconista que gosta da gente mas sabemos que é péssima para fregueses e funcionários.

a moça das quentinhas senta na banqueta e passa batom antes do batente, gostamos também! leva cinco isopores depois que abriu a clínica do coração. e como tem gente sofrendo do coração. movimentou a rua e um enjoado botou bilhete no carro: favor não encostar-se nos carros!  sempre um enjoado pra destoar a harmonia, seria sem graça sem eles. o enjoado pra servir de assunto. eu digo enjoado desses bestas mesmo. sem noção desperigado.

no salão cesário o dono mauricinho ocupa duas vagas com um carro. esses sim eu limava do meu quarteirão.

paulo da banca

o bombeiro levou o paulo da banca pro hospital. fumante inveterado, perna inchada, sequelas de um derrame, paulo só largava o cigarro pra pegar o jornal na sua banquinha improvisada na esquina da padaria. o paulo concentra o nosso dilema urbano dos dias: compaixão ou asco. deixava a rua cheia de guimbas, atrapalhava a passagem, não tinha cara amistosa. Mas diz-se que dava gibis pras crianças. mas diz-se que os filhos não queriam saber dele. mas diz-se que um vizinho da rua arrumou um lugar pra ele no abrigo público. tomava seu café com leite molhando biscoito água e sal guardado atrás da banquinha. fechava a banquinha as cinco. foi dono de uma bancona, do outro lado da rua. foi despejado. faliu. lhe restou o abrigo e uma banquinha na esquina imunda da padaria que também é imunda. levo um cinzeiro pro paulo ou converso com ele? uma roupa ou um papinho? o paulo não presta, como pode o abandono da família? a cara dele não é boa não. mas era bom pras crianças. arrastava a perna depois do derrame. não tomava direito os remédios. os bombeiros levaram o paulo. morreu? não, foi pro hospital. a padaria tá em reforma. botaram um saco plástico em cima da banquinha do paulo enquanto o pedreiro fura e pinta a fachada da padaria imunda. sabe do paulo? foi pro hospital. tem duas semanas. três semanas. alguém sabe do paulo? olha, como ele tá nesse momento não sei não. mas foi pro hospital, os bombeiros levaram. sabe, não tomava remédio direito. mas paulo tem uma anja. a mulher alta negra da rua que era empregada no apartamento de um velho rico sem parentes. a anja negra herdou o apartamento e continua usando roupa de empregada. ela limpa o lugar do paulo, passa vassoura, mata os ratos. ela cuidou do velho e agora cuida do paulo. mas ninguém sabe onde anda o velho da piteira de cara ruim na esquina.

Fio de Papelão (Prêmio Avina de Reportagem)

Editoras cartoneras se espalham pelo continente transformando papelão coletado nas ruas em objeto de arte, recheado de literatura latina; projeto iniciado na Argentina pós-crise aproxima universos improváveis como jovens de famílias de catadores, escritores, moradores de rua, acadêmicos e galeristas

Um fio  sai da churrasqueira e se estende ao outro lado da parede fazendo um tipo de cortina para quem passa em direção ao banheiro do bar. Pregados no varal uma dezena de livros com títulos enormes de cores vivas, feitos com capas de papelão. Um cartaz colado na chaminé da churrasqueira anuncia beba dulcinéia, fritas, poesia, chopp, conto, Engov.  Os livros são do coletivo Dulcinéia Catadora, o bar é a Mercearia São Pedro, em zona-elite de São Paulo. Os universos são um grupo que compra o papelão que virou lixo, o transforma em capa de livro e publica autores que não teriam chance em outra editora que não aquela e outros consagrados que adoraram a idéia de ver sua literatura embalada com o dejeto transformado em objeto único, numa capa pintada a guache, algumas vezes, pelo filho de um catador de papelão. Essa idéia que chegou aos bares, galerias de arte e viadutos de São Paulo em 2007 começou na Argentina, bairro La Boca pós-crise de 2001 e já se estendeu, como um vírus, por pelo menos outros cinco países latino-americanos. Não menos importante, os livros custam, em geral, irrisórios cinco dinheiros.

As editoras cartoneras podem ser lidas também como uma linha fina, colorida e poderosa entre Brasil, Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Peru e rapidamente em outros lugares onde há gente adepta da convivência no trabalho livre e de planos paralelos para a literatura. Sentados e de pincéis em punho somos todos latino-americanos? Feito um instantâneo do continente, esta idéia simples parece se contrapor a pretensiosas e burocráticas tentativas de governos e organizações em conformar algum tipo de identidade nossa. Formas criativas necessárias frente ao colapso do capital, terra, lixo, saúde e informação. “A modernidade contemporânea poderia percorrer um novo caminho, no qual os elementos emancipatórios do imaginário da modernidade – liberdade igualitária, solidariedade e novas formas de responsabilidade coletiva – pudessem sobrepor-se às instituições e giros modernizadores que traem o que surgiu como uma das grandes invenções da humanidade em sua rica e atormentada história até hoje. A América Latina parece ter de fato um papel particular a desempenhar nesse processo”, diz José Maurício Domingues, em “A América Latina e a Modernidade Contemporânea – Uma Interpretação Sociológica” (editora UFMG).

Argentina, Buenos Aires, ano 2001, a economia em profunda recessão deixa 22% da população sem emprego e sem expectativa de mudança. Quem pode negar que o contingente de 9.000 catadores de papel da capital portenha tenha engrossado a partir daí?

República de La Boca, bairro onde o futebol na Bombonera ainda aliviava os ânimos. Um poeta suburbano de codinome Washington Cucurto resolve fazer o que já matutava há tempos. Corta uma dúzia de caixas de papelão em formato de uma folha A4, tira Xerox de textos próprios, cola e pinta a capa com título e nome do autor com tinta guache, da forma mais esgarranchada e colorida possível. “Disseram que eu era louco, que papelão fedia, era sujo”, conta baixinho Cucurto, seis anos depois, enquanto não pára um instante de dobrar catálogos e capas prontas para receber cola e tinta,  no ateliê  sede do Eloisa Cartonera, no mesmo La Boca do princípio.

É ali que se reúnem, de segunda a sábado,  o poeta e ex-vendedor de produtos químicos Ricardo, o estudante chileno Alejandro, o colombiano Juan , a ex-cartonera Míriam La Osa Poderosa e  Leo de La Carto que vende o papelão que vai virar capa de livro. Se qualquer um quiser, na página da web do projeto argentino se aprende a fazer um livro cartonero a partir de um vídeo com Míriam La Osa, integrante do Eloisa há um ano. “Você corta o papelão de forma que dobrado abrace o livro, faz uma máscara branca com o título e nome do autor e depois usa as tintas a seu gosto. No Eloisa, a regra é quanto mais colorido melhor”, ensina La Osa.

Riso e avião

Míriam coletava material reciclável no bairro de La Boca desde pequena. Passou a freqüentar a sede do Eloisa e bater papo com o grupo. Bater papo e agregar gente é especialidade dela. Grande e forte, conhece toda a gente do bairro, das feiras de livro, de movimentos sociais, das universidades de Buenos Aires. Tem um riso largo e contagiante, o que certamente lhe conferiu o título Osa Poderosa. Cucurto se encantou pela cartonera, escreveu várias crônicas e artigos sobre a menina que comia lixo e algumas vezes levava presentes a eles encontrados nas suas andanças, da força e do coração de uma mulher que sabe partilhar. Ela coleciona os textos a seu respeito e pede aos visitantes do ateliê que os leiam em voz alta. Sabe ler mas não gosta muito. Prefere pintar capas e fazer empanadas. Seu maior orgulho é ter viajado de avião pelo projeto. Foi participar de uma feira de livros no Chaco, no ano passado. “Nunca imaginava que isso ia acontecer comigo”. Dá entrevistas e com um gravador na mão é capaz de fazer uma reportagem e meia com os moradores do La Boca.

Cucurto chega ao ateliê no final da tarde junto com Maria, sua substituta imediata e dona do maior grau de ação e organização naquele espaço. Trabalham juntos na impressora, põem tintas, rodam o catálogo que será levado naquele mesmo dia a um festival de cinema. Maria cobra as vendas de Juan e Alejandro, questiona sobre uma feira que foram e não venderam.  Antes de chegar, porém, já tinha ligado para saber como anda o dia, quem está fazendo o quê, como está o movimento. O ateliê funciona na base do que é necessário. Se alguém precisa de uma água, o outro vai buscar, se é de papelão, idem. Trabalho colaborativo nonstop até para quem acaba de chegar. Acontece de as visitas começarem a fazer capas.

Só é possível falar com Cucurto no meio de muito trabalho. E trabalho significa que ele também terá arrumado uma incumbência para você. Trabalho é a palavra que ele mais repete. Diz que o transformou, o moldou. “Tudo depende de nós, se vamos bem ou mal, se trabalhamos mais ganhamos mais. Eu não sabia nada disso, como imprime, cola, pinta. Tudo é uma experiência, vamos aprendendo. São seis anos de cartoneria. Mas ainda vamos aprendendo dia-a-dia. O importante é que se faz o que se gosta, independente de patrão, do massacre que é esse sistema capitalista neoliberal”.

O grupo se modifica muito. O salário é um mistério. Juan diz que ganham entre 700 e 800 pesos por mês, Cucurto diz que é mais, desconfiado. Faz parte do jogo. No começo, com Javier Barilaro, havia pretensões artísticas. Com a saída do artista plástico, ficou o trabalho. Autor celebrado entre os críticos argentinos, Cucurto diz que apenas se diverte fazendo literatura. “É bom saber que se pode fazer literatura, qualquer pessoa, seja boa ou má”. Quando o assunto é o Eloisa, livro não é mais importante que fazer um alfajor ou o choripan, pão com chourizo portenho. O trabalho coletivo sim é a alma do negócio. “Antes me importava ganhar mais dinheiro para mim e minha família. Agora vejo que não é tão importante assim. Vamos fazer uma escola agrícola. As cidades também estão ficando inviáveis, é preciso voltar para o campo, nos autogerenciar e produzir o que comemos. Plantar, trabalhar a terra em conjunto, aprender. Vamos comprar um terreno, virar cooperativa, buscar financiamento”, profetiza.

Viver junto

A idéia é que a cartoneira cresça  – mas não muito – uma convergência com o projeto irmão no Brasil, Dulcinéia Catadora. Do lado de cá, na sala emprestada na Vila Madalena, Lúcia Rosa não acredita em números nem propostas ribombantes. A artista plástica que coordena a editora cartonera brasileira gosta de se dedicar pessoalmente a cada um dos integrantes do Dulcinéia. Tapa os olhos de um novato para que ele se veja livre para pintar. Aquilo dá um pouco de medo no menino. Mas logo ele dispara as pinceladas. Sem cartilha, Lúcia gosta de citar  Nicolas Bourriaud e sua estética relacional –  arte como  processo e o afeto coletivo gerado sem obrigação do objeto final.

A diversidade entre os participantes estimula a discussão e o respeito a diferenças, abrindo espaço para uma troca intensa de vivências. Compartem a mesa dos pincéis Tião, o ex-morador de rua e escritor que vai e vem, Peterson e Marlon,  jovens dedicados , filhos de Ailton, catador de papelão, dois que começam a desafiar o destino e armar outros rumos para eles, Seu Israel, que apareceu no ateliê com sua pintura sui generis de bonequinhos em disparada, Carlos, cardiologista que escreve, dá moral a turma, faz curadoria e sai pra rua vestido de papelão recitando poesia nas intervenções artísticas do coletivo. “A opção é que a experiência estética seja um ato conjunto, gerando prazer no encontro e participação”, é o mantra Dulcinéia. A despeito disso, cada participante ganha uma diária de R$ 30 pelo trabalho, tudo que entra além disso é dividido em partes iguais, sem dependência de patrocínios públicos ou privados. A renda vem da venda de livros (R$ 6 reais cada) e cachês de trabalhos artísticos.

Em ritmo menos acelerado que no ateliê argentino, ali se deixa e se aproveita alguma marca do papelão em seu estado anterior, a primeira história do dejeto que depois vai ganhar a função de proteger e apresentar uma obra literária. Os meninos são estimulados a ler, escrever. Tião já lançou seu “Cátia, Simone e Outras Marvadas” pelo Dulcinéia e está preparando um próximo.  Peterson gosta de fotografia e acaba de conseguir trabalho em um estúdio.  Recitou poema em megafone durante intervenção artística em um festival de cinema em Minas Gerais, cuida do livro de vendas e tem seus sonhos.

Num certo dia, os meninos preparam o cartaz para evento na Mercearia São Pedro. Vão reeditar uma antologia de 2004 com as capas de papelão pintado. Num instante espicham o papelão na mesa, cada um dá sua pincelada de contribuição, Tião solta das suas… Beba Dulcinéia, a gente podia mudar o cardápio, colocar batata frita, poesia, conto, engov… Lúcia vibra. De avental  sujo de tinta ela vai contando aos poucos suas próximas idéias, reforçando que o “nós” prevalece. “Não é comercial. Mas queremos, por exemplo, que os catadores comecem a vender os livros também. Ele vende o papelão mas também vende os livros, isso muda tudo, ele participa desde a coleta do lixo até o lixo transformado num objeto de maior valor, com isso ele também se dará maior valor”.  Seu Ailton, pai de Peterson e Marlon, já está interessado em vender os livros. Tem esperança, mas se preocupa com o destino dos dois meninos, conta no meio do trabalho na Cooperativa de Catadores da Baixada do Glicério, com sede bem debaixo do viaduto do Glicério, centro de São Paulo. “Meu pai foi catador por 50 anos aqui, eu já fui, larguei, fiquei doente e voltei. Tem trabalho nesta cidade. O importante é não ter vergonha do que se faz”. Ailton é franzino e sorridente. Com  seus 43 anos é capaz de pilotar seu carrinho catador pelas ruas da região. Carrega de 200 kg a 300 kg por viagem.  O Dulcinéia Catadora chegou a comprar papelão da cooperativa do Glicério, mas agora optou por uma central mais próxima do ateliê. “Era uma briga danada para vender porque eles pagam R$ 1 o kg e o preço na época era R$ 0,20”. Um compromisso de editoras cartoneras é comprar o papelão por um preço acima do praticado no mercado de forma a valorizar a matéria-prima para literatura de primeira.

Na ponta final, os livros do Dulcinéia Catadora podem ser vistos em São Paulo na Galeria Vermelho, de arte contemporânea, livrarias, sebos e bares. Com a cara e  coragem, Dulcinéia Catadora seguiu para a Flip de 2007, sofisticada feira de literatura em Paraty, oferecendo seus livros de R$ 5 , uma editora não gostou, reclamou, pense na petulância. Ronaldo Bressane, escritor brasileiro que publicou livros pelo coletivo brasileiro (“Corpo Porco Alma Lama”) e pela irmã paraguaia Yiyi Jambo, diz que não conhece autor que não doe seus escritos para uma cartonera e põe fé nos “talentos insuspeitados” que habitam as editoras, pintando livros no anonimato.

Desacreditar na arte desconectada da vida é um princípio que o Dulcinéia Catadora levou da sua origem, a Bienal de Artes de SP com o tema “Como Viver Junto”, em 2007. A curadoria convidou o Eloisa Cartonera para que reproduzisse seu trabalho ali naquele painel da arte contemporânea mundial e jovens filhos de catadores de papelão brasileiros foram chamados a participar da oficina de manufatura do livro cartonero. Ao final, uma nova editora de papelão surgia em São Paulo.  Neste meio-termo, a idéia ganhava outras plagas.  Em 2005, no Peru, um grupo de intelectuais criava o Sarita Cartonera que inspirou iniciativas na Bolívia (Yerba Mala) e no México (La Cartonera).

Intercâmbio selvagem

O intercâmbio entre as editoras cartoneras não é uniforme, mas existe. À uma chamada geral da editora chilena Animita Cartonera, as irmãs latinas atenderam e publicaram simultaneamente o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro. Lúcia descolou uma tradutora para a versão portuguesa e lançou uma edição bilíngüe.

A integração cartonera se dá ainda pelo curioso e potente portunhol selvagem. A língua híbrida do português, espanhol e tupi guarani é invenção do poeta Douglas Diegues, editor cartonero do selo paraguaio Yiyi Jambo.  Autores brasileiros e paraguaios, como o próprio Douglas, lançaram títulos no novo idioma, sublinhando uma questão que insiste em separar Brasil dos outros países latinos quando há mais semelhanças que diferenças.

Washington Cucurto diz que não ensinou ninguém nem foi procurado pelas outras cartoneras. Foram acontecendo. Desse mesmo jeito, em uma semana,  Eloisa Cartonera foi procurada, visitada, freqüentada por duas acadêmicas portuguesas – que estão fazendo pós-doutorado sobre o tema – jornalistas alemães, poloneses e artistas espanhóis que querem fazer parceria com o projeto. Sem contar críticos e professores de Literatura que se debruçam sobre a história nas suas mais variadas pegadas: sustentabilidade, convergência das artes, inclusão social, negócio inclusivo, legado criativo da crise.   Você colocou a literatura latina onde deveria estar? , pergunto a Washington Cucurto. “Que sé yo!”, responde no melhor argentinês.

Matéria resultado do Prêmio Avina de Jornalismo Investigativo, publicada na Revista Fórum