Projeto Catando Estórias – concepção coletiva + atuação

 

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Coluna mensal Página Cultural – Revista Página 22 (2008 a 2014)

http://www.pagina22.com.br/2013/02/04/pagina-cultural-36/

http://www.pagina22.com.br/2013/06/06/pagina-cultural-40/

http://www.pagina22.com.br/2013/03/07/pagina-cultural-37/

http://www.pagina22.com.br/2012/10/11/pagina-cultural-33/

http://www.pagina22.com.br/2011/02/07/pagina-cultural-14/

 

 

 

Festival Conexão Rio – assessoria de imprensa + textos + relações públicas

http://guia.uol.com.br/rio-de-janeiro/shows/noticias/2013/07/11/festival-conexao-traz-para-o-rio-circuito-com-29-shows-instrumentais-gratuitos.htm

“Conexão Rio” espalha música pela cidade

http://oglobo.globo.com/cultura/festival-conexao-rio-reune-partir-de-hoje-diversas-geracoes-segmentos-da-musica-instrumental-na-cidade-8988556

http://www.cultura.rj.gov.br/evento/festival-conexao-rio

http://www.backstage.com.br/noticia/962/festival-conexao-rio-leva-musica-instrumental-ao-grande-publico

http://cultmagazine.com.br/festival-conexao-rio-promove-shows-gratuitos-por-diversos-pontos-da-cidade/

 

17a Mostra Tiradentes + Mostra Tiradentes/SP – assessoria nacional +textos + conteúdo do site

 

http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,ana-moravi-leva-poesia-e-sutileza-a-festival-de-tiradentes,1124895

http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2014/01/17-edicao-da-mostra-de-cinema-de-tiradentes-comeca-nesta-sexta-feira.html

http://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,diretor-se-apropria-de-godard-para-discutir-imagem-em-tiradentes,1125326

http://www.brasil.gov.br/cultura/2014/03/filmes-da-17a-mostra-tiradentes-serao-exibidos-em-sp

http://www.culturaemercado.com.br/site/agenda/mostra-de-tiradentes-leva-filmes-a-sao-paulo/

http://www.universoproducao.com.br/mostratiradentes/2014_pre/noticias.php

 

Outra Utopia de Cidade

Para quem sai da Zona Sul são dois ônibus, com risco de pegar a linha errada já que os olhos estão acostumados àquela paisagem do cartão postal em que vive a elite branca carioca. O Complexo da Maré impressiona, primeiro, pelo tamanho e formato – são cerca de 130 mil moradores em diversas comunidades e conjuntos habitacionais espalhados horizontalmente – e por estar às margens da avenida Brasil e da baía de Guanabara. O manguezal da Maré foi ocupado a partir do século XX por barracos e palafitas, depois aterrado pela população e poder público. Virava notícia só quando o aglomerado inundava ou nos episódios de violência – ao menos três facções criminosas ali se alojam. Tirando a enchente, pouco mudou com os anos, tal como as distinções periferia/centro, asfalto/favela que cuidam de perpetuar estereótipos, evitando um pensamento de transformações. A diversidade da Maré comporta, desde 2001, o Observatório de Favelas, organização social que trata de reposicionar o tema e os espaços populares na vida da cidade. “A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade a partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. É preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade”, afirma Jorge Barbosa, um dos fundadores do Observatório de Favelas, que falou com exclusividade para esta edição da Página 22.

O Observatório é uma organização social criada em 2001 na perspectiva de se construir conhecimento sobre as favelas e espaços populares.  Nesses primeiros anos, o foco era incentivar essa produção de informações e, ao mesmo tempo, formar pesquisadores locais, nas comunidades. Os próprios fundadores e hoje diretores vieram dessas comunidades? Podemos dizer que o início do Observatório era colocar a favela e a periferia na pauta de discussões da sociedade? Torná-la visível?  Fale sobre este começo e o que implica uma organização social surgir de gente de dentro da realidade vivida.

O Observatório é uma instituição que busca a produção de conhecimento. Nós somos oriundos de espaços populares e passamos pela universidade. Nunca nos afastamos das nossas relações de pertencimento aos espaços populares. A ideia de construir um observatório era ter uma instituição capaz de construir conhecimento inovador, fazer desse conhecimento uma mediação para ação pública, sobretudo, colocando a favela na agenda da cidade de uma forma positiva. A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade, mas de uma forma negativa. A partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. E cujo receituário era remoção, ou seja, a favela sempre vista como problema ou distorção da urbanização acelerada do território brasileiro. A ideia era,  a partir da produção do conhecimento, colocar  a periferia e a favela de uma forma propositiva e positiva. Mostrar que ela é produto das contradições da cidade e das desigualdades sociais, da distinção territorial dos direitos e, ao mesmo tempo, é uma expressão legítima do direito de habitar a cidade por parte de grupos sociais mais vulneráveis, mais desiguais. Isso gera uma inversão, uma inflexão política do lugar da favela na agenda. Ao invés de ser um problema, ela se torna uma esfera da busca pelo direito de cidade. Ah, precisa urbanizar as favelas, dizem. Claro, é preciso ter saneamento, habitações qualificadas, equipamentos culturais e educacionais, ou seja, toda a urbanidade que uma cidade possui. Mas mais que isso, é preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade. Novas sociabilidades, novos encontros e experiências de estar com o outro, reconhecimento de que somos uma sociedade diferente e plural. Tentamos pautar não um projeto para a favela, mas um projeto para a cidade, um projeto novo e radical de cidade.

Jorge, e quem eram vocês há 13 anos atrás, quando da fundação do OF? Eram colegas de universidade, vizinhos de bairro?

Eu e Jailson  (Jailson de Souza e Silva também é fundador e diretor do OF) estudamos juntos, na mesma universidade, no curso de Geografia. E sou do Caju e o Jailson é de Brás de Pina, depois ele se mudou para a Maré. Nós viemos de bairros populares e já tínhamos alguma experiência de militância. Ele mais na militância católica popular, eu mais na militância estudantil. Ele já fazia um trabalho na Maré e me convidou para trabalhar no censo da Maré, na leitura dos dados. Fui ficando e resolvemos criar uma  instituição, como um observatório, que não fosse da Maré e para a Maré. Fizemos um projeto para a Fundação Ford e durante dois anos tivemos esse apoio, criamos um grande projeto de formação de pesquisadores populares o que abriu o horizonte de construção da instituição que acabou ficando na Maré, nosso berço.

 

E como foi a transformação do OF ao longo do tempo, quando passou a abrigar pessoas com formações e origens diversas? Isso foi guiado pelos projetos?

Nós passamos a entender que havia uma agenda de democratização da cidade a partir de políticas públicas. E passamos a entender quais os campos principais do debate para o direito à cidade, trabalhando nessas grandes temáticas: direitos humanos, por exemplo, para nós é decisivo diante do processo brutal de repressão e violência porque partimos da consideração que as favelas não são violentas. Elas são mais duramente afetadas pela violência. Isso faz uma inflexão na política de segurança pública, ou seja, a favela é um lugar de pessoas mais desprotegidas, mais frágeis e vulneráveis à violência urbana. Porque o Estado abdicou das favelas e não impediu, de uma forma segura e efetiva, que elas fossem ocupadas por grupos criminosos e armados. Criamos uma outra linha para se pensar direitos humanos, trazendo este debate para dentro do território. Entramos também na educação, entendíamos que a política de educação no campo da universidade era um divisor de águas que  não superava as desigualdades. Sobretudo desigualdades raciais e territoriais. Que a universidade abrigasse de fato a democracia, os grupos populares e não estivesse tão distante que as pessoas não pudessem sonhar. Então criamos o projeto Conexões de Saberes, de 2005 a 2008, que depois se tornou uma política pública do MEC e hoje é um PET – Programa Especial de Treinamento do Ministério da Educação. Desenhamos este projeto que aconteceu em 33 universidades. O MEC absorveu muita coisa do projeto. Deu a possibilidade de o MEC trabalhar a política de cota com muito mais conhecimento do que acontecia em termos de ingresso e permanência dos jovens nas universidades. Fizemos uma grande pesquisa em 33 universidades brasileiras sobre a questão do ingresso, pegando os cursos mais procurados e os menos procurados e como o jovem de origem popular ingressava em um lado ou outro. A partir daí vimos que  estudantes de escolas privadas ou escolas públicas federais têm muito maior probabilidade de entrar nos cursos de maior concorrência do que os de origem popular. Outro dado foi a renda familiar. Filhos de determinadas classes com maior renda e propriedade também têm maior chance de entrar nas universidades. Isso já estava consagrado,  mas conseguimos comprovar pelas pesquisas. O que não estava comprovado e foi determinante para uma política pública afirmativa era o dado que a gente descobriu: a escolaridade dos pais, o currículo implícito. Um jovem de origem popular, em média, entrava aos 24 anos na universidade, já entrava na hora de sair. Já tinha um recorte aí e outras implicações: a variável fundamental era escolaridade dos pais. Ou seja, um jovem cujo pai e mãe têm mestrado, doutorado ou graduação tem muito mais chance de entrar na universidade que a questão da renda ou o fato de ter passado por escola privada. Porque este jovem teve acesso a um livro, ia ao teatro, ao cinema, tinha um currículo implícito que o distinguia dos demais. O capital social e cultural tornava-se fundamental para o vestibular e para entrar  no curso. Daí se juntarmos um recorte racial – nós sabemos que grande parte dos negros tem mais dificuldade de acesso – mais a questão social (o currículo implícito) ficou evidenciado que para superar essa situação de desigualdade social que a universidade reproduzia, só com uma política de ação afirmativa, de cotas. Entre um jovem que mora na Rocinha e outro que mora num apartamento em condomínio de São Conrado , apesar de serem vizinhos, há uma territorialidade muito diferente. Um jovem da Rocinha para alcançar um nível de escolaridade de um jovem de São Conrado levaria 100 anos sem as políticas públicas de acesso. Passamos a pautar esse debate nas universidades que se beneficiaram destes estudos. Eu e Jailson, por exemplo, fomos os primeiros das nossas famílias a entrar na universidade, o que mostra como ela esteve distante dos projetos e sonhos de uma grande parte da população, por muitas gerações. Este foi um projeto que deixou um lastro. Também tivemos outros, como o programa para redução da violência letal. Fizemos uma pesquisa em 16 cidades brasileiras e criamos um índice de homicídios entre jovens e adolescentes, mostrando na pesquisa quem eram os jovens mais vulneráveis aos homicídio, negros, moradores de favelas e periferias são os mais vitimados, seja na ação da polícia seja no enfrentamento entre facções criminosas. Criamos um guia de redução de violência letal que se tornou política pública federal para os municípios, com apoio da Unicef e Secretaria Especial de Direitos Humanos. Este também é um legado importante que o Observatório deixou em termos de política pública.

E o projeto teve financiamento da iniciativa privada?

A iniciativa privada não está interessada em políticas de direitos, sociais. Está interessada em política pública que garanta os seus interesses. Este projeto foi financiado pelo governo mesmo e, em parte, pela Unicef.

Mas a Petrobras, por ex, não está por trás de muitos financiamentos?

Mas a Petrobras é uma empresa estatal, é diferente, tem pressupostos de lucratividade,  mas tem uma missão pública. Tem apoiado diversos projetos nossos e de outras instituições como o  Solos Culturais e a Escola Popular de Comunicação, uma outra linha que passamos a trabalhar. Entendemos que precisávamos atuar nesta área porque os grandes veículos sempre tinham leitura distorcida dos espaços populares, reproduzindo o senso comum sobre favelas e periferias. A ideia era que tínhamos de disputar um imaginário de cidade, uma política no campo da comunicação. Não uma disputa por mensagens ou notícias, mas no campo da formação e politização e da opção de representação por parte dos jovens das favelas. Derivado disso surgiu também a escola popular de fotógrafos, a Imagem dos Povos.

Quem financia esses projetos?

A Espocc é financiada pela Petrobras. A Imagem dos Povos já foi financiada pelo Criança e Esperança, patrocinadores internacionais e agora passamos a gerar produtos, livros.

E eles hoje se auto-sustentam?

Olha, a busca é esta, da auto-sustentabilidade. Mas nós vivemos de projetos e programas, parcerias, não há uma política de apoio a instituições. Este é um dos grandes problemas que enfrentam as organizações da sociedade civil. Primeiro porque precisamos participar de editais, feitos de acordo com políticas do Estado ou de empresas e organizações. Acho os editais um avanço, mas ficamos muitas vezes sujeitos a políticas temporárias, um edital abre um ano, não abre no ano seguinte, o que gera um problema de continuidade. A segunda questão é a constante criminalização de entidades da sociedade civil, sobretudo as ONGs, tidas como picaretas, que pegam dinheiro do governo e não prestam contas a ninguém.

Você dizia das empresas privadas como distantes da realidade do apoio a projetos sociais, elas não são parceiras?

No caso do Observatório elas não são fontes de recursos, como para a grande maioria dos instituições sociais.

É mais fácil ainda captar no exterior?

Muitas vezes sim é mais fácil. Embora hoje os recursos das instituições internacionais para projetos no Brasil tenham sido bastante limitados porque acham que o Brasil já resolveu todos os seus problemas, já está bem, é a oitava economia do mundo e está tudo bom. Acham que deve ir mais pra África. Mas a desigualdade no Brasil é imensa, é um país paradoxal. Pode reduzir a pobreza sem reduzir a desigualdade, o que tem sido feito nos últimos 12 anos.

Centro/periferia ou asfalto/favela são palavras e distinções ainda usadas correntemente. Como as entende? O que elas compreendem (território, condição financeira, diferença) e o  que suscitam?

Quando se colocam estas palavras o que querem dizer? Sempre tem uma conotação de valorização. Só existe centro se houver periferia, asfalto se tiver favela. Ideias de superiorização e de que o mundo pode ser partido em coisas binárias, de que o centro não seria o centro sem a periferia. Existem conflitos e tensões que precisamos trabalhar,  mas não de uma forma distintiva, que tem consequências sérias em relação à própria vida de quem habita cada espaço. Estas palavras trazem a ideia de que vivemos em cidades partidas, metrópolis partidas e isso acaba ocultando a questão da desigualdade socioeconômica que se expressa territorialmente e que nós chamamos de distinção territorial de direitos. Algumas pessoas dentro da cidade têm mais direitos que as outras. Por isso a vida de algumas pessoas é mais valorizada que a de outros. Ou seja, essas construções binárias ocultam contradições e conflitos e perpetuam e naturalizam as desigualdades. Nosso exercício é desnaturalizar a desigualdade, pautando a diferença. A diferença no Brasil acaba servindo de legitimidade para a desigualdade. Ah você é assim porque é mulher, porque é negro, é favelado. Ou seja, nós temos de ser bastante efetivos na valorização da diferença e na superação da desigualdade. Como se faz isso? A política pública no âmbito da cultura, da urbanidade, dos direitos a vida, da comunicação e educação tem que se pautar por uma inflexão territorial dos direitos públicos. Tem que tratar de modo desigual os desiguais. Se não tiver uma inflexão territorial, vamos ter uma concentração de investimentos públicos em determinados espaços da cidade que só reproduzem a desigualdade.  As favelas e periferias têm de ser reconhecidas como espaços de produção de arte, de sociabilidade que podem construir um novo projeto de cidade. Você supera a ideia de periferia e aponta a periferia como centro difusor de cultura, de arte, experiências de solidariedade, de invenção de possibilidades. Hoje a periferia é essa centralidade importante.

Há alguns anos a periferia e a favela chegavam à mídia quando se tratava de violência, exclusão social, pobreza, mundo informal. Agora vemos o rolezinho, a veiculação da imagem das favelas nas novelas e na publicidade, em matérias jornalísticas que traçam o perfil das classes C, D e E. Até que ponto não se trata de meras substituições de temas para manutenção dos estereótipos?  O que mudou?

 

Existe um foco em cima de estereótipos e que tende a ser romantizado. Quando se fala do fenômeno do rolezinho vemos que ele acontece nos shoppings de periferia da cidade. Por que? O shopping da periferia é para o menino frequentar se ele não tem um museu, uma praça, um parque, uma biblioteca, onde ele vai fazer o seu encontro? Ele tem suas tramas virtuais, mas chega um momento em que os caras querem dar beijo na boca, se abraçar, tirar fotografia, conversar, se tocar. Pra onde eles vão? Os shoppings das periferias precisam reconhecer que devem se tornar espaços públicos. E abrigar a diferença. Ou a propriedade privada acha que não tem nada a ver com a sociedade? É uma ilha fechada em si mesmo que só vai tratar as pessoas como consumidores? Por outro lado, essas imagens que estamos vendo na mídia, seja na TV ou no cinema, a favela virou um espetáculo. O espetáculo da violência. As cenas de um filme que espetacularizam a violência acontecem onde? Na favela. Então tem também uma espetacularização da pobreza, da cultura e, na verdade, o que isso contribui para que a favela entre na cena política? Muito pouco porque tudo mantém os estereótipos. Então como ela deve entrar na mídia? Como ela é. A favela e a periferia são legítimos espaços de luta para habitar a cidade, pelo direito à cidade, mas têm conflitos, contradições, desemprego, violência doméstica, tem a presença do narcotráfico, tem a ação violenta da polícia, tem habitações e situação de risco. Então, não dá pra glamurizar a favela. Ela precisa ser vista como esforços de gerações e gerações pelo legítimo direito de morar. Reconhecer não significa achar que tá tudo legal. Eu conheço a periferia de São Paulo, falta saneamento, há problemas ambientais sérios, desemprego, violação de direitos, ou seja, quando passa na novela “Salve Jorge”, as pessoas estão desfilando, dançando, sambando no bar. Existe isso, mas tem contradições e conflitos também que precisam ser compreendidos e considerados.

Você poderia falar sobre o fato de a periferia ser vista hoje como um grande mercado de consumo. O rolezinho, neste caso, seria apenas a exposição desses sinais, a periferia como toda a sociedade estão ditadas por aspirações que emergem de um modelo de consumo capitalista. (aqui caberia um paralelo com a questão climática, países em desenvolvimento como o Brasil estão sendo cobrados pelo aumento das emissões, muitos carros na rua etc)

O Brasil é dos principais mercados de carros do mundo. A ideia consolidada pelas próprias classes dominantes é que a cidadania está ligada a consumo. Ou seja, sou mais cidadão quanto mais eu consumo. É a partir da aquisição de bens distintivos que as pessoas se afirmam, se valorizam. Ou seja, de certo modo, a política econômica traz essa subjetividade. Pensamos que a política econômica é objetiva, dinheiro aqui, mercadoria ali, mas ela tem uma forte subjetividade. Eu sou melhor do que você devido ao objeto que eu compro. Então você está diante de um dilema entre o consumidor e cidadão. Vamos voltar às pessoas. As pessoas que moram nas favelas e periferias não estão numa ilha, elas participam da vida urbana, vivem numa cultura urbana, com valores juízos e distinções que são hegemônicos na sociedade. Então você quer que o cara da favela seja ecologicamente correto? Não dá né.  Ele não tem saneamento, não tem coleta de lixo regular, a beira do rio enche sempre, mas, sim, ele precisa ser ecologicamente correto. A sociedade pode ser incorreta. Eles estão inseridos numa sociedade de consumo onde o consumidor vale mais que o cidadão. Como você muda isso? Com política pública. Por exemplo, as pessoas da periferia de São Paulo e do Rio de janeiro gastam quantas horas para chegar ao trabalho e voltar? Duas, três horas? Num ônibus apertado ou no trem lotado. Duas horas para ir duas pra voltar. A que horas essa pessoa dorme, lê, se diverte, encontra os amigos? Ora, se você tem a oportunidade de comprar um carro e se livrar daquele negócio apertado que não obedece horário e te maltrata, a pessoa vai comprar um carro, uma moto. Ela está tentando solucionar individualmente algo que devia ser solucionado do ponto de vista coletivo. Uma das nossas grandes linhas de intervenção é a mobilidade, não só a circulação. Ou seja, nós precisamos ter uma política hoje de transporte coletivo humanamente responsável e de qualidade. Eu não posso gastar quatro, seis horas, isso é um processo de dilapidação de corpos no trabalho. Porque o patrão quer que ele chegue na hora e saia na hora. O que ele faz fora desse período e como faz pouco importa. Portanto, uma política ambiental hoje importante – relacionada à favela e periferia – precisa  valorizar a dimensão humana da nossa existência, independente da raça, gênero, orientação sexual. Uma política de direitos que valorize nossa vida, a dimensão humana como dimensão ecológica, não somos humanos plenos se não tivermos a natureza. Nós, em essência, somos a natureza. Como se combina isso, uma política ambiental e uma política cidadã, de direitos? Não é dizer pras pessoas não consumirem. Qual a possibilidade de a gente fazer uma política de direitos que garanta toda uma mudança no nosso modo de vida? Há tantas tradições culinárias, medicinais nas favelas, mas absolutamente subalternizadas, subterrâneas, despidas de valor. Como se retoma outras culturas de vida? Como criar uma política de habitação que dê conta da mobilidade e que não seja essa, por exemplo, do “Minha Casa Minha Vida”. Aqui no Rio de Janeiro o programa coloca todo mundo na zona oeste, com um processo brutal de desmatamento dessas áreas, que eram rurais, com sítios, desprovidas de equipamentos culturais, educacionais, de transporte público. Nós estamos vendo um processo de re-periferização da pobreza, distanciamento dos pobres das áreas centrais da cidade. Por outro lado, temos de observar que o discurso ambiental do poder público, de enchentes e áreas de risco, tem se prestado a políticas de remoção. Quando caracterizamos o debate ambiental, temos de ter uma leitura muito crítica, assim como se fala centro/periferia, favela/asfalto, os termos ambientais também são apropriados para políticas arbitrárias e autoritárias que legitimam as diferenças e desigualdades.  É preciso entender que o risco de desabamento é em ponto, não em área. Se há uma pessoa em risco, uma casa em risco é preciso atenção a ela. Inclusive fazer de tudo para que ela permaneça na própria comunidade porque ali ela tem relações de parentesco, de amizade, de confiança. Isso é fundamental. Para a classe média a unidade básica de proteção é a família. Para o pobre a unidade básica de proteção é o território.

Publicada em março de 2014 na Revista Página 22

Currículo

Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (2012), com Especialização em Novas Tecnologias da Comunicação pela UNI-BH (2000), e Bacharel em Jornalismo pela PUC-MG (1994).

Principais (últimos) trabalhos

Matérias para o site Boas Novas (MG) – Nov 2017

Colaboração para o jornal O Beltrano (BH) – Jun Ago Nov 2017

Entrevistas e edição de texto para o Catálogo de 20 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes-MG. Jan 2017

Colaboração para a revista digital de jornalismo de dados com recorte em gênero, Gênero e Número (www.generonumero.media) – Dez 2016

Assessoria de imprensa para a 1a edição da MAX – Minas Gerais Audiovisual Expo – junho 2016

Monitoramento de mídia e edição de texto para a FSB Comunicação (2015-2016)

Assessoria de comunicação para a Universo Produção nas seguintes Mostras de cinema: Mostra Tiradentes, CineOP, CineBH, Mostra Tiradentes SP (Cinesesc) entre 2007 e 2016

Colaboração mensal para a Revista Página 22 (SP) da FGV-Ces entre 2008 e 2014

Produção e edição de livros colaborativos com grupo formado no Morro da Providência (RJ) para o Museu de Arte do Rio (MAR) através do coletivo artístico Dulcineia Catadora (SP) entre 2012 e 2013

Roteiro e entrevistas para Campanha de Marketing Digital 60 anos da Petrobras – 2013

Assessoria imprensa internacional no Festival de Cultura e Gastronomia de Tiradentes – MG – 2013

Assessoria de comunicação para o Conexão Rio 2013 – Festival de Música -RJ – 2013

Assessoria e produção para palestra e oficina “Narrativas Digitais” do coletivo Garapa (SP) na Caixa Cultural – RJ – 2013

Assessoria para o lançamento da publicação “A Poesia dos Instrumentos na Música Popular Brasileira” (PR) em 5 capitais brasileiras (RJ, Brasília, BH, SP, Curitiba)- 2013

Redação para TV e rádio na Campanha Eleitoral 2012- RJ

Colaborações para a revista Ideal Comunitário do Instituto Camargo Corrêa- SP – 2012

Assessoria de imprensa para games educativos BR Academy- SP

Produção de textos para site, folder e manual do voluntário da Fundação Dixtal – SP – 2011

Produção de textos para o portal da Secretaria Estadual de Turismo MG – 2010

Media training e monitoramento de mídia para clientes da Máquina da Notícia – SP – 2010 e 2011

Redação de cartilha educativa ONG Circo de Todo Mundo – MG – 2004

Redação e edição de cadernos especiais – Jornal Estado de S. Paulo – 2010

Empregos anteriores

2007/2008
– editora das revistas customizadas da Sadia, Ambev e Bunge através da editora 4Capas (SP)
– assessora de comunicação da Melissa para o São Paulo Fashion Week através da Press Pass Comunicação e Marketing
2005/2006
        – Editora dos cadernos Internacional e Brasil do jornal O Tempo (www.otempo.com.br)  e colaboradora do caderno de cultura Magazine
2002/2003
– Assessoria de imprensa dos projetos socioculturais da TIM (Tim ArteEduação, TIM Grandes Escritores e outros) em Minas Gerais pela Edelman Public Relations Worldwide

Temas com familiaridade

Cultura

Cultura digital

Direitos Humanos

Coletivos artísticos

Comunicação

Geopolítica

Desenvolvimento Sustentável

Cursos e participações em eventos

Palestrante no evento Contém Cultura (Navegantes-SC) através do coletivo Dulcineia Catadora com o tema das editoras de livros de papelão (Nov/2013)

Aluna do curso de extensão Cultura e Políticas Públicas – UFRJ (2013)

Selecionada para apresentação de projeto de pesquisa de mestrado na JALLA – Jornadas Andinas de Literatura Latinoamericana – Cali – Colômbia (2012)

Participante convidada do  I Encontro Avina de Redes Sociais para o Ativismo – The Hub -SP (2012)

Participante através do coletivo Dulcineia Catadora da programação do Festival BaixoCentro – SP (Mar/2012)

Participante do II Congresso de Jornalismo Cultural – Tuca – SP (2011)

Aluna do Curso de Cinema Latino-Americano – Centro de Estudos do Memorial da América Latina – SP (2011)

Participante através do coletivo Dulcineia Catadora do Festival Internacional de Cultura Digital no RJ (Dez/2011)

Participante do Fórum Geopolítica da Cultura e Fórum de Cultura Digital – Cinemateca – SP (2010)

Selecionada para a Bolsa Avina  com o projeto “O papel social”, que pesquisou a conformação da rede de editoras cartoneras na América Latina (2008)

Selecionada para a Oficina de Crônicas da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) (2007)

Viagens

Morou em Barcelona (Espanha) durante oito meses como participante do Fórum Mundial das Culturas, colaborando para jornais brasileiros (Folha SP, Correio do Brasil, O Tempo) com matérias de temática cultural/econômica/social/ambiental. Passou um mês em Cuba, viajando pelo país, o que resultou em reportagens inéditas para veículos de comunicação brasileiros, como revista Planeta, revista Fórum e revista Página 22. Viajou por outros países latino-americanos (Colômbia, Uruguai, Argentina) produzindo reportagens sobre a realidade local.

Idiomas

Inglês e espanhol – nível avançado

Contatos

Mamalá Comunicação

dangelo.ana@gmail.com

(21) 99463-7000

skype: anacristinada