Quando não mata, violência doméstica deixa marcas e dura batalha judicial para as mulheres

Reincidência das agressões alcança 42,5%, e para enfrentar traumas dessa violação constante vítimas criam redes de solidariedade e empoderamento

Por Ana D’Ângelo* para Revista Gênero e Número 

Fernanda Flores está em Novo Hamburgo (RS), Kátia Osório em São Paulo, Marina de Menezes é brasileira vivendo em Tijuana (MEX) e Solange Revorêdo mora no Rio. Têm idades e classes sociais distintas. Todas foram vítimas de violência doméstica praticada pelos ex-parceiros e os denunciaram à Justiça. Alguns foram condenados por parte dos crimes, outros nem isso. Todos permanecem em liberdade. Elas estão vivas, mas carregam marcas.

Outras sinas aproximam estas mulheres. Viveram longos anos com seus algozes e passaram por diversos tipos de violência, mas foi uma agressão física atroz o que as levou a romper o silêncio para tentar outra vida. Elas não são casos raros no Brasil. Em 2015, chegaram aos hospitais brasileiros mais de 162 mil mulheres vítimas de violência doméstica, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Já no balanço do primeiro semestre deste ano da Central de Atendimento à Mulher (180), que tem status de disque-denúncia, 41% das mulheres que relataram violência doméstica estavam há mais de dez anos com os agressores. O conteúdo dos 67.962 relatos de violências somados neste mesmo período mostra que 51% dos casos foram de violência física.

“A gente não entende muito todos os níveis de violência, escutamos coisas como ‘hoje você não pode sair’, ou ‘essa roupa está muito apertada’, depois passa a ser um ciúme doentio, perseguição, ameaças até que fica insuportável”, conta Marina de Menezes, que sofreu violência doméstica do ex-marido mexicano por mais de três anos. Na última vez, estava em videoconferência com um colega de trabalho, quando seu interlocutor presenciou o marido espancá-la e decidiu chamar a polícia. Marina foi aconselhada pelos policiais a não prosseguir com a denúncia porque teriam de levar os dois “para saber quem estava falando a verdade” e a guarda das crianças seria dada ao Estado. Marina desistiu da denúncia e as agressões continuaram. Quando decidiu reagir e dizer a ele o que sentia, foi golpeada com o sequestro dos dois filhos. Abraham, o ex-marido mexicano, fugiu de Tijuana, onde viviam, para Cidade do México, a mais de 3 mil quilômetros de distância.

Mariana está há nove meses sem ver os filhos porque o pai impede que chegue perto. Com ajuda de dois advogados e do consulado brasileiro no México, ela tenta resolver a situação. Correm dois processos de divórcio: um na Cidade do México, iniciado por Abraham, e outro, em Tijuana, iniciado por Marina. “Eu entrei com o amparo, que é como se fosse uma medida cautelar no Brasil, que foi o que fez com que conseguíssemos frear o processo da juíza da Cidade do México”, explica. No entanto, essa juíza não reconhece que o processo parou, ainda que a medida tenha vindo da justiça federal. Segundo Marina, a Justiça mexicana, como a brasileira, é lenta, mas ela confia que a verdade vai prevalecer.

pexels-photo-60289

Quando não termina em morte, a violência doméstica traz graves consequências para a saúde da mulher e, para romper este ciclo, ela ainda enfrenta a cultura machista e a fragilidade e insuficiência das instituições de amparo. A promotora Valéria Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de SP, diz que, muitas vezes, a mulher adoece antes que perceba ser vítima de violência doméstica. As principais doenças geradas pela conduta do agressor são crônicas, como estresse pós-traumático, doenças de pele, do trato digestivo, urinário e doenças sexualmente transmissíveis (DST). Com estado debilitado e baixa auto-estima, esta mulher fica mais estigmatizada perante um julgamento, por exemplo. “A mulher tende a ficar deprimida e abusar de drogas. E, perante o Júri, é apresentada como alguém que precisa de remédios, com discurso fragmentado, choroso, enquanto os homens estão seguros, negam veementemente os crimes e se colocam muitas vezes como vítimas, corroborando nossa cultura machista”.

Solange Revorêdo lembra o medo de denunciar. “Parece que tem uma camisa de força, você não consegue se mexer. E quem de fora vai testemunhar contra um policial que tinha quase matado a mulher dentro de casa?”, indaga. O marido de Solange já respondia pela Lei Maria da Penha, quando voltou a agredi-la. O pai teria colocado o filho de quatro anos para ajudá-lo a limpar o sangue da cozinha de modo a eliminar o flagrante.

“Momentos felizes pra uma mulher agredida é o máximo”, acrescenta Kátia Osório, que acreditou por dez anos que o marido iria mudar. O balanço do 180 do primeiro semestre de 2016 aponta que quase 40% dos casos denunciados acontecem diariamente e a reincidência é registrada em praticamente metade dos casos de atendimento feminino (49.2%), de acordo com dados do Mapa da Violência 2015 (Sinan). A análise do Mapa da Violência é que esse nível de recorrência deveria ter gerado mecanismos de prevenção, o que não parece ter acontecido. Essa exposição constante da vítima à violência não raramente leva à morte, como observa o estudo A violência doméstica fatal: o problema do feminicídio íntimo no Brasil, produzido pelo Ministério da Justiça. “Na vasta maioria dos casos analisados, foi possível depreender que o homicídio se deu não como um evento descolado da vivência do casal, mas sim como momento culminante de uma trajetória violenta e que nunca foi levada ao sistema de justiça”, aponta o documento.

Diante da Polícia e da Justiça, mais aspectos unem estas mulheres. Demora na liberação de medidas protetivas, delegacias especializadas que não funcionam 24 horas e despreparo do judiciário para dar celeridade às ações.

Anúncios

A produção do desencanto – Notas sobre tecnologia, política e cultura

Com ilustrações de Eloar Guazzelli

Revista Página 22

 

Como o modo “hacker” de agir, ao achar e ocupar as brechas dos sistemas, pode mudar o mundo desiludido com as promessas da democracia, do capitalismo e da justiça social

As ilustrações dessa reportagem são obras de Eloar Gazelli
As ilustrações dessa reportagem são obras de Eloar Gazelli

O blecaute das grandes corporações funcionou por enquanto. Os projetos Sopa e Pipa [1] foram retirados da pauta do Congresso norte-americano. Mas ainda paira a ameaça de regulação da internet com a justificativa do combate à pirataria e a proporção que o debate alcançou resulta em oposição, mas também em pressão para que outros países avaliem uma conduta parecida.

[1] Stop Online Piracy Act (Sopa), ou Lei Contra a Pirataria Online, eProtect intellectual Property Act(Pipa), ou Lei de Proteção à Propriedade intectual

O jogo de forças põe na corda bamba a previsão do filósofo da cibercultura Pierre Lévy de que, condicionado pela mídia digital, o espaço público do século XXI será caracterizado por maior liberdade de expressão, oportunidade de escolha das fontes de informação, além da livre associação em comunidades, grafos de relações pessoais ou conversas criativas que florescem na rede (acesse aqui). Mas a aflição pode arrefecer – não sumir –, se considera- da a essência hacker: caminhar pelas brechas.

“Invadir um sistema é encontrar uma brecha; o sistema fecha a brecha e o hacker encontra outra, e assim por diante, estamos sempre reocupando”, define Pedro Markun, um dos fundadores da Casa da Cultura Digital em São Paulo, o templo aberto dos coletivos criativos em constante experiência para novos usos e compartilhamento do conhecimento – é outra leitura pertinente para a palavra “hacker”.

Gilberto Gil também endossa a urgência de movimento e atenção quando o assunto é a ameaça à liberdade digital: “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”, espalhou o músico por aí.

Pedro Markun faz parte da rede Transparência Hacker, uma lista de discussão e ações formada por 860 pessoas para uma nova forma de fazer política. A Transparência opera na direção da alfabetização para a inteligência coletiva. Se não basta leitura de jornais e livros para um cidadão consciente, quem vai estimular a capacidade de estabelecer prioridades, selecionar fontes, filtrar informação, categorizar e classificar dados, característica dos participantes da nova esfera pública, como também nos lembra Pierre Lévy?

E, antes da interpretação apressada de que se trata do gueto jovem da classe média, ou coisa de nerd, Cátia Kitahara, fundadora do braço brasileiro do WordPress, o programa livre mais usado para criar blogs e sites, lembra que a periferia é um oásis do hackerismo, desde os gatos de energia elétrica ou a proliferação insuspeita de lan houses, ou celulares multimídia que permitem que a informação seja produzida e trafegue sem amarras.

“A cultura hacker não é um fenômeno de classe. Está próxima do dia a dia dos excluídos, da periferia, e é uma arma contra sistemas fechados que privilegiam alguns. Acontece que a palavra ‘hacker’ ainda está associada à tecnologia da informática”, diz Cátia. Ela também integra o Hacklab, umhackerspace paulistano no qual se preza a autogestão, o compartilhamento e a experimentação.

Nessa direção do que tem mudado na vida pública, pode-se arriscar que tal fuçador profissional é fruto do desencanto com sistemas de governo, crenças, partidos e regimes. Ou, como deduz o filósofo Vladimir Safatle no artigo “A década do desencanto”, publicado na Folha de S.Paulo, os novos personagens que entraram em cena na política mundial e transformaram 2011 no ano das revoltas sabem que todo verdadeiro movimento sempre começa com a mesma frase: “Não acreditamos mais”. Desencanto, nesse caso, perde seu caráter pejorativo para impulsionar ações concretas, menos arrogantes e com o espírito da partilha.

E foi com a crença no impossível que o Transparência Hacker conseguiu materializar seu projeto mais ambicioso e ironicamente simples: o Ônibus Hacker. Um antigo ônibus de banda, comprado, transformado e adaptado para percorrer pequenas cidades brasileiras, como uma grande celebração, aportando nos coretos mais distantes, com toda sua potência colorido-simbólica, e dotado das ferramentas humanas e tecnológicas para interagir com o acaso.

Na bagagem, fazer crer para qualquer cidadão que seu poder não é uma fábula, mas está, por exemplo, em propor projetos de lei diretamente no âmbito municipal – com 5% de assinaturas a proposta vai à votação direta, explica Pedro Markun –, cobrar transparência nos gastos públicos ou montar uma rádio para sua comunidade.

A tecnologia, nesse caso, é informação decodificada. Não a que chega aos borbotões e acaba gerando efeito contrário, porque o sujeito não consegue distinguir o que lhe serve. Mas a informação que pressupõe o ouvir primeiro.

O Ônibus Hacker foi financiado pelo Catarse (veja texto no fim da página), plataforma colaborativa que gerou R$ 56 mil vindos de 464 doadores – outra artimanha da cultura digital que tem dado vazão a projetos democraticamente, sem intermediários, por aclamação de muitos. A necessidade de sair do privilegiado circuito de São Paulo e alcançar outras plagas norteia a estrada do ônibus para este ano, conta Markun.

Existem pedidos para um rolê do ônibus em João Pessoa e Curitiba, festivais, eventos e grupos. “Teve gente que abriu o jogo e disse, claramente: “Veja, não sabemos com proceder nas próximas eleições, o que deve orientar nossos votos, queríamos vocês aqui”, revela Markun.

peixes2EMBRIÃO E INOVAÇÃO

No porão da mesma Casa da Cultura Digital, outra turma maquina invenções em um espaço aberto, nos quais quem tiver interesse em testar tecnologias, criações inovadoras de construção de hardwares e softwares pode participar. O Garoa Hackerspace já construiu coisas tão distintas quanto uma impressora 3D ou umaparelho para você desenhar e
fazer música ao mesmo tempo
.

Trata-se de um embrião do que poderiam ser centenas de núcleos de pesquisa e inovação no País, na visão de Pedro Abramovay, curador do Festival Cultura Digital – o evento que, no fim do ano passado, pôs em evidência e comemorou ações tão distintas e complementares como o Ônibus Hacker, as invenções do Garoa, as ações do movimento Occupy, e reuniu mais de 6 mil pessoas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em debates, mostras, exibições, experimentos e oficinas.

A alguns meses das eleições municipais, Abramovay acredita que as plataformas dos candidatos podem contemplar projetos como a criação dos hackerspaces, na perspectiva de serem mecanismos eficientes e baratos de incentivo à inovação e pesquisa. “São Paulo, por exemplo, poderia construir espaços, com um mínimo de equipamento, para serem geridos coletivamente, nas mais distintas regiões da cidade. Poderia virar a capital mundial dos hackerspaces. Haddad, Chalita, Bruno Covas, prestem atenção nisso!”, convoca o curador, em artigo publicado no seu blog.

As cidades e os estados, sobremaneira, têm um papel mais imediato e balizador na perspectiva da nova política, emergente da cultura digital. Merece ser falado aos quatro cantos o que fez Porto Alegre ao criar o espaço de colaboração cidadã www.portoalegre.cc.

Cada um dos 82 dos bairros estão representados na plataforma, uma cópia fiel e digital de como a cidade funciona. Ali o morador pode navegar pelo mapa e publicar conteúdos diretamente em redes sociais como Twitter, Facebook, YouTube e Vimeo, falando de situações que lhe tocam na cidade. Pode convocar seus pares para apoiar seus projetos, e falar direto com o poder público, entre outras ações.

Inspirado no conceito de wikicidades, é exemplo de inovação bem-sucedida em que o cidadão interfere, acompanha, cobra. E também o Cidade Democrática, a plataforma que propõe fazer o link entre ONGs, governos e cidadãos em torno de propostas concretas, caminha com os novos ventos. As questões a serem resolvidas pelos governos, na proposta do Cidade Democrática, provêm das pessoas.

O que falta, para espanto, é que as pessoas realmente digam mais do que precisam, revela Rodrigo De Luna, que integra o grupo. “Para isso, contamos com os jovens da geração digital e com a comunidade hacker para abrir caminho”, diz. “O Cidade Democrática está fundado na lógica hacker, que pressupõe que todos podem acessar e usar o que está disponível, porque o valor está no uso e não na propriedade das informações”, acrescenta.

Outro “wiki” mais conhecido, o Wikileaks passa por maus bocados com o bloqueio de suas contas pelas principais instituições financeiras. Mas, fiel ao princípio hacker, o projeto tem encontrado brechas para receber o dinheiro dos doadores por meio de parceiros/instituições pulverizados pelo mundo. Em São Paulo, um local de doação é a Casa da Cultura Digital, que recebe cheques de doadores para o Wikileaks.

O VELHO E O NOVO

Mas até onde este “novo mundo” se encontra com o velho mundo, dos partidos, vereadores, juízes, foros institucionalizados que ditam as regras e determinam o futuro da sociedade? Pedro Markun acha que o fim dos partidos está próximo. “As instituições estão sendo desmanteladas por descontentamento, novas coisas sur- girão, talvez um ‘occupy eleição’, por exemplo”, arrisca. Já Leonardo Brant, produtor e jornalista que criou umreality show virtual de economia criativa [2], pensa que a mudança demanda tempo. “ É preciso haver diálogo entre o novo e o velho. Para haver eficácia política é preciso chegar às instâncias de representação, aos partidos, ao sistema eleitoral. O ativismo precisa entrar no mundo real, nas relações interpessoais. Precisa sair do Second Life”, opina.

O projeto Empreendedores Criativos selecionou sete empreendimentos criativos. O objetivo é analisar e desenvolver de forma colaborativa cada uma dessas ideias, como um reality show que faz com que as dúvidas e informações no decorrer de seu processo alcancem todos os interessados

Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula criaram seus institutos independentes como forma de pensar a vida pública na perspectiva da política 2.0 [3], tal como a senadora e ex-candidata à Presidência Marina Silva está à frente do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). São todos, como o ex-ministro Gilberto Gil, entusiastas da cultura digital, o que não deixa de ser, cada um a seu modo, um hackerismo sobre ideias frescas e aplicáveis em gestação nesse novo cenário.

[3] A expressão é usada para caracterizar o envolvimento colaborativo dos cidadãos nas plataformas dos governos, aproveitando a inteligência coletiva e o potencial que a internet oferece para a troca de informações e ideias

Uma avalanche sedutora de experimentação, de risco e de ativismo pode considerar essencial para um mundo melhor, por exemplo, a criação de uma plataforma digital em que os sujeitos estejam livres para depositar suas paixões e encontrar aliados para elas. Explico.

Daniel Waismann, programador e empreendedor digital e também um apaixonado por tango, levantou-se e disse acreditar que o mundo será muito melhor caso as pessoas tenham onde exercitar suas paixões. “Eu proponho uma plataforma digital na qual as pessoas possam falar sobre suas paixões, encontrar pessoas com os mesmos desejos, alugar um espaço e lá exercitar o que gostam.” De pronto, o empresário Oswaldo Oliveira, da Empresa Teia, levantou-se e disse: “Pode desenvolver a plataforma, eu serei seu sócio financiador”. A cena ocorreu em São Paulo durante o Encontro sobre Tecnologia e Ativismo, organizado pela Avina, fundação criada por um suíço para o desenvolvimento sustentável na América Latina.

p3O LADO SOMBIO DA FORÇA

Mas o mundo digital também tem suas sombras e não seria exagero dizer que o poder massivo e aparentemente natural das mídias sociais de grandes corporações digitais, como Google, Facebook e afins, vem na contramão do que propõe a cultura hacker, adepta de software livre e redes sociais abertas.

Evgeny Morozov, pesquisador-visitante da Universidade de Stanford e autor de The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom (algo como “A ilusão da rede: o lado sombrio da liberdade na internet”), publicou um artigo assustador sobre o que se trama neste ambiente e sobre o que não fomos consultados.

“Estamos entregando nossas vidas, fotos de família, memória, histórias e relações sociais a serviços cômodos (ao usuário). Isso é muito ingênuo”, afirma Leo Germani, do HackLab.

Ainda mais cômodos porque, pelo conceito de “compartilhamento sem fricção”, o que seria a próxima tacada do Facebook, o site não mais “perguntaria” ao usuário se ele quer compartilhar um link, uma música, um texto, mas faria isso automaticamente entre nossos pares, nos poupando dos botões de “curtir” ou “descurtir”. Como um big brother, daria conta de tudo o que fazemos on-line e, não bastasse, distribuiria essa informação a quem bem entendesse.

Dessa maneira, delata o artigo de Morozov, estaríamos cada vez mais numa bolha, fazendo circular interesses comuns, sem lugar para o acaso, a surpresa ou o que estivesse muito fora desse gosto médio.

“É hora de percebermos que o Facebook está eliminando a alegria, o caos e a natureza idiossincrática da internet, e substituindo tudo isso por sorrisos artificiais e eficiência tediosa (e, portanto, ‘sem fricção’)”, diz o pesquisador, que vê nisso um desastre ao pensamento crítico.

Essa tendência aparece ainda em dois bons vídeos. O primeiro, do Tedx Concordia, trata da perda de “serendipidade”, um neologismo para denotar descobertas ao acaso. Lenny Rachitsky mostra, então, como a vida seria muito pior sem essa abertura para o inesperado. No segundo, Eli Pariserdiscorre sobre as “bolhas de filtros” a que estamos submetidos quando navegamos pela internet, dirigindo nosso olhar e evitando que entremos em contato com o contraditório e o inesperado.

Mas, com o alcance indubitável da mídia social, ficar de fora é mesmo uma boa? Pedro Markun acha que se trata de uma relação de amor e ódio. As mídias sociais são os principais canais para divulgação das ações culturais, do ativismo e de propostas no âmbito da cultura digital.

Por outro lado, existe o pseudoativista, detonador e apoiador de qualquer causa na rede, mas que mal se move da cadeira para uma ação na vida real. “Um exemplo claro disso pra mim foi um evento no Anhangabaú. Vi várias pessoas compartilhando informações do evento, mas quase ninguém ia por causa da chuva. Elas achavam que estavam fazendo alguma coisa pelo simples fato de compartilharem a notícia, mas praticamente não fizeram nada”, conta Cátia Kitahara, do Hacklab. (mais sobre o assunto em entrevista com Márcia Tiburi)

A revolução digital não tem volta, mas há distintos pontos de vista sobre o controle da internet pelas grandes corporações. Leo Brant, do Empreendedores Criativos, acha que os velhos vícios serão substituídos por novos vícios e que o poder concentrador dos grandes conglomerados de mídia tende a aumentar com as novas tecnologias. “Não acredito numa subversão total do padrão de consumo de informação”, afirma.

Já Rodrigo de Luna, do Cidade Democrática, pensa que as formas de controle terão de se aprimorar muito para dar conta do salto evolutivo da web. “Essa tensão sempre vai existir, mas hoje é muito mais difícil controlar.” E assim voltamos às brechas, do início desta reportagem, aquelas às quais os peixes urbanos e coloridos de Eloar Guazelli, em meio ao concreto vertical, fazem uma bela analogia.

p4

Crowdfunding– semente de uma nova lógica de mercado?

Uma das recentes ideias mais bacanas e bem-sucedidas foi a proliferação e afirmação dos sites de financiamento colaborativo, ou crowdfunding. Sem intermediários ou apoio de órgãos públicos ou institucionais, ocrowdfunding consegue “jogar pra galera” uma seleção de propostas interessantes e colocar sonhos de pé, viabilizando-os financeiramente. Cabe ao internauta a decisão de contribuir ou não para bancar o que é proposto.

Essas plataformas encaixam-se no que Marina Silva chama de “democracia prospectiva”, ou seja, buscar a democracia pelas frestas, por onde é possível, em cima da criatividade que a multitude oferece.

No Brasil, o Catarse, um dos mais conhecidos, foi a ferramenta para viabilizar um documentário sobre a construção da Usina de Belo Monte, o maior projeto que passou pela plataforma, apoiado por 3.429 pessoas, atingindo o valor de R$ 140 mil.

Rodrigo Maia, um dos sócios do Catarse, acha que o crowdfunding é apenas a ponta do iceberg de toda uma nova lógica de mercado que surge. “São sintomas de algo que está por vir, advindo da necessidade que as pessoas têm de se relacionar de forma mais direta e personalizada, sem intermediários.”

Sobre a possibilidade de uma bolha à vista, com a multiplicação desses sites e um possível espectador bombardeado e confuso com tantas opções, Rodrigo diz que, “no futuro, veremos o sistema de crowdfundingflexibilizado, com uma série de derivações, e é isso que impedirá o esgotamento do modelo”.

Do total de 1.013.725 pessoas que já apoiaram algum projeto no Kickstarter, pioneira e maior plataforma de crowdfunding existente, 84% só ajudaram um único projeto. Do restante, 16% são apoiadores recorrentes, e equivalem a 166.823 pessoas.

Os dados mostram que a grande maioria das pessoas só vai apoiar projetos de uma pessoa conhecida, na qual elas têm confiança e acreditam no trabalho, o que é inerente ao sistema do crowdfunding, segundo Maia. Mas diz também que estes 16% que apoiam mais de um projeto, de uma forma ou de outra, acreditam no sistema, e o enxergam como uma alternativa importante. guardadas as proporções, as estatísticas se repetem no Catarse.

A avaliação é que o potencial de crescimento do crowdfunding é enorme para os próximos anos. Um longo caminho para ferramentas que começaram quase ingenuamente, juntando gente que desejava ir a um show, por exemplo, como é o caso do Queremos ou o da simpáticaVaquinha que reproduziu on-line o método mais singelo e conhecido de “passar o chapéu”.

O Brasil é feitiço

gil-destacao

Por Ana d´Angelo e Amália Safatle/Revista Página 22

Tem que saber disso.  A rima rítmica na fala de Gilberto Gil está no seu entendimento do que é Brasil.  Na leitura do músico, quando José de Anchieta colocou os índios no colo, em profunda manifestação de afeto, reforçou um traço definidor da nossa sociedade.  Traço este que havia começado a se delinear na formação de um reino europeu diferenciado.  Pois, enquanto os demais exploradores foram guiados pela ambição material e pela busca de acumulação de riquezas, o projeto de expansão territorial dos portugueses fundamentou-se “no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência”.  Degredados que aqui deram início à miscigenação eram considerados criminosos porque fugiam da Inquisição, diz Gil nesta entrevista.

Assim, o Brasil se fundou no ideário de liberdade e espiritualidade, reavivando o mito de que esta é a terra da promessa, do encantamento, do conto de fadas, dançado nos Carnavais – com todos os problemas que isso também acarreta.  Um lugar que, para contragosto de muitos, subverte o modelo clássico europeu e tem nas mãos um pacote estratégico a oferecer a um mundo carente: afeto.

Mas que não está condenado a ser alguma coisa, e sim fadado a ser.  Lembrando que o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço, o fado é uma canção.  “O fado é o que a gente faz”, diz o bruxo Gil.

Na sua opinião, o que melhor a sociedade brasileira tem para oferecer ao mundo?  O que o Brasil produz que faz a diferença? O Brasil é uma nação que resulta de uma série de coisas particulares, próprias, de que outros povos não resultaram.  Isso para tratar do Brasil que depois leva este nome e se torna a nação configurada neste território, com presença dessas múltiplas vertentes étnicas.  A ameríndia estava aqui já, o português que chega, o africano que é trazido depois.  A formação da sociedade brasileira, e depois o Estado brasileiro: primeiro o Estado monárquico, depois o imperial, depois o republicano e, em meio a tudo isso, a sociedade foi marcando seu dia a dia dentro dessas possibilidades de configuração e com todos esses elementos.  O português chegando aqui, começando a miscigenação com os índios, depois com os africanos e criando essa nação mestiça, mameluca, cabocla…

Então é a diversidade que faz a diferença? A diversidade existe em qualquer lugar.  A diversidade brasileira é esta.  É diferente da diversidade americana, é diferente da Europa gaulesa, que é outra, da Europa escandinava, que é outra, da Europa eslava, que é outra, das Áfricas várias, que são várias, da América Latina, que é outra configuração, com a vertente espanhola que se mistura a povos andinos… Então a brasileira é a sua, a que foi “conscrita” neste território, com esses povos que fizeram o Brasil com essas expressões culturais desenvolvidas aqui.  Brasil é Brasil, não é a Argentina nem a Inglaterra.  É o Brasil.

Este Fórum Internacional Geopolítica da Cultura e da Tecnologia (ocorrido em São Paulo em meados de novembro), cuja curadoria teve sua colaboração, fala em transformar nossa singularidade em um valor estratégico que beneficie quem a inventou – o povo.  Que características estão aptas a ser transformadas em valor estratégico real nesse reposicionamento do mundo, nessa nova geopolítica? A vocação para uma configuração de uma comunidade mais integrada.  Mais integrada a partir de elementos fortes da espiritualidade, da fantasia, de uma subjetividade criativa, “celebracional”, mestiça em vários sentidos, com a preferência pela efusividade, pela alegria, enfim, pela solução afetiva de conflitos, gentil, cordial.

Que ao mesmo tempo tem uma violência… Tem.  Nada é só bom.  Mas a gente está falando dessas características configuradas num território, numa população mestiça, falando uma língua trazida da Europa, mas ao mesmo tempo trazida por um povo europeu muito distinto dos outros povos, quer dizer, com ambições diferenciadas em relação aos espanhóis, aos ingleses, aos franceses.  Os descobrimentos portugueses estavam inspirados pelo Espírito Santo.  Anchieta colocava os índios no colo e, apesar de minimamente estar submetido aos desígnios colonizadores do seu povo europeu, tinha pelos índios um amor… Foi ele quem insistiu e conseguiu que a Corte Portuguesa não escravizasse os índios.  Então essas coisas estão na origem brasileira.  Foi ele quem colocou os instrumentos, os violões, as guitarras, as flautas na mão dos índios.  Essa musicalidade extraordinária brasileira tem embrião nesses primeiros momentos.  São ingredientes que podem configurar a construção de um “pacote estratégico brasileiro”, que pode servir não só para nós, para nos relacionarmos com altivez e grandeza com o resto do mundo, mas também para sermos elemento importante para essas outras culturas do mundo.  Para ensinarmos, para sermos exemplo, referência a um mundo que está ficando muito complexo, está ficando muito confuso, está ficando muito célere, em que a formação de conflitos novos é exponencial.  Portanto, têm valor estratégico humanidades que possam desenvolver capacidade de afeto, de concórdia, de compreensão mútua, de fruição, de entendimento mais profundo de sua relação com a natureza, de pertencimento à natureza – e, portanto, de respeito à natureza –, de integração de necessidades materiais com profunda capacidade de reverenciar o espírito.  São questões estratégicas para a humanidade, vendo aí não mais a estratégia parcial da nação contra outra nação, não de um território contra outro território, e, sim, estratégia de vida para a humanidade no planeta.

Podemos considerar isso como o que há de mais moderno, no sentido de estar na ponta, estar na frente? Se houvesse um radar de inovação no globo, ele apontaria essas características como a “modernidade” que temos a oferecer?  É isso o que a Terra está dizendo no modo mais atual, mais contemporâneo de entender a vida.  Bem viver.  Produção de futuro.  Como produzir futuros desejáveis e sustentáveis, como produzir sociedades humanas mais integradas, como produzir sociedades humanas que vivam compartilhamentos mais efetivos de tudo, de riqueza material, de riqueza simbólica.  É assim que a Terra vê o seu futuro, não é o Brasil (risos).  Por acaso, coincide que o Brasil é um dos povos hoje em dia que mais podem contribuir para essa perspectiva futura da humanidade, porque ele já vem, desde sua formação, consolidando essa nova matriz de vida social.

Naquela sua canção com o Jorge Mautner, Outros Virão (sic)… Outros Viram.

Sim, desculpe. Mas pode ser Outros Virão, nesse sentido que nós estamos falando aqui.  Mas ali é o oposto, é outros viram essa coisa no Brasil.

Sim.  Mas por que, segundo a canção, eles viram e nós não?  Por que não vimos?  A gente se autossabota? É porque a gente só se vê no espelho.  A gente só se vê na superfície quieta das águas, ou no espelho no sentido mais moderno do termo, essa superfície lisa na parede que reflete nossa imagem.  Quem vê a gente por inteiro são os outros, são os de fora.  A gente só vê uma parte da gente, a mão… A gente não vê nossas costas.  Não vê o que está por trás… A gente só se vê parcialmente.  Quem pode ver a gente mais inteiramente é o outro, então a canção é sobre isso: como os outros viram o Brasil.

E como viram? Como um lugar da promessa.  Porque esse nome Brasil vem da raiz celta bras, que significa “terra encantada”.  Quer dizer, já antes da descoberta pelos portugueses, o Brasil aparecia nos mapas medievais como uma terra da promessa.  Ao longo da História, foi havendo uma reiteração dessa imagem, dessa visão, primeiro por causa dos índios levados para as cortes europeias, como exemplo de um ser humano íntegro, inocente, completo, pleno, belo.  E depois toda a criação artística brasileira, o Carnaval, todas essas coisas que foram “sendo saídas” de um encantamento, de um conto de fadas.  Então o Brasil está fadado um pouco a essa coisa, embora muita gente lute contra, porque queria uma inserção do Brasil em um modelo clássico, em um modelo ocidental europeu, que está justamente na cisão do processo civilizatório gestado na Europa.  Gestado ali exatamente no início, quando os Cruzados vêm, uns para criar os reinos europeus montados na ambição material, na ideia de mais conquistas de territórios e produção de riquezas, de acumulação etc. etc., e outros, no projeto de ocupação dos portugueses, fundamentados no reino do Espírito Santo, no reino da criança, da inocência.  Essas coisas são distintas na origem e o brasileiro não tem conhecimento dessas suas origens.  Até rejeita um pouco a origem portuguesa, a coisa dos degredados.  Mas quem eram os degredados?  Quem eram esses criminosos?  Eram criminosos porque estavam fugindo da Inquisição, porque professavam a fé no Espírito Santo, na chegada de um outro reino, na beleza da bondade e da verdade.  O Brasil está nessas origens, enquanto a América do Norte e outras áreas da expansão europeia pelo mundo com a colonização estavam fundadas em outros pressupostos.

Isso que chamamos de fundação, esses traços fundadores que parecem tão definidores, faz com que estejamos fadados a repetir para sempre as coisas boas e também as ruins, como desigualdade, preconceito etc? O fado é uma canção, o fado não é uma rigidez no tempo e no espaço.  O fado é dinâmico, ele continua submetido à dinâmica da passagem do tempo e da ação do homem.  O fado é o que a gente faz.  Não é só aquilo a que estamos destinados.  Não é o destino.  É um caminho para o destino.  Não é como cair no fundo do poço de Alice no País das Maravilhas, e sermos jogados no lugar.  Nós temos de caminhar até esse lugar.  É um progresso, um processo, um caminhar.  Portanto, a tomada de consciência em relação a isso é profundamente importante.  Nós só vamos caminhar numa direção se soubermos qual é essa direção, se tivermos olhos voltados para vê-la, identificá-la, e construir o caminho que leva até ela.  Essa é a questão brasileira.  Não é uma condenação.  O brasileiro não está condenado a ser alguma coisa.  Ele está fadado a ser alguma coisa.

Um dos problemas do Brasil e da América Latina é a corrupção?  A corrupção é um problema da América Latina? Não, a corrupção é um problema da humanidade.  Há sistemas de relacionamento social que facilitam, propiciam – uns mais do que outros –, a corrupção.  Há sistemas jurídicos e sistemas econômicos que facilitam mais ou menos a corrupção.  Mas a corrupção hoje em dia, nesse sistema que está aí, que foi autorizando cada vez mais a exploração de uns por outros, a imposição de poder de uns sobre outros, surge por decorrência da própria falência natural que os sistemas vão sofrendo.  A falência dos controles, dos princípios.  Toda vez que se quer escorregar para infringir uma norma, a corrupção é uma das formas.  E não é uma questão brasileira.

Qual é a questão brasileira? Não há uma.  A questão brasileira é sermos o que somos no dia a dia transformador.  Transformarmo- nos do que somos no que seremos e no que não seremos.  É essa a atuação permanente da vida sobre nós e de nós sobre a vida.  O Brasil não precisa desenhar destinos e nem nada disso, não… Basta viver e pautar esse viver pela ideia do bem, do bem viver.  Cada vez entender melhor, coletivamente, o que é bem viver, o que é produzir a sua continuidade da maneira mais amena possível.  É criar bem-estar!

gil 2Nós temos alguns caminhos aí, como a indústria criativa.  Estávamos falando de diversidade cultural.  Temos também uma diversidade biológica muito grande.  São grandes riquezas, mas curiosamente a economia brasileira não vive disso.  Por que será? Em que medida o Brasil será capaz de se desgarrar dessa monocultura mundial, em que vemos o utilitarismo, a produtividade vista sob um certo aspecto enviesado e a prevalência do poder do mais forte, o “privilegiamento” dessa hierarquização, dessa forma de aceitar o primado do mais forte sobre o mais fraco?  A questão é se o Brasil será capaz de sair disso para realmente produzir uma sociedade de mais igualdade e fraternidade, mais fundada em princípios que são enunciados, anunciados, mas muito pouco perseguidos verdadeiramente pelo conjunto da humanidade.  A questão é se o Brasil será capaz – e possivelmente não poderá fazer isso sozinho – de juntar outros povos do mundo nessa proposta.  Quer dizer, vamos caminhar mesmo?  Vamos ter o caminho do nosso destino?  Isso é o nosso fazer.  O fato de estarmos discutindo isso, procurando compreender possibilidades agora de fazermos isso já é um sinal de que estamos querendo caminhar nessa direção.  Por que vocês que produzem e publicam informação estão querendo saber disso?  Por alguma razão.  Porque percebem que se quer saber disso.  Percebem que o Brasil e o mundo cada vez mais querem saber disso.  É sinal de um sinal que está por aí.  Sinal de que está no radar, usando a expressão que você colocou.

Há seis anos, metade do primeiro mandato do presidente Lula, eu (Ana d’Angelo) o entrevistei como ministro da Cultura e convidado do Fórum Mundial das Culturas, em Barcelona.  Interessante lembrar disso, porque naquela época o País entrava na moda na Europa, havia um clima de otimismo, não se falava em crise.  Havia quase uma reverência para com o Brasil.  E hoje, seis anos depois? Acho que isso aumentou muito no mundo.  Evidentemente que toda essa atitude reverente de expectativa positiva em relação ao Brasil tinha muito de modelos anteriores que se buscava repetir, dimensões utópicas já consagradas, que se gostaria de ver realizadas, manifestadas.  Tinha muito de um sonho da Europa frustrada por não ter sido aquilo que ela própria quis ser.  A Revolução Francesa que ficou pelo caminho, a Revolução Americana que ficou pelo caminho, as revoluções todas outras que ficaram pelo caminho.  E, de repente, a gente quer outra dimensão messiânica, alguém que seja o restaurador, o salvador.  E chega uma hora em que o mundo também começa a querer ver o Brasil sob essa ótica.  E talvez não, possivelmente o Brasil não será nada disso e é desejável que não seja exatamente isso.  É desejável que seja uma coisa nova, desconhecida, a ser construída.  Nesse sentido, acho que essa expectativa cresce, mas com uma qualidade instrutiva, quer dizer: cada vez mais o mundo todo espera do Brasil, mas cada vez mais se espera uma coisa que não se sabe o que é (risos).  Isso vai proporcionando capacidade de diálogo, de conversa, de entendimento, de afetividade, atratividade.  O Brasil vai se tornando atraente e vai atraindo também…

Quando se sabe muito bem o que se quer não se tem inovação, certo?Não tem!  Então é assim, feitiço.  O Brasil é feitiço, tem que saber disso…

E no governo Dilma, alguma possibilidade política? Para mim, não.  Não quero mais, não.

Já teve a experiência… Já e não quero, não me sinto capacitado.  O político tem de trabalhar com exiguidades muito precisas.  Um senso muito preciso de impossibilidades, de limites, de redução de horizontes etc.

É o oposto da arte, não é? É o oposto da arte.

Além disso, o orçamento da Cultura diante dos outros ministérios é de chorar… Também é muito pequeno.  Com toda a gritaria que a gente fez, a gente não conseguiu chegar a níveis razoáveis de recursos.  Mas estamos aí para ajudar.  Acho que a parceria dos governos com a sociedade é algo cada vez mais importante, no sentido de que os governos entendam que as sociedades precisam andar.  Apesar de as sociedades não saberem para onde, o governo tem de ter um pouco dessa capacidade interpretativa, de leitura dos desejos ocultos.  Espero que o governo da Dilma e tantos outros governos no mundo tenham essa capacidade de entender essa relação profunda com o desconhecido, essa relação respeitosa com o desconhecido para que ele seja fonte de instrução para o conhecido, para a busca do conhecimento.  Espero que esse espírito, essa visão, esteja – se possível – em todos os governos do mundo.

Coluna mensal Página Cultural – Revista Página 22 (2008 a 2014)

http://www.pagina22.com.br/2013/02/04/pagina-cultural-36/

http://www.pagina22.com.br/2013/06/06/pagina-cultural-40/

http://www.pagina22.com.br/2013/03/07/pagina-cultural-37/

http://www.pagina22.com.br/2012/10/11/pagina-cultural-33/

http://www.pagina22.com.br/2011/02/07/pagina-cultural-14/

 

 

 

Outra Utopia de Cidade

Para quem sai da Zona Sul são dois ônibus, com risco de pegar a linha errada já que os olhos estão acostumados àquela paisagem do cartão postal em que vive a elite branca carioca. O Complexo da Maré impressiona, primeiro, pelo tamanho e formato – são cerca de 130 mil moradores em diversas comunidades e conjuntos habitacionais espalhados horizontalmente – e por estar às margens da avenida Brasil e da baía de Guanabara. O manguezal da Maré foi ocupado a partir do século XX por barracos e palafitas, depois aterrado pela população e poder público. Virava notícia só quando o aglomerado inundava ou nos episódios de violência – ao menos três facções criminosas ali se alojam. Tirando a enchente, pouco mudou com os anos, tal como as distinções periferia/centro, asfalto/favela que cuidam de perpetuar estereótipos, evitando um pensamento de transformações. A diversidade da Maré comporta, desde 2001, o Observatório de Favelas, organização social que trata de reposicionar o tema e os espaços populares na vida da cidade. “A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade a partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. É preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade”, afirma Jorge Barbosa, um dos fundadores do Observatório de Favelas, que falou com exclusividade para esta edição da Página 22.

O Observatório é uma organização social criada em 2001 na perspectiva de se construir conhecimento sobre as favelas e espaços populares.  Nesses primeiros anos, o foco era incentivar essa produção de informações e, ao mesmo tempo, formar pesquisadores locais, nas comunidades. Os próprios fundadores e hoje diretores vieram dessas comunidades? Podemos dizer que o início do Observatório era colocar a favela e a periferia na pauta de discussões da sociedade? Torná-la visível?  Fale sobre este começo e o que implica uma organização social surgir de gente de dentro da realidade vivida.

O Observatório é uma instituição que busca a produção de conhecimento. Nós somos oriundos de espaços populares e passamos pela universidade. Nunca nos afastamos das nossas relações de pertencimento aos espaços populares. A ideia de construir um observatório era ter uma instituição capaz de construir conhecimento inovador, fazer desse conhecimento uma mediação para ação pública, sobretudo, colocando a favela na agenda da cidade de uma forma positiva. A favela e a periferia sempre estiveram presentes na agenda da cidade, mas de uma forma negativa. A partir de pré-conceitos que se tornaram conceitos: espaços de carência, ilegalidade, informalidade e da violência. E cujo receituário era remoção, ou seja, a favela sempre vista como problema ou distorção da urbanização acelerada do território brasileiro. A ideia era,  a partir da produção do conhecimento, colocar  a periferia e a favela de uma forma propositiva e positiva. Mostrar que ela é produto das contradições da cidade e das desigualdades sociais, da distinção territorial dos direitos e, ao mesmo tempo, é uma expressão legítima do direito de habitar a cidade por parte de grupos sociais mais vulneráveis, mais desiguais. Isso gera uma inversão, uma inflexão política do lugar da favela na agenda. Ao invés de ser um problema, ela se torna uma esfera da busca pelo direito de cidade. Ah, precisa urbanizar as favelas, dizem. Claro, é preciso ter saneamento, habitações qualificadas, equipamentos culturais e educacionais, ou seja, toda a urbanidade que uma cidade possui. Mas mais que isso, é preciso entender a favela como possibilidade de construir uma outra utopia de cidade. Novas sociabilidades, novos encontros e experiências de estar com o outro, reconhecimento de que somos uma sociedade diferente e plural. Tentamos pautar não um projeto para a favela, mas um projeto para a cidade, um projeto novo e radical de cidade.

Jorge, e quem eram vocês há 13 anos atrás, quando da fundação do OF? Eram colegas de universidade, vizinhos de bairro?

Eu e Jailson  (Jailson de Souza e Silva também é fundador e diretor do OF) estudamos juntos, na mesma universidade, no curso de Geografia. E sou do Caju e o Jailson é de Brás de Pina, depois ele se mudou para a Maré. Nós viemos de bairros populares e já tínhamos alguma experiência de militância. Ele mais na militância católica popular, eu mais na militância estudantil. Ele já fazia um trabalho na Maré e me convidou para trabalhar no censo da Maré, na leitura dos dados. Fui ficando e resolvemos criar uma  instituição, como um observatório, que não fosse da Maré e para a Maré. Fizemos um projeto para a Fundação Ford e durante dois anos tivemos esse apoio, criamos um grande projeto de formação de pesquisadores populares o que abriu o horizonte de construção da instituição que acabou ficando na Maré, nosso berço.

 

E como foi a transformação do OF ao longo do tempo, quando passou a abrigar pessoas com formações e origens diversas? Isso foi guiado pelos projetos?

Nós passamos a entender que havia uma agenda de democratização da cidade a partir de políticas públicas. E passamos a entender quais os campos principais do debate para o direito à cidade, trabalhando nessas grandes temáticas: direitos humanos, por exemplo, para nós é decisivo diante do processo brutal de repressão e violência porque partimos da consideração que as favelas não são violentas. Elas são mais duramente afetadas pela violência. Isso faz uma inflexão na política de segurança pública, ou seja, a favela é um lugar de pessoas mais desprotegidas, mais frágeis e vulneráveis à violência urbana. Porque o Estado abdicou das favelas e não impediu, de uma forma segura e efetiva, que elas fossem ocupadas por grupos criminosos e armados. Criamos uma outra linha para se pensar direitos humanos, trazendo este debate para dentro do território. Entramos também na educação, entendíamos que a política de educação no campo da universidade era um divisor de águas que  não superava as desigualdades. Sobretudo desigualdades raciais e territoriais. Que a universidade abrigasse de fato a democracia, os grupos populares e não estivesse tão distante que as pessoas não pudessem sonhar. Então criamos o projeto Conexões de Saberes, de 2005 a 2008, que depois se tornou uma política pública do MEC e hoje é um PET – Programa Especial de Treinamento do Ministério da Educação. Desenhamos este projeto que aconteceu em 33 universidades. O MEC absorveu muita coisa do projeto. Deu a possibilidade de o MEC trabalhar a política de cota com muito mais conhecimento do que acontecia em termos de ingresso e permanência dos jovens nas universidades. Fizemos uma grande pesquisa em 33 universidades brasileiras sobre a questão do ingresso, pegando os cursos mais procurados e os menos procurados e como o jovem de origem popular ingressava em um lado ou outro. A partir daí vimos que  estudantes de escolas privadas ou escolas públicas federais têm muito maior probabilidade de entrar nos cursos de maior concorrência do que os de origem popular. Outro dado foi a renda familiar. Filhos de determinadas classes com maior renda e propriedade também têm maior chance de entrar nas universidades. Isso já estava consagrado,  mas conseguimos comprovar pelas pesquisas. O que não estava comprovado e foi determinante para uma política pública afirmativa era o dado que a gente descobriu: a escolaridade dos pais, o currículo implícito. Um jovem de origem popular, em média, entrava aos 24 anos na universidade, já entrava na hora de sair. Já tinha um recorte aí e outras implicações: a variável fundamental era escolaridade dos pais. Ou seja, um jovem cujo pai e mãe têm mestrado, doutorado ou graduação tem muito mais chance de entrar na universidade que a questão da renda ou o fato de ter passado por escola privada. Porque este jovem teve acesso a um livro, ia ao teatro, ao cinema, tinha um currículo implícito que o distinguia dos demais. O capital social e cultural tornava-se fundamental para o vestibular e para entrar  no curso. Daí se juntarmos um recorte racial – nós sabemos que grande parte dos negros tem mais dificuldade de acesso – mais a questão social (o currículo implícito) ficou evidenciado que para superar essa situação de desigualdade social que a universidade reproduzia, só com uma política de ação afirmativa, de cotas. Entre um jovem que mora na Rocinha e outro que mora num apartamento em condomínio de São Conrado , apesar de serem vizinhos, há uma territorialidade muito diferente. Um jovem da Rocinha para alcançar um nível de escolaridade de um jovem de São Conrado levaria 100 anos sem as políticas públicas de acesso. Passamos a pautar esse debate nas universidades que se beneficiaram destes estudos. Eu e Jailson, por exemplo, fomos os primeiros das nossas famílias a entrar na universidade, o que mostra como ela esteve distante dos projetos e sonhos de uma grande parte da população, por muitas gerações. Este foi um projeto que deixou um lastro. Também tivemos outros, como o programa para redução da violência letal. Fizemos uma pesquisa em 16 cidades brasileiras e criamos um índice de homicídios entre jovens e adolescentes, mostrando na pesquisa quem eram os jovens mais vulneráveis aos homicídio, negros, moradores de favelas e periferias são os mais vitimados, seja na ação da polícia seja no enfrentamento entre facções criminosas. Criamos um guia de redução de violência letal que se tornou política pública federal para os municípios, com apoio da Unicef e Secretaria Especial de Direitos Humanos. Este também é um legado importante que o Observatório deixou em termos de política pública.

E o projeto teve financiamento da iniciativa privada?

A iniciativa privada não está interessada em políticas de direitos, sociais. Está interessada em política pública que garanta os seus interesses. Este projeto foi financiado pelo governo mesmo e, em parte, pela Unicef.

Mas a Petrobras, por ex, não está por trás de muitos financiamentos?

Mas a Petrobras é uma empresa estatal, é diferente, tem pressupostos de lucratividade,  mas tem uma missão pública. Tem apoiado diversos projetos nossos e de outras instituições como o  Solos Culturais e a Escola Popular de Comunicação, uma outra linha que passamos a trabalhar. Entendemos que precisávamos atuar nesta área porque os grandes veículos sempre tinham leitura distorcida dos espaços populares, reproduzindo o senso comum sobre favelas e periferias. A ideia era que tínhamos de disputar um imaginário de cidade, uma política no campo da comunicação. Não uma disputa por mensagens ou notícias, mas no campo da formação e politização e da opção de representação por parte dos jovens das favelas. Derivado disso surgiu também a escola popular de fotógrafos, a Imagem dos Povos.

Quem financia esses projetos?

A Espocc é financiada pela Petrobras. A Imagem dos Povos já foi financiada pelo Criança e Esperança, patrocinadores internacionais e agora passamos a gerar produtos, livros.

E eles hoje se auto-sustentam?

Olha, a busca é esta, da auto-sustentabilidade. Mas nós vivemos de projetos e programas, parcerias, não há uma política de apoio a instituições. Este é um dos grandes problemas que enfrentam as organizações da sociedade civil. Primeiro porque precisamos participar de editais, feitos de acordo com políticas do Estado ou de empresas e organizações. Acho os editais um avanço, mas ficamos muitas vezes sujeitos a políticas temporárias, um edital abre um ano, não abre no ano seguinte, o que gera um problema de continuidade. A segunda questão é a constante criminalização de entidades da sociedade civil, sobretudo as ONGs, tidas como picaretas, que pegam dinheiro do governo e não prestam contas a ninguém.

Você dizia das empresas privadas como distantes da realidade do apoio a projetos sociais, elas não são parceiras?

No caso do Observatório elas não são fontes de recursos, como para a grande maioria dos instituições sociais.

É mais fácil ainda captar no exterior?

Muitas vezes sim é mais fácil. Embora hoje os recursos das instituições internacionais para projetos no Brasil tenham sido bastante limitados porque acham que o Brasil já resolveu todos os seus problemas, já está bem, é a oitava economia do mundo e está tudo bom. Acham que deve ir mais pra África. Mas a desigualdade no Brasil é imensa, é um país paradoxal. Pode reduzir a pobreza sem reduzir a desigualdade, o que tem sido feito nos últimos 12 anos.

Centro/periferia ou asfalto/favela são palavras e distinções ainda usadas correntemente. Como as entende? O que elas compreendem (território, condição financeira, diferença) e o  que suscitam?

Quando se colocam estas palavras o que querem dizer? Sempre tem uma conotação de valorização. Só existe centro se houver periferia, asfalto se tiver favela. Ideias de superiorização e de que o mundo pode ser partido em coisas binárias, de que o centro não seria o centro sem a periferia. Existem conflitos e tensões que precisamos trabalhar,  mas não de uma forma distintiva, que tem consequências sérias em relação à própria vida de quem habita cada espaço. Estas palavras trazem a ideia de que vivemos em cidades partidas, metrópolis partidas e isso acaba ocultando a questão da desigualdade socioeconômica que se expressa territorialmente e que nós chamamos de distinção territorial de direitos. Algumas pessoas dentro da cidade têm mais direitos que as outras. Por isso a vida de algumas pessoas é mais valorizada que a de outros. Ou seja, essas construções binárias ocultam contradições e conflitos e perpetuam e naturalizam as desigualdades. Nosso exercício é desnaturalizar a desigualdade, pautando a diferença. A diferença no Brasil acaba servindo de legitimidade para a desigualdade. Ah você é assim porque é mulher, porque é negro, é favelado. Ou seja, nós temos de ser bastante efetivos na valorização da diferença e na superação da desigualdade. Como se faz isso? A política pública no âmbito da cultura, da urbanidade, dos direitos a vida, da comunicação e educação tem que se pautar por uma inflexão territorial dos direitos públicos. Tem que tratar de modo desigual os desiguais. Se não tiver uma inflexão territorial, vamos ter uma concentração de investimentos públicos em determinados espaços da cidade que só reproduzem a desigualdade.  As favelas e periferias têm de ser reconhecidas como espaços de produção de arte, de sociabilidade que podem construir um novo projeto de cidade. Você supera a ideia de periferia e aponta a periferia como centro difusor de cultura, de arte, experiências de solidariedade, de invenção de possibilidades. Hoje a periferia é essa centralidade importante.

Há alguns anos a periferia e a favela chegavam à mídia quando se tratava de violência, exclusão social, pobreza, mundo informal. Agora vemos o rolezinho, a veiculação da imagem das favelas nas novelas e na publicidade, em matérias jornalísticas que traçam o perfil das classes C, D e E. Até que ponto não se trata de meras substituições de temas para manutenção dos estereótipos?  O que mudou?

 

Existe um foco em cima de estereótipos e que tende a ser romantizado. Quando se fala do fenômeno do rolezinho vemos que ele acontece nos shoppings de periferia da cidade. Por que? O shopping da periferia é para o menino frequentar se ele não tem um museu, uma praça, um parque, uma biblioteca, onde ele vai fazer o seu encontro? Ele tem suas tramas virtuais, mas chega um momento em que os caras querem dar beijo na boca, se abraçar, tirar fotografia, conversar, se tocar. Pra onde eles vão? Os shoppings das periferias precisam reconhecer que devem se tornar espaços públicos. E abrigar a diferença. Ou a propriedade privada acha que não tem nada a ver com a sociedade? É uma ilha fechada em si mesmo que só vai tratar as pessoas como consumidores? Por outro lado, essas imagens que estamos vendo na mídia, seja na TV ou no cinema, a favela virou um espetáculo. O espetáculo da violência. As cenas de um filme que espetacularizam a violência acontecem onde? Na favela. Então tem também uma espetacularização da pobreza, da cultura e, na verdade, o que isso contribui para que a favela entre na cena política? Muito pouco porque tudo mantém os estereótipos. Então como ela deve entrar na mídia? Como ela é. A favela e a periferia são legítimos espaços de luta para habitar a cidade, pelo direito à cidade, mas têm conflitos, contradições, desemprego, violência doméstica, tem a presença do narcotráfico, tem a ação violenta da polícia, tem habitações e situação de risco. Então, não dá pra glamurizar a favela. Ela precisa ser vista como esforços de gerações e gerações pelo legítimo direito de morar. Reconhecer não significa achar que tá tudo legal. Eu conheço a periferia de São Paulo, falta saneamento, há problemas ambientais sérios, desemprego, violação de direitos, ou seja, quando passa na novela “Salve Jorge”, as pessoas estão desfilando, dançando, sambando no bar. Existe isso, mas tem contradições e conflitos também que precisam ser compreendidos e considerados.

Você poderia falar sobre o fato de a periferia ser vista hoje como um grande mercado de consumo. O rolezinho, neste caso, seria apenas a exposição desses sinais, a periferia como toda a sociedade estão ditadas por aspirações que emergem de um modelo de consumo capitalista. (aqui caberia um paralelo com a questão climática, países em desenvolvimento como o Brasil estão sendo cobrados pelo aumento das emissões, muitos carros na rua etc)

O Brasil é dos principais mercados de carros do mundo. A ideia consolidada pelas próprias classes dominantes é que a cidadania está ligada a consumo. Ou seja, sou mais cidadão quanto mais eu consumo. É a partir da aquisição de bens distintivos que as pessoas se afirmam, se valorizam. Ou seja, de certo modo, a política econômica traz essa subjetividade. Pensamos que a política econômica é objetiva, dinheiro aqui, mercadoria ali, mas ela tem uma forte subjetividade. Eu sou melhor do que você devido ao objeto que eu compro. Então você está diante de um dilema entre o consumidor e cidadão. Vamos voltar às pessoas. As pessoas que moram nas favelas e periferias não estão numa ilha, elas participam da vida urbana, vivem numa cultura urbana, com valores juízos e distinções que são hegemônicos na sociedade. Então você quer que o cara da favela seja ecologicamente correto? Não dá né.  Ele não tem saneamento, não tem coleta de lixo regular, a beira do rio enche sempre, mas, sim, ele precisa ser ecologicamente correto. A sociedade pode ser incorreta. Eles estão inseridos numa sociedade de consumo onde o consumidor vale mais que o cidadão. Como você muda isso? Com política pública. Por exemplo, as pessoas da periferia de São Paulo e do Rio de janeiro gastam quantas horas para chegar ao trabalho e voltar? Duas, três horas? Num ônibus apertado ou no trem lotado. Duas horas para ir duas pra voltar. A que horas essa pessoa dorme, lê, se diverte, encontra os amigos? Ora, se você tem a oportunidade de comprar um carro e se livrar daquele negócio apertado que não obedece horário e te maltrata, a pessoa vai comprar um carro, uma moto. Ela está tentando solucionar individualmente algo que devia ser solucionado do ponto de vista coletivo. Uma das nossas grandes linhas de intervenção é a mobilidade, não só a circulação. Ou seja, nós precisamos ter uma política hoje de transporte coletivo humanamente responsável e de qualidade. Eu não posso gastar quatro, seis horas, isso é um processo de dilapidação de corpos no trabalho. Porque o patrão quer que ele chegue na hora e saia na hora. O que ele faz fora desse período e como faz pouco importa. Portanto, uma política ambiental hoje importante – relacionada à favela e periferia – precisa  valorizar a dimensão humana da nossa existência, independente da raça, gênero, orientação sexual. Uma política de direitos que valorize nossa vida, a dimensão humana como dimensão ecológica, não somos humanos plenos se não tivermos a natureza. Nós, em essência, somos a natureza. Como se combina isso, uma política ambiental e uma política cidadã, de direitos? Não é dizer pras pessoas não consumirem. Qual a possibilidade de a gente fazer uma política de direitos que garanta toda uma mudança no nosso modo de vida? Há tantas tradições culinárias, medicinais nas favelas, mas absolutamente subalternizadas, subterrâneas, despidas de valor. Como se retoma outras culturas de vida? Como criar uma política de habitação que dê conta da mobilidade e que não seja essa, por exemplo, do “Minha Casa Minha Vida”. Aqui no Rio de Janeiro o programa coloca todo mundo na zona oeste, com um processo brutal de desmatamento dessas áreas, que eram rurais, com sítios, desprovidas de equipamentos culturais, educacionais, de transporte público. Nós estamos vendo um processo de re-periferização da pobreza, distanciamento dos pobres das áreas centrais da cidade. Por outro lado, temos de observar que o discurso ambiental do poder público, de enchentes e áreas de risco, tem se prestado a políticas de remoção. Quando caracterizamos o debate ambiental, temos de ter uma leitura muito crítica, assim como se fala centro/periferia, favela/asfalto, os termos ambientais também são apropriados para políticas arbitrárias e autoritárias que legitimam as diferenças e desigualdades.  É preciso entender que o risco de desabamento é em ponto, não em área. Se há uma pessoa em risco, uma casa em risco é preciso atenção a ela. Inclusive fazer de tudo para que ela permaneça na própria comunidade porque ali ela tem relações de parentesco, de amizade, de confiança. Isso é fundamental. Para a classe média a unidade básica de proteção é a família. Para o pobre a unidade básica de proteção é o território.

Publicada em março de 2014 na Revista Página 22

Fio de Papelão (Prêmio Avina de Reportagem)

Editoras cartoneras se espalham pelo continente transformando papelão coletado nas ruas em objeto de arte, recheado de literatura latina; projeto iniciado na Argentina pós-crise aproxima universos improváveis como jovens de famílias de catadores, escritores, moradores de rua, acadêmicos e galeristas

Um fio  sai da churrasqueira e se estende ao outro lado da parede fazendo um tipo de cortina para quem passa em direção ao banheiro do bar. Pregados no varal uma dezena de livros com títulos enormes de cores vivas, feitos com capas de papelão. Um cartaz colado na chaminé da churrasqueira anuncia beba dulcinéia, fritas, poesia, chopp, conto, Engov.  Os livros são do coletivo Dulcinéia Catadora, o bar é a Mercearia São Pedro, em zona-elite de São Paulo. Os universos são um grupo que compra o papelão que virou lixo, o transforma em capa de livro e publica autores que não teriam chance em outra editora que não aquela e outros consagrados que adoraram a idéia de ver sua literatura embalada com o dejeto transformado em objeto único, numa capa pintada a guache, algumas vezes, pelo filho de um catador de papelão. Essa idéia que chegou aos bares, galerias de arte e viadutos de São Paulo em 2007 começou na Argentina, bairro La Boca pós-crise de 2001 e já se estendeu, como um vírus, por pelo menos outros cinco países latino-americanos. Não menos importante, os livros custam, em geral, irrisórios cinco dinheiros.

As editoras cartoneras podem ser lidas também como uma linha fina, colorida e poderosa entre Brasil, Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Peru e rapidamente em outros lugares onde há gente adepta da convivência no trabalho livre e de planos paralelos para a literatura. Sentados e de pincéis em punho somos todos latino-americanos? Feito um instantâneo do continente, esta idéia simples parece se contrapor a pretensiosas e burocráticas tentativas de governos e organizações em conformar algum tipo de identidade nossa. Formas criativas necessárias frente ao colapso do capital, terra, lixo, saúde e informação. “A modernidade contemporânea poderia percorrer um novo caminho, no qual os elementos emancipatórios do imaginário da modernidade – liberdade igualitária, solidariedade e novas formas de responsabilidade coletiva – pudessem sobrepor-se às instituições e giros modernizadores que traem o que surgiu como uma das grandes invenções da humanidade em sua rica e atormentada história até hoje. A América Latina parece ter de fato um papel particular a desempenhar nesse processo”, diz José Maurício Domingues, em “A América Latina e a Modernidade Contemporânea – Uma Interpretação Sociológica” (editora UFMG).

Argentina, Buenos Aires, ano 2001, a economia em profunda recessão deixa 22% da população sem emprego e sem expectativa de mudança. Quem pode negar que o contingente de 9.000 catadores de papel da capital portenha tenha engrossado a partir daí?

República de La Boca, bairro onde o futebol na Bombonera ainda aliviava os ânimos. Um poeta suburbano de codinome Washington Cucurto resolve fazer o que já matutava há tempos. Corta uma dúzia de caixas de papelão em formato de uma folha A4, tira Xerox de textos próprios, cola e pinta a capa com título e nome do autor com tinta guache, da forma mais esgarranchada e colorida possível. “Disseram que eu era louco, que papelão fedia, era sujo”, conta baixinho Cucurto, seis anos depois, enquanto não pára um instante de dobrar catálogos e capas prontas para receber cola e tinta,  no ateliê  sede do Eloisa Cartonera, no mesmo La Boca do princípio.

É ali que se reúnem, de segunda a sábado,  o poeta e ex-vendedor de produtos químicos Ricardo, o estudante chileno Alejandro, o colombiano Juan , a ex-cartonera Míriam La Osa Poderosa e  Leo de La Carto que vende o papelão que vai virar capa de livro. Se qualquer um quiser, na página da web do projeto argentino se aprende a fazer um livro cartonero a partir de um vídeo com Míriam La Osa, integrante do Eloisa há um ano. “Você corta o papelão de forma que dobrado abrace o livro, faz uma máscara branca com o título e nome do autor e depois usa as tintas a seu gosto. No Eloisa, a regra é quanto mais colorido melhor”, ensina La Osa.

Riso e avião

Míriam coletava material reciclável no bairro de La Boca desde pequena. Passou a freqüentar a sede do Eloisa e bater papo com o grupo. Bater papo e agregar gente é especialidade dela. Grande e forte, conhece toda a gente do bairro, das feiras de livro, de movimentos sociais, das universidades de Buenos Aires. Tem um riso largo e contagiante, o que certamente lhe conferiu o título Osa Poderosa. Cucurto se encantou pela cartonera, escreveu várias crônicas e artigos sobre a menina que comia lixo e algumas vezes levava presentes a eles encontrados nas suas andanças, da força e do coração de uma mulher que sabe partilhar. Ela coleciona os textos a seu respeito e pede aos visitantes do ateliê que os leiam em voz alta. Sabe ler mas não gosta muito. Prefere pintar capas e fazer empanadas. Seu maior orgulho é ter viajado de avião pelo projeto. Foi participar de uma feira de livros no Chaco, no ano passado. “Nunca imaginava que isso ia acontecer comigo”. Dá entrevistas e com um gravador na mão é capaz de fazer uma reportagem e meia com os moradores do La Boca.

Cucurto chega ao ateliê no final da tarde junto com Maria, sua substituta imediata e dona do maior grau de ação e organização naquele espaço. Trabalham juntos na impressora, põem tintas, rodam o catálogo que será levado naquele mesmo dia a um festival de cinema. Maria cobra as vendas de Juan e Alejandro, questiona sobre uma feira que foram e não venderam.  Antes de chegar, porém, já tinha ligado para saber como anda o dia, quem está fazendo o quê, como está o movimento. O ateliê funciona na base do que é necessário. Se alguém precisa de uma água, o outro vai buscar, se é de papelão, idem. Trabalho colaborativo nonstop até para quem acaba de chegar. Acontece de as visitas começarem a fazer capas.

Só é possível falar com Cucurto no meio de muito trabalho. E trabalho significa que ele também terá arrumado uma incumbência para você. Trabalho é a palavra que ele mais repete. Diz que o transformou, o moldou. “Tudo depende de nós, se vamos bem ou mal, se trabalhamos mais ganhamos mais. Eu não sabia nada disso, como imprime, cola, pinta. Tudo é uma experiência, vamos aprendendo. São seis anos de cartoneria. Mas ainda vamos aprendendo dia-a-dia. O importante é que se faz o que se gosta, independente de patrão, do massacre que é esse sistema capitalista neoliberal”.

O grupo se modifica muito. O salário é um mistério. Juan diz que ganham entre 700 e 800 pesos por mês, Cucurto diz que é mais, desconfiado. Faz parte do jogo. No começo, com Javier Barilaro, havia pretensões artísticas. Com a saída do artista plástico, ficou o trabalho. Autor celebrado entre os críticos argentinos, Cucurto diz que apenas se diverte fazendo literatura. “É bom saber que se pode fazer literatura, qualquer pessoa, seja boa ou má”. Quando o assunto é o Eloisa, livro não é mais importante que fazer um alfajor ou o choripan, pão com chourizo portenho. O trabalho coletivo sim é a alma do negócio. “Antes me importava ganhar mais dinheiro para mim e minha família. Agora vejo que não é tão importante assim. Vamos fazer uma escola agrícola. As cidades também estão ficando inviáveis, é preciso voltar para o campo, nos autogerenciar e produzir o que comemos. Plantar, trabalhar a terra em conjunto, aprender. Vamos comprar um terreno, virar cooperativa, buscar financiamento”, profetiza.

Viver junto

A idéia é que a cartoneira cresça  – mas não muito – uma convergência com o projeto irmão no Brasil, Dulcinéia Catadora. Do lado de cá, na sala emprestada na Vila Madalena, Lúcia Rosa não acredita em números nem propostas ribombantes. A artista plástica que coordena a editora cartonera brasileira gosta de se dedicar pessoalmente a cada um dos integrantes do Dulcinéia. Tapa os olhos de um novato para que ele se veja livre para pintar. Aquilo dá um pouco de medo no menino. Mas logo ele dispara as pinceladas. Sem cartilha, Lúcia gosta de citar  Nicolas Bourriaud e sua estética relacional –  arte como  processo e o afeto coletivo gerado sem obrigação do objeto final.

A diversidade entre os participantes estimula a discussão e o respeito a diferenças, abrindo espaço para uma troca intensa de vivências. Compartem a mesa dos pincéis Tião, o ex-morador de rua e escritor que vai e vem, Peterson e Marlon,  jovens dedicados , filhos de Ailton, catador de papelão, dois que começam a desafiar o destino e armar outros rumos para eles, Seu Israel, que apareceu no ateliê com sua pintura sui generis de bonequinhos em disparada, Carlos, cardiologista que escreve, dá moral a turma, faz curadoria e sai pra rua vestido de papelão recitando poesia nas intervenções artísticas do coletivo. “A opção é que a experiência estética seja um ato conjunto, gerando prazer no encontro e participação”, é o mantra Dulcinéia. A despeito disso, cada participante ganha uma diária de R$ 30 pelo trabalho, tudo que entra além disso é dividido em partes iguais, sem dependência de patrocínios públicos ou privados. A renda vem da venda de livros (R$ 6 reais cada) e cachês de trabalhos artísticos.

Em ritmo menos acelerado que no ateliê argentino, ali se deixa e se aproveita alguma marca do papelão em seu estado anterior, a primeira história do dejeto que depois vai ganhar a função de proteger e apresentar uma obra literária. Os meninos são estimulados a ler, escrever. Tião já lançou seu “Cátia, Simone e Outras Marvadas” pelo Dulcinéia e está preparando um próximo.  Peterson gosta de fotografia e acaba de conseguir trabalho em um estúdio.  Recitou poema em megafone durante intervenção artística em um festival de cinema em Minas Gerais, cuida do livro de vendas e tem seus sonhos.

Num certo dia, os meninos preparam o cartaz para evento na Mercearia São Pedro. Vão reeditar uma antologia de 2004 com as capas de papelão pintado. Num instante espicham o papelão na mesa, cada um dá sua pincelada de contribuição, Tião solta das suas… Beba Dulcinéia, a gente podia mudar o cardápio, colocar batata frita, poesia, conto, engov… Lúcia vibra. De avental  sujo de tinta ela vai contando aos poucos suas próximas idéias, reforçando que o “nós” prevalece. “Não é comercial. Mas queremos, por exemplo, que os catadores comecem a vender os livros também. Ele vende o papelão mas também vende os livros, isso muda tudo, ele participa desde a coleta do lixo até o lixo transformado num objeto de maior valor, com isso ele também se dará maior valor”.  Seu Ailton, pai de Peterson e Marlon, já está interessado em vender os livros. Tem esperança, mas se preocupa com o destino dos dois meninos, conta no meio do trabalho na Cooperativa de Catadores da Baixada do Glicério, com sede bem debaixo do viaduto do Glicério, centro de São Paulo. “Meu pai foi catador por 50 anos aqui, eu já fui, larguei, fiquei doente e voltei. Tem trabalho nesta cidade. O importante é não ter vergonha do que se faz”. Ailton é franzino e sorridente. Com  seus 43 anos é capaz de pilotar seu carrinho catador pelas ruas da região. Carrega de 200 kg a 300 kg por viagem.  O Dulcinéia Catadora chegou a comprar papelão da cooperativa do Glicério, mas agora optou por uma central mais próxima do ateliê. “Era uma briga danada para vender porque eles pagam R$ 1 o kg e o preço na época era R$ 0,20”. Um compromisso de editoras cartoneras é comprar o papelão por um preço acima do praticado no mercado de forma a valorizar a matéria-prima para literatura de primeira.

Na ponta final, os livros do Dulcinéia Catadora podem ser vistos em São Paulo na Galeria Vermelho, de arte contemporânea, livrarias, sebos e bares. Com a cara e  coragem, Dulcinéia Catadora seguiu para a Flip de 2007, sofisticada feira de literatura em Paraty, oferecendo seus livros de R$ 5 , uma editora não gostou, reclamou, pense na petulância. Ronaldo Bressane, escritor brasileiro que publicou livros pelo coletivo brasileiro (“Corpo Porco Alma Lama”) e pela irmã paraguaia Yiyi Jambo, diz que não conhece autor que não doe seus escritos para uma cartonera e põe fé nos “talentos insuspeitados” que habitam as editoras, pintando livros no anonimato.

Desacreditar na arte desconectada da vida é um princípio que o Dulcinéia Catadora levou da sua origem, a Bienal de Artes de SP com o tema “Como Viver Junto”, em 2007. A curadoria convidou o Eloisa Cartonera para que reproduzisse seu trabalho ali naquele painel da arte contemporânea mundial e jovens filhos de catadores de papelão brasileiros foram chamados a participar da oficina de manufatura do livro cartonero. Ao final, uma nova editora de papelão surgia em São Paulo.  Neste meio-termo, a idéia ganhava outras plagas.  Em 2005, no Peru, um grupo de intelectuais criava o Sarita Cartonera que inspirou iniciativas na Bolívia (Yerba Mala) e no México (La Cartonera).

Intercâmbio selvagem

O intercâmbio entre as editoras cartoneras não é uniforme, mas existe. À uma chamada geral da editora chilena Animita Cartonera, as irmãs latinas atenderam e publicaram simultaneamente o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro. Lúcia descolou uma tradutora para a versão portuguesa e lançou uma edição bilíngüe.

A integração cartonera se dá ainda pelo curioso e potente portunhol selvagem. A língua híbrida do português, espanhol e tupi guarani é invenção do poeta Douglas Diegues, editor cartonero do selo paraguaio Yiyi Jambo.  Autores brasileiros e paraguaios, como o próprio Douglas, lançaram títulos no novo idioma, sublinhando uma questão que insiste em separar Brasil dos outros países latinos quando há mais semelhanças que diferenças.

Washington Cucurto diz que não ensinou ninguém nem foi procurado pelas outras cartoneras. Foram acontecendo. Desse mesmo jeito, em uma semana,  Eloisa Cartonera foi procurada, visitada, freqüentada por duas acadêmicas portuguesas – que estão fazendo pós-doutorado sobre o tema – jornalistas alemães, poloneses e artistas espanhóis que querem fazer parceria com o projeto. Sem contar críticos e professores de Literatura que se debruçam sobre a história nas suas mais variadas pegadas: sustentabilidade, convergência das artes, inclusão social, negócio inclusivo, legado criativo da crise.   Você colocou a literatura latina onde deveria estar? , pergunto a Washington Cucurto. “Que sé yo!”, responde no melhor argentinês.

Matéria resultado do Prêmio Avina de Jornalismo Investigativo, publicada na Revista Fórum

poquito más

 

O contrabaixo que pontua a salsa é a melhor orientação para uns dias em Cartagena de las Indias. Seguir o ritmo do instrumento será dica única e fundamental para caminhar pelas ruas do século XVI, conversar com a alegre gente cartagenera, comer sua comida salpicada de banana e côco e rum, ler seu mais ilustre habitante, Gabriel García Marquez, e visitar os sítios de interesse, dar a volta completa pela muralha construída para proteger esta considerada uma das mais belas cidades do nosso continente, quiçá de mundo afora.

Quando Gabo chegou em Cartagena, a dona da pensão lhe advertiu: “Acá todo es distinto”. E o então jornalista não se fez de rogado. Viu um povo curioso e escreveu como ninguém histórias que exalam a paixão caribenha e as contradições de um lugar vítima de mais uma tacada da dominação espanhola, ataques de piratas, que recebeu negros vindos da África e de como essa mistura se espalhou pelas ruas em forma de arepitas, salsas, rumbas, gambiarras para driblar a pobreza material, nunca a de espírito.

A casa amuralhada do Premio Nobel vale mais pela diversidade de opiniões que taxistas, ambulantes, moradores lhe atribuem. É aquela, não, é aquela outra, mais adiante, ele mora aí, não, mora no México. Sua figura mítica povoa bares e restaurantes e vai haver muitos cartageneros a narrar noitadas inolvidables com o escritor, que dançou, tocou, bebeu.  

Vida moderna, pero no mucho

Ao lado de sofisticados e impessoais hotéis cinco estrelas, o visitante vai encontrar, com distância de poucos metros, gente da cidade jogando xadrez com garrafas pet cheias de areia e decoradas para se fazer a distinção entre as peças no meio da praia. Vai ser abordado também pelos fazedores de chamadas,  os que alugam minutos de telefone celular e fazem ligações para qualquer parte a preços módicos. A profissão informal é salva-vidas para um lugar onde o desemprego é alto, a despeito do turismo intenso que toma Cartagena o ano inteiro. Nadil é pedreiro, mas ficou sem trabalho nos últimos tempos, e se agarrou nas chamadas alugadas para sustentar sua família. Seu ponto é no bairro de San Diego, perto do supermercado, onde, ao final de cada mês, ele consegue 20 mil pesos colombianos, cerca de R$ 20, para discar onde você quiser.  

continua nas bancas, revista Viver Brasil, a pagar las cuentas