quarteirão

meu local global me salva dos devaneios mais graves. no meu quarteirão sou peça fundamental, como o arabinho que sonhou alto demais e fechou, distribuiu as esfirras da bandeijinha e deixou a bandeirola do estabelecimento pendurada na fachada. alexandre da banca ama doce mas leu blue sugar e agora tem pavor. o segurança acaju alma sebosa quer pegar no pé do meu josé e dorme em serviço. as irmãs do bicicletas de belleville que falam ao mesmo tempo com o mesmo problema de coluna para a esquerda e inspiram confiança. os porteiros que até abrem a porta e as intrigas da aspirante à síndica me comovem na minha caminhada vagarosa saída do bloco C com meus nove quilinhos de alegria pendurados no meu peito. o sling é a tradução mais completa do amor de mãe e filho, grudados no peito, andando pelo mundo olhos nos olhos um do outro.

no meu quarteirão devo ser a mulher nova do doutor com o filho caçula do doutor. quem não ama um doutor ou ao menos chamar de doutor. doutor é coisa chique, no meu interior devo ser a filha do braga que casou com um doutor. sem querer querendo realizei meus sonhos de menina do interior mineiro.

e trotando com meu josé vimos verão outono primavera, dentro e fora da barriga, roubamos flores cheirosas e paramos perto da bouganville da vizinha porque mistura rosa e laranja e é uma beleza que nossa senhora. sim, frequentamos a padaria tosca do portuga porque tem um balconista que gosta da gente mas sabemos que é péssima para fregueses e funcionários.

a moça das quentinhas senta na banqueta e passa batom antes do batente, gostamos também! leva cinco isopores depois que abriu a clínica do coração. e como tem gente sofrendo do coração. movimentou a rua e um enjoado botou bilhete no carro: favor não encostar-se nos carros!  sempre um enjoado pra destoar a harmonia, seria sem graça sem eles. o enjoado pra servir de assunto. eu digo enjoado desses bestas mesmo. sem noção desperigado.

no salão cesário o dono mauricinho ocupa duas vagas com um carro. esses sim eu limava do meu quarteirão.

paulo da banca

o bombeiro levou o paulo da banca pro hospital. fumante inveterado, perna inchada, sequelas de um derrame, paulo só largava o cigarro pra pegar o jornal na sua banquinha improvisada na esquina da padaria. o paulo concentra o nosso dilema urbano dos dias: compaixão ou asco. deixava a rua cheia de guimbas, atrapalhava a passagem, não tinha cara amistosa. Mas diz-se que dava gibis pras crianças. mas diz-se que os filhos não queriam saber dele. mas diz-se que um vizinho da rua arrumou um lugar pra ele no abrigo público. tomava seu café com leite molhando biscoito água e sal guardado atrás da banquinha. fechava a banquinha as cinco. foi dono de uma bancona, do outro lado da rua. foi despejado. faliu. lhe restou o abrigo e uma banquinha na esquina imunda da padaria que também é imunda. levo um cinzeiro pro paulo ou converso com ele? uma roupa ou um papinho? o paulo não presta, como pode o abandono da família? a cara dele não é boa não. mas era bom pras crianças. arrastava a perna depois do derrame. não tomava direito os remédios. os bombeiros levaram o paulo. morreu? não, foi pro hospital. a padaria tá em reforma. botaram um saco plástico em cima da banquinha do paulo enquanto o pedreiro fura e pinta a fachada da padaria imunda. sabe do paulo? foi pro hospital. tem duas semanas. três semanas. alguém sabe do paulo? olha, como ele tá nesse momento não sei não. mas foi pro hospital, os bombeiros levaram. sabe, não tomava remédio direito. mas paulo tem uma anja. a mulher alta negra da rua que era empregada no apartamento de um velho rico sem parentes. a anja negra herdou o apartamento e continua usando roupa de empregada. ela limpa o lugar do paulo, passa vassoura, mata os ratos. ela cuidou do velho e agora cuida do paulo. mas ninguém sabe onde anda o velho da piteira de cara ruim na esquina.

a paixão de um bebê por uma coroa de 82 – vida com José

no princípio era um palhaço. um não! dezenas deles pendurados sorrindo estridentes pelas paredes portas cabeceiras de camas chão, numa cena aterrorizante. ela só queria ser amada de imediato. mas ele, como leonino mineiroca, queria um lance assim mais rococó, nada muito óbvio, porém marcante-transparente. e os palhaços foram arquivados.

os dias pareciam mais lentos naquela dança do enamoramento. de manhã ele pulava pra sua cama e eram três horas de chamegos recíprocos, um pralápracá de elogios e sorrisos. sábio, ele suscitava timidez mas logo se entregava e pulava alto quando ouvia – Cade o bagunceiro da vovó??!!!!

Era a senha. Gargalhadas pulos braços e mãos em êxtase. Ela logo se rendia também. Propunha um passeio pelas plantas, quintal, varanda, um passeio longo pra braços antes cansados, agora vigorosos sustentando seis quilos.

durante o café ele respeitava a lentidão dela e se estatelava no bebê conforto qual um pachá. sabia que ela gostava desse tempo pra ela, uma coisa sagitariana talvez, de quem aprecia a poeira do lar, as geleias e manteigas com critério. Então ele suspirava a espera dos seus braços novamente o que poderia levar meia ou uma hora conforme o apetite da donzela.

hora do banho merece um capítulo. foi nas águas que a paixão encontrou seu ápice. o recipiente era pequeno para tanta euforia e ele não economizava na performance campeão da categoria fraldinha em alguns certames. Ela incentivava o amado pedindo mais, mais, mais e mais. Satisfeito e orgulhoso, ele espalhava água pra todo lado.

no fim do dia ele não queria ir embora/dormir. lhe parecia incoerente ir antes da amada. esperneava um pouco, agarrava-se aos seus cabelos e exigia com jeitinho mais uma voltinha no quintal. ela propunha pela casa mesmo que não era hora de menino acordado no interior. acordo feito, seus olhos cambaleavam no suingue do colinho até encontrar abrigo completo na cama macia e perfumada da vovó.

a história continua, mas o aconselharam a passar uma temporada em sua casa de modo a aprender mais artimanhas do amor e da vida. ele resistiu um pouco, choramingou, estranhou os amigos e outros familiares, mas sabia que aquela paixão acabaria jamais. olhos nos olhos da amada, sussurrou: éhuuuuu (= eu voltarei). no que ela assentiu e desejou boa viagem, preparando um pacote de pão de queijo se desse fome no caminho. ele ainda acorda á noite lembrando a companheira das contravenções, aquele porto seguro do amor bagunceiro.

amor entrelinhas – vida com José

acredito que amor é um nome que cada um dá uma sensação mais ou menos comum: um êxtase, uma ternura, um maravilhamento, prazer, alegria, cumplicidade, gratidão e lá se vão mais outras dezenas de palavras buscando traduzir o que sentimos.

nessa vida materna, sinto um amor entrelinhas muito forte, uma palavra que escolhi para o que me toma por inteiro e comove nas presenças e vivências de José. Ele não gosta de muita claridade, adora dormir do lado esquerdo com um paninho ou sobra de lençol no rosto ou um bichinho, faz carinha de Didi mocó quando acaba de mamar, sua alegria em cima do trocador, um risinho de lado e sua primeira palavra: éhuuuuuuu éhuuuu éhuuuu. a gente repete e ele seguidas vezes, balançando as perninhas de alegria éhuuuu éhuuuuu e nós bobões comovidos como o quê dizemos com entusiasmo: éhuuuuuuuu

essa nomeação me fez lembrar um ator que pouco antes de morrer deixou escrito, acho que num guardanapo, que só existem palavras e o amor. tendo a concordar. tanto assim que ando nomeando minhas sensações aqui neste espaço. Pra quem? Pra mim, ora bolas. Pra saber que é amor mesmo rs. Pra voltar a crer nas palavras, tão mal usadas e desperdiçadas nesses tempos. Não tenho saudosismo, mas apreço por elas, as palavras. Larguei análise por tempos pensando que alguma coisa corpórea seria mais digno diante do blablablabla do ego, me calei bem mais diante da discurseira que costumei ser há uns dez, vinte anos. Mas não quero colocá-la – a palavra – num pedestal, como durante tempos esteve a literatura. Então vamos gastar, voilà.

assim numa sequência interminável posso citar a aflição do henrique e seus dedos melado, abrindo bem os dedos de uma mão larga e atuante, seu frio na cabeça e nos pés e calor no resto do corpo, seu riso de menino a cada mini trapaça caseira, ressaltando aquele dente do lado do canino levemente torto, as pulseiras da Mônica balançando antes de sua presença e perfume, o timbre da voz da mamãe no telefone e sua oratória constante adoçada com teatro e drama doméstico-aristocrático. Às vezes ligo para ouvir esse som, sem me importar com o que ela tem a dizer.

É o éhuuuuu da cecília. Cada qual a quem se ama tem seu éhuuuuuu. É ele que interessa.

Ensaios e intervalos – vida com José

Um dos primeiros desafios da maternidade fora da barriga é aproveitar intervalos, os primeiros com duvidas do tipo faço xixi ou almoço, durmo ou faço exercício. Hoje eu precisava cortar minha unha, mas cortei primeiro a do José. Tocar suas coisas nos intervalos é priorizar seu bebê em tudo, um aprendizado diário porque até então era eu, my self, meu porta-retrato. Das máximas da gravidez, me lembro de minha dúvida sobre o amor incondicional. Hoje ele me é tão natural, só que a duvida migra. Ando batendo cabeça em torno de ´criar o filho para o mundo´. Aff, meu filhinho nesse mundo uó, vontade de leoa, proteção total e irrestrita. Confio que ela se dissolverá em poções generosas de amor da comunidade que envolve a criação de um filho.

dos ensaios, tratamos de praticamente tudo. por mais óbvio que seja lembrar esse rascunho constante que envolve vidas, a minha, a nossa, a dele, o filho reforça a inexistência de uma receita, seja para um choro, uma pereba; o acaso brinda com as delícias de se deparar com seu filho se apoderando do berço. aquele micro bebê perdido na imensidão do bercinho nos primeiros dias, agora busca seus espacinhos, toca os brinquedos, fala na sua maravilhosa língua, o Josezês, se debate com as almofadas, experenciando seu canto, sem querer saber de colo. Como?!   Poxa, ele cresce todo dia e o José chafurdando com prazer no seu bercinho me lembrou, novamente, o óbvio. eu ali do lado de fora babava com sua independência e passei bons minutos admirando suas buscas naquele retângulo acolchoado. José experimentando e me oferecendo oportunidades. Dali a pouco se agarraria ao meu peito um bichinho esfomeado dependente do meu leite, ufa. mas o aleitamento é outra história.

Quem tem padrinho não morre pagão

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Minha mãe é das que guardam as provas de Matemática da 5ª série em que fui bem ou beirei o zero. As minhas e as da minha irmã, aconchegadas naquelas caixas-arquivo de papelão, na parte mais alta do armário, o que significa que toda essa papelada é revista uma vez a cada cinco anos, certamente quando  estamos há um tempo lhe devendo  uma visita. E foi numa dessas ausências nossas substituídas por boletins e carteirinhas do colégio estadual que minha mãe encontrou a redação – era assim o nome – em que pela primeira vez minha irmã a descrevia, talvez na terceira ou quarta série. “Minha mãe gosta mesmo é de uma lavação”.  Na cabeça dos sete anos da Mônica, lavação era a mãe molhando as plantas do jardim, jogando água na terra seca do quintal quando ficava muito tempo sem chover, lavando a louça do almoço e as outras ocupações domésticas que essa mãe aos 40 anos revezava com o trabalho intelectual. A água era o que mais próximo dela enxergava a filha. Uma matéria que, para quem nasceu antes dos anos 80, nos era líquida e certa e sem culpa.  

Suspeito que nos rituais aquáticos dona Cecília era menos afazeres e mais fuga de obrigações.

Neste mesmo cenário, a pergunta freqüente era se o bebê tinha chorado muito ou pouco na hora do batismo. Sinal de bom ou mau cristão? Dependia também da disposição do padre em derramar muita água na cabeça do menino, o que rendia comentários para uma semana. Mais tarde, um banho demorado era apelidado de banho Cleópatra, sabe-se lá o que a meninada pensava desse termo inventado no interior católico mineiro. Mas o certo é que a água era assim. Meu pai me deu um vidrinho de sal de fruta fechado com fita crepe e recomendou jogar em todos os cômodos da minha  casa na capital. Era a água que saía do túmulo de um padre santo. A mesma depositada numa pia na entrada da Igreja onde os fiéis molhavam a ponta do dedo e esparramavam pelo rosto. A fé do meu pai na água era de nascença. Meu avô adivinhava a chegada da chuva pela virada nas folhas das laranjeiras que plantou. Meu pai levou essas laranjeiras e árvores da fazenda para a cidade onde criou família, mas alguns vizinhos reclamam até hoje das folhas sujando a calçada e algumas vezes ele acaba errando o prognóstico da chuva.

Dia de lavar a caixa d´água era um deus nos acuda. Um mau humor geral se instalava na casa. Banhos rápidos, comida boba sem variedades, o povo calado e minha mãe com a cara torcida o dia inteiro. A água chegava e tudo voltava ao seu curso normal na rua Agostinho Azevedo. Se chovia muito, além de encher a caixa d´água, a população corria para ver a praia. A praia é o córrego do Lenheiro que corta a cidade e inunda só as casas da periferia. Quem não foi inundado, corre até a beira da praia, debaixo da sombrinha, para ver o caldo grosso e marrom chegando perto da ponte e arrastando tudo.

A água pagã e religiosa de São João Del Rei é a mesma que lava as escadarias do Bonfim, coisa que de obrigatória passou a festa.  Este ano se cumpriu a 254a  lavação reunindo ali católicos, espíritas, seguidores do camdomblé, umbanda, ricos e pobres na Bahia. A água rompeu a hierarquia e sobrou anunciar e celebrar.

Sem ela, também não sei o que seria dos casamentos na aldeia dos Tapirapés, no norte do Mato Grosso. No final da tarde, o cacique sai abraçado com sua mulher e toalhas nos ombros. O sol  está indo embora e deixa a água do riacho  morna. É hora do banho-namoro naquelas bandas. O riacho fica atrás das ocas e os casais vão andando sem pressa para a higiene diária. É também no riacho que as panelas são areadas e é onde os meninos brincam. Em São Félix do Araguaia, onde de um lado é Mato Grosso e do outro é Tocantins, o rio serve para a pesca, transporte, lazer, alimentação. Mas o rio sustenta ainda o Flutuante, bar-restaurante onde se come o melhor peixe assado da cidade. Do Flutuante, os homens lançam suas varas ao rio Araguaia e depois devolvem tudo que é pescado.  Sem o Flutuante, também não sei não.