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Foi na volta da ida pra escola. Cá pensando que a vida é boa…  o homem da máquina de lavar foi mesmo,  a sinusite com tosse parecem enfim me abandonar depois de quatro dias de antibióticos. Voltar de uma virose é renascer num dia sorridente do sol de inverno. Oi Fernando pipoqueiro, nem a obra faraônica de uma academia na esquina me importa; boas mamografias, lindos ovários e útero da revisão anual; Zu comeu um prato mais colorido que o arco íris, artigo enviado, festa junina amanhã, jogo do Brasil na sexta às 9h e aconteceu comigo. Naquele ponto estreito da calçada da Voluntários com Real Grandeza. Ele escondia a arma no moletom comprido qual um Dunga da Branca de Neve. Perdeu tia, me apontou o cano prata dos filmes, me espremendo gelado pra dentro do shopping popular.  O barulho do cruzamento ajudava a surrealidade da ação e alternei, em segundos, o pânico com uma calma assustadora. Muito jovem de cara limpinha, o menino pediu bolsa celular tudo, terminando por me acoxambrar ao pé manequim de plástico que vestia aquela calça de listras bicolores que está na moda. Foi a conta de proteger o pescoço e ele deu um pipoco pra cima pra comprovar a veracidade das coisas. Bem baixinho lhe disse que minha profissão era escrever sobre essa porra toda, não ter emprego, nem chances, nem dinheiro, viver na correria, fazer um ganho e, no risco, não saber o dia de amanhã. Que eu tenho filho pequeno, que além de tudo a gente tem que lutar diariamente contra o patriarcado, aumentei o volume, dobrar triplicar expediente pra dar conta de tudo. Que em 2017 em apenas nove dias todas as escolas da rede pública do rio funcionaram, que um genocídio negro jovem está em curso no Rio de Janeiro. Berrei! Que é tiro bomba, granada, a barbárie, criança correndo, criança morta. Que eu sou contra babá e empregada, que é o resquício da escravidão, que o maior problema do país não é a corrupção,  mas a desigualdade social. Que todo mundo deveria ter a chance de estudar ou trabalhar com o que gosta, viajar para todos os lugares que sonhar. Ouvir Bethania cantando Reconvexo ou o Almir Sater Tocando em frente, nadar no mar sempre que tiver sol e comer a comida mais maravilhosa do mundo sob os afagos do maior amor. E namorar e dançar e ver os filmes do Fellini e Godard. Chega dona, passa a bolsa, o menino fulo me enquadrou.

Passei minha bolsinha comprada na peruana da calçada em frente. Cartão do metrô, quinze reais de troco do moço da máquina de lavar, visa (bosta, cancelar), os convites da festa junina e na chave de casa morro nuns 20 reais.

saiu voado meu assaltante pela rua da matriz. de longe vejo a bolsinha hippie sacolejando. De frente vejo as bandeirinhas de são João da igreja balançando forte esperando o seu dia.  As vendedoras do shopping popular me oferecem água fresca. Paro na banca do Tonico Pereira e compro fiado uma camiseta que saudade do Brizola. Meto a mão no bolso do casaco, esperta, saco o celular, o que vou postar disso tudo. Plaft. Escorrega no suor. Apaga.

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O que te toca?

dulcineia-em-acao-0411O que te toca? Aos 46 minutos de 2008, munida da pergunta e de um manto de livros, Dulcinéia Catadora saiu em busca da gente no Parque Dom Pedro, o lugar das idas e vindas no centro de São Paulo. Para quebrar o gelo, Dulcinéia comprou uma água de côco, parou na praça, olhou os jogadores de cartas, o arco da entrada da estação de trem suando no calor descomunal. Jogou uma conversa fora com o vendedor de pilhas, celular, mp3, fitas, DVDs e obteve sua primeira resposta. Ele abriu o livro em branco no peito da mulher e desfiou suas linhas, uma mistura da miséria da existência e da esperança que ele guarda no intervalo do trabalho. Dulcinéia levantou, agradeceu e nem percebeu que a gente não andava tão corrida assim, tão mercenária assim; talvez mais pra cansada. Aprumou sua armadura de papelão e saiu rebolando cores pelas ruelas do parque. No ponto de ônibus encontrou sorrisos; engraçado; a gente não quer chegar em casa logo? E sapecou mais uma história no livro em branco no centro do vestido. “Meu amor, você não entende, tudo o que eu faço é pra você; minha dor é você não perceber; eu espero que nesse 2009…” Dulcinéia ainda tentou retrucar em favor das mulheres, os tempos estão difíceis, veja você, estamos aqui, nossa família, trabalhando, ela deve trabalhar muito, bobo, te liga, nego. Carlos embarcou conformado, isso ela supôs pelo risão branco desinteressado que lhe devolveu do alto do Estrada das Lágrimas, Sacomã, que já enfumaçava o cenário. Tratou de engatar mais umas palavras com a gente do ponto, as donas chupavam manga com gosto, o estagiário riu de canto no aparelho fixo. Não é que se tocavam? Deu a última rabiola no ponto e entrou numa discussão quente na carroça de manga. O rapa, olha que o rapa vem, lá vem eles porque os rapa não tem condição. Anotou tudo direitinho, o vizinho, o conhecido, o menino que apareceu com a boca aberta, a compra do ano que sumiu no caveirão fazendo a curva, o mesmo homem que pergunta as mesmas coisas, o que não pergunta coisas e bate igual, as aflições, as aflições. Dulcinéia quedou em silêncio. Não tinha reservatório para aquela hora. Fez reverência com seu saiote-papelão e seguiu em frente mastigando um abacaxi amarelo. Colheu mais umas histórias de amor, sempre o amor a refrigerar a gente. Paulo, meu rei, Ana Amália me toca, Sabino, seu desgramado, ainda te pego, Carlinha no céu e na terra. Parou a reparar quem ganhava o truco e notou que tinham ali muitas coisas para o livro branco. Só não tinham a munição das palavras. Dulcinéia arqueou seu saco de papelão e emprestou umas palavras gastas, outras bem novinhas e eles foram experimentando, os jogadores. Bons jogadores na vida, tinham saído de longe para chegar até a praça. Tinham feito casa, cheques, filhos, entregas, dirigido caminhões, ido a muitas festas de 15 anos. As folhas brancas que caíam sobre as suas cabeças eles espanavam com orgulho. E tiveram alegria com o pacote de letras, trocavam elas de lugar numa satisfação de modo que não arredavam o pé das próprias linhas para o livro branco e desancaram o palavreado, assim só por surpresa: toca banda, boi, boiada, circo, jardim, carambola, cuca fresca, Petrolina, pau de arara, pau de sebo, arranca-rabo, sangue de boi, cruz vermelha, patroa, coroinha. Dulcinéia, a seu passo, achou boa essas novas jogadas aprendidas com os jogadores. Acenou à turma e seguiu rumo ao churrasquinho. Ali foi uma dificuldade porque o povo tem fome e a tora de carne vai definhando conforme a hora; no almoço é um deus nos acuda, fila que não acaba mais. É Cuma? Perguntou o responsável. Um livro aberto em branco aqui ó. Você pode escrever o que quiser, fio, vai, abusa. Não, não posso parar não madame. Nesse quadrado aqui é o dia inteiro, abre o pão, corta a carne, passa o rodo, roda o bifão sanguinolento, pingando gordura e aí tem os pombos, sacou? Apavorada com a suadeira, Dulcinéia esbarrou na melancia que saía como água. Para a felicidade de Josué, ele deu ponto final àquele capítulo do livro branco com seu garrancho espalhafatoso de uma página carimbado no peito da moça: O que me toca é a mão.

Publicado no livro Trilogia Bêbada, editado pelo Dulcineia Catadora