Uma costura das bordas ao coletivo Dulcineia Catadora

Ao tentar fazer a inscrição para o edital do Minc para intercâmbio de pesquisadores com objetivo de apresentar meu projeto de mestrado na Jalla 2012 – Jornadas Andinas de Literatura Latino Americana – me ocorreu com mais propriedade sua falta de encaixe nas ciências tradicionais ou na arte canônica e suas divisões até agora percebidas. Arte contemporânea, cultura popular, economia criativa, ativismo, edição criativa, literatura popular e outras combinações que poderiam gastar linhas.

Ao tornar-me participante do projeto, que ora observo, dois teóricos escancararam aquilo que no dia-a-dia me parecia óbvio. Nicolas Bourriaud e sua estética relacional e Jacques Rànciere e a Partilha do Sensível me apresentaram brechas de formas de comunicação/vida/fazer artístico que se espalham no globo, seja por uma decadência das formas de arte experimentadas até as últimas décadas seja por uma urgência cidadã em se fazer pertinente, atuante e coletivo, dessa vez por livre e espontâneo desejo e alguma forte atração pela casualidade e instantaneidade. Uma fuga apropriada para corpos e mentes cansados. Espaços que se inventam dentro do mundo como ele é, sem nenhuma necessidade representativa, mas somente a organização de encontros em tempos-espaços criados na vida urbana.

Ali estávamos exercitando isso sem dar conta de que rompia a regra com tamanha avidez que só as microutopias permitem. Então observando outros espaços-tempos que a vida me permitiu enxergar: o encontro do cinema independente na Mostra de Cinema de Tiradentes (críticos, cineastas, produtores, público, alunos), a feitura de uma revista que pretende tratar a sustentabilidade como alguma coisa palpável e vislumbrável e não mais um conceito-produto, a Revista Página 22 (fotógrafos, designers, jornalistas, pesquisadores) percebi que o prazer do encontro nestas zonas temporárias constituídas  não pode ser mensurado nem pensado através dos conceitos estanques.

No contato com o conceito da cultura de bordas, elaborado por Jerusa Pires Ferreira, nova janela se abriu. Acompanhar o desenvolvimento da cultura fora dos sistemas centrais e principalmente porque se estabelece como desafio para o impasse do que se acostumou colocar na conta da cultura da periferia, marginal, das margens.

A borda recheada de significados e, ao mesmo tempo, se esquivando solenemente de todos eles. A borda pode encontrar a vanguarda, o artesanal, o samba de quintal no seu luxo da alegria. E os livros editados por Dulcineia Catadora me transportaram para um universo que namorava essa borda, pertencer e recusar-se.

Pertencer ao passo que inclui os diversos, se insere no espaço do catador de lixo enquanto realiza oficinas dentro de uma cooperativa de materiais recicláveis no Glicério, em São Paulo, mas põe o dedo em uma profissão de sobrevivência sem opção. Recusa porque expõe e vende seus livros na Galeria Vermelho, templo dos jovens talentos da arte contemporânea, expõe e tenta vender seus livros durante a Flip – Feira de Literatura de Paraty, concorrendo com a editora convencional que está a espera do mundaréu de gente, saindo da palestra do autor para comprar o livro a qualquer preço. E Dulcineia estava ali do lado, quase expulsa, vendendo uns trechos por R$ 6.

E do que somos feitos senão pertencimento e recusa? O projeto ressignifica os que a ele aderem, e a memória coletiva ali é construída dos depósitos pessoais, mas também da atmosfera do convívio, do que não se explica, mas se sente ao construir capas de livros com papelão pintado a mão, numa mesa circular, trocando pincéis e falas.

Neste meu sentir e ser apresentada a novas leituras, os teóricos semioticistas russos chegaram de uma forma aprazível e também aliviante. Minha percepção muito superficial foi de que o humanismo estava a salvo ao tomar conhecimento de um pensamento de cultura tão abrangente, sem amarras e pré-disposto a vida, que afinal, está repleta de diferenças, rasuras, sujeiras e imperfeições como as do papelão que embala os livros que ajudo a fabricar.

A criação de conceitos como o da semiótica da cultura em ambientes vedados ao livre pensamento e manifestação naquela URSS me fizeram transpor este clima para a nossa incapacidade do diálogo e convívio, sob a pressão do trabalho eficiente e do consumo, que fizeram brotar as iniciativas como o Dulcineia Catadora.

O contato primeiro com o pensamento de Lotman e sua crítica à história previsível e regular, como se existisse fora dos mecanismos da cultura me proporciona outra imensa descoberta e, em seguida, uma alegria ao definir a história como uma avalanche de matéria viva que se autodesenvolve.

A inquietação desses pensadores e a aceitação de uma perda de limites para se pensar a cultura me pareceu iluminar o projeto do qual participo e agora me debruço para pensar.

Um ateliê no subsolo, com rasuras e literatura política que em seguida decide ocupar as ruas – a intervenção ´O que Te toca?´ percorreu a região do parque Dom Pedro, no centro de São Paulo – festivais e feiras e prateleiras impensadas, como um bar frequentado por intelectuais e artistas da capital.

A possibilidade de um encontro semanal de tantos diferentes repertórios, como uma artista plástica, um videomaker, jornalistas, catadores de papelão, moradores de rua, psicóticos com internações frequentes resultando em livros de literatura acessível em valor financeiro. Que arcabouço de memória é possível construir nestes momentos? Como se estabelece a comunicação e o convívio nesta circunstância que acaba tornando o livro uma parte, mas não toda a proposta?  Durante estes encontros, o que esquecemos e o que lembramos? Nestas idas e vindas construímos uma cultura cartonera?

O estabelecimento de mais de 30 editoras cartoneras em países latino-americanos faz pensar que sim. Vladimir Safatle diz que uma ideia já está lá, apenas a espera do momento certo de se manifestar e se multiplicar.

Este sampler latino, com aproximações e dissidências, lideranças e ausência de líderes, tomou seu curso próprio, apresentando uma junção caótica, contudo, parte do mundo como é: trabalho/vida/arte.  A linha fina e colorida das editoras cartoneras latinas oferece um mapeamento do que somos e do que também não somos, um texto cultural livre e aberto para reflexões em seu desenrolar que virá.

 Artigo publicado no site Overmundo

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Quando a margem é um rio

Na verdade, são dois rios e duas histórias contadas em documentários brasileiros que têm em comum o conflito das pessoas com seus territórios: pessoas que sonham com outros lugares a troco de qualquer condição, e outras, forçadas a deixar o lugar de origem e reconstruir a vida em local desconhecido. Quais as implicações dessas circunstâncias nas vidas de cada um e o que os espaços constroem no imaginário é o que os filmes – Do Outro Lado do Rio, de Lucas Bambozzi, e Sumidouro, de Cris Azzi – perpassam. Ainda inéditas no circuito comercial, as obras puderam ser vistas em festivais de cinema e, em breve, terão cópias em DVD nas locadoras. Em Do Outro Lado do Rio, o cineasta Lucas Bambozzi documenta a fronteira da Guiana Francesa com o Brasil, no Amapá. O rio é a passagem para uma nova vida, com promessa de ouro, euros e Paris. São 300 quilômetros de fronteira pelo Rio Oiapoque que suscitam a aventura e a fantasia; a felicidade está lá, a despeito do perigo da ilegalidade ou da violência e do medo que permeiam as duas cidades – Oiapoque no lado brasileiro e Saint Georges de L’Oyapock, no lado francês. Nesse caso, a fronteira geográfica é artificial, pois os “dois países” são habitados por iguais, convivem com miséria, prostituição e insegurança. “Na fronteira ninguém é amigo”, avisa o personagem Grande, desertor do Exército Brasileiro para tentar a vida na Guiana Francesa. Ex-garimpeiro, Fininho diz que a principal riqueza que se pode ter nessa profissão é a memória. Mesmo deportado e preso em Belém, não se arrepende de ter chegado ilegalmente ao outro lado. Os que ficam e os que vão estão sempre em conflito com o lugar eleito e carregam o anterior de alguma maneira – um território só existe em razão do outro, ou do que se imagina desse outro. Seja pelo medo de não ser bem-sucedido na empreitada ou ter de permanecer no mesmo lugar, todos estão em movimento. “Tenho muitas fantasias, quem não tem?”, pergunta a prostituta Telma, que se joga na saga de viver entre garimpos fazendo programas entre a gente tão ilegal e deslocada como ela. Para os travestis, aquela cidade pobre e decadente é o começo de Paris. O único consolo em meio à violência, medo e desilusões é a certeza de que sempre é tempo de voltar para casa. Já em Sumidouro, de Cris Azzi, o rio também é um território comum, mas desta vez ele vai subir, virar represa e inundar 42 comunidades para construção de uma usina hidrelétrica. A despeito das diferentes opiniões sobre a mudança forçada de casa, aquele território será “carregado” pelas cerca de 5 mil pessoas atingidas onde quer que estejam. Não se pode dizer se o afeto ou apego ao lugar de origem, também precário e miserável, tenha se fortalecido em consequência de uma Imposição externa. Mas na nova moradia – um chapadão seco de casas idênticas e planejadas em contraposição ao vale à beira do rio onde moravam – a vida não começa do zero. A ponto de Jaime visitar, nos primeiros dias, em sua canoa, o antigo espaço já completamente inundado. Numa imensidão de água, ele elenca lugares imaginários para as casas, o pé de manga que tinha na porta da cozinha, a origem das coisas. Dessa maneira há de se pensar que Nova Peixe Cru – nome dado para a vila que vai abrigar os deslocados pela barragem – seja um nome apropriado, porque contém o anterior, Peixe Cru, a mistura territorial que vai permear para sempre a vida daquelas pessoas. “As pessoas podem achar que é difícil, mas onde você vive é a sua raiz”, diz a dona de casa Sandra, entre lágrimas, ao deixar o lar à margem do rio. O curioso, conta o cineasta Cris Azzi, é que os moradores deixaram a beira do rio para a beira da estrada, mais um lugar que leva e traz. Outro ponto que merece análise é a opção – como refugiados ambientais – de um reassentamento coletivo. Cada um poderia buscar sua indenização e partir para o canto escolhido, mas as comunidades decidiram ir juntas para o mesmo lugar, mantendo até a vizinhança de outrora. Do ponto de vista político, relata o documentarista, as comunidades precisaram se organizar, criar associações e se fortaleceram para o debate com a companhia energética. O processo começou em 2002, quando receberam a notícia da construção da usina, mas a mudança para a nova vila só ocorreu em 2006. “Gerou angústia porque levou muito tempo. Angústia de saber como ia ser a casa nova, de quando ia sair o dinheiro; quase uma suspensão da vida, porque a mudança não acontecia, a obra atrasava, tinha gente que queria se casar, mas não tinha casa para morar.” Com foco nos territórios em movimento e nos conflitos das pessoas com esses espaços, os dois filmes podem ser pensados também por suas diferenças. Enquanto Do Outro Lado do Rio exibe personagens em busca de satisfações individuais e desarraigados dos locais de origem, Sumidouro mostra a força coletiva que surge quando seu lugar é ameaçado. Mesmo com diferentes opiniões sobre o deslocamento forçado, há uma unidade, uma organização que brota da emergência.

Salve Polônio

 

Diante de tudo o que se vê e da rapidez e degradação
de tudo, Cabo Polônio é
um lugar perdido. Quem perde o quê fica para o tal
livre arbítrio. São cerca
de 80 casas pequeninas, a maioria branca, salpicadas
sobre areia e grama e
cercadas quase totalmente pelo mar. Por um tris ” um
caminho estreito e
sinuoso por onde se entra e sai de caminhão ” não
estamos numa ilha.
E pra quem ouviu descrições de deserto, de dia faz
um calor do cão e à
noite, mesmo quando não chove, chegam ventos
poderosos que, parecem, vão
tirar os telhados daquelas casinhas todas.

De maneira geral, são brancas, o que dá uma sensação
de ilha grega para
muita gente.

Em Cabo Polônio ” a 400 km de Montevidéo em ônibus
com ar-condicionado e
mais uma travessia de caminhão aberto sobre dunas ”
as casas são distantes
umas das outras o suficiente para a felicidade.

Atílio é um artista plástico uruguaio, exilado por
vontade própria em
Polônio, convivendo com flores e suas obras. Sua
casa é cercada de plantas
compridas brancas.

Dentro dela, Atílio me mostrou uma caixa com tampo
de vidro onde guarda suas
interpretações de lobos e leões-marinhos em massa e
pedra. Outro trabalho
que chama a atenção é a série de bicicletas,
variações em desenho dos dois
aros fundamentais.

Para ele, a humanidade anda precisando de
bicicletas. Beatriz tem um rancho
próprio em Polônio onde, com o filho Guilherme,
trata de escrever o roteiro
para começar rodar, em dois meses, um filme.

O tema é a escravidão sexual, mulheres uruguaias
exportadas para esse fim.
Inconformada com a falta de apoio do governo
uruguaio à cultura, ela toma
horas de sol antes de escrever em alguma das praias
extensas e vazias. “É a
minha terapia.”

Corre a boca pequena que o Uruguai é o país mais
lento do mundo.
No restaurante da Nancy, ela divide o fogão com um
filho bebê na cintura e
uma olhada nos biscoitos que vão virar alfajores,
feitos em fogão a lenha.
Para comer no restaurante de Nancy é preciso
esperar, de frente ao mar.

Elisa foi ativista do partido comunista durante as
ditaduras uruguaias, ela
se aquietou depois de um exílio no Chile e ao
perceber que as esquerdas
frustraram.

Então montou seu “El Molino” , cuja energia vem do
vento mesmo, abastecendo
as poucas e aconchegantes luzes à noite, geladeira e
aparelhos elétricos.
Casou-se com Patrick, um francês que flagrei fazendo
parafusos de alfavaca
com garfo depois de tomar um banho de mar.

Cansado em definitivo da urbe, o mineiro Henrique
Falcão montou sua loja de
roupas no alto de uma pedra, ao lado do farol.
“Célula Tronco” é um projeto
de desenho, arte e preservação da vida.

“Eu fazia uma série de roupas, sem parar, saía
vendendo como louco. Agora
são peças únicas. A venda é consequência. Eu não
posso agradar todo mundo”.

Falcão quer criar uma fundação para preservação dos
lobos-marinhos, que
fazem um descanso nas praias de Polônio antes de
partirem para a reprodução
em mares mais frios.

Vela, gás e farol


A experiência em Cabo Polônio pode se radicalizar se
o visitante ficar em
casa de amigos ou num rancho alugado, vivendo à luz
de velas e usando a água
com moderação. Passei 12 dias assim, observando as
regras estabelecidas na
casa, pregadas numa geladeira movida a gás.
Acionava a bomba que leva a água da chuva para o
alto da casa e a distribui
para as torneiras do banheiro e da pia da cozinha.
São 50 movimentos diários
de musculação.

Em vez de usar a descarga do banheiro, buscava água
em dois baldes do lado
de fora da casa, acompanhada de Cazuza, Firulais e
Lineu, respectivamente,
os dois cachorros e o gato, ilustres habitantes da
casa dos espelhos, meu
abrigo nessa experiência “polonhense”.

Ouvia dos moradores que rapidamente eu ficaria
“polonhense”. Não entendi
muito bem o que, ao final do percurso, e só de volta
à vida urbana, pude
perceber.

Ficar “polonhense”, para mim, foi entrar numa
sensação de humanidade e uma
vagareza saudável, por “supuesto”. Para o banho,
esquentava a água e
despejava naquele balde-gambiarra que vira um
chuveiro. Fiquei com saudade
da ducha de hotel cinco estrelas.

Mas da janela do banheiro eu podia ver o mar e o
farol de Polônio, um dos
muitos cheio de histórias daquele país. Com um farol
daquele tamanho,
Polônio é conhecido por naufrágios históricos e
encalhe de navios. Um desses
casos envolve o Dom Guillermo, um navio que “atuou”
na Segunda Guerra
Mundial.

O que restou da embarcação é visto numa das praias
de Polônio, uma porção de
ferragens retorcidas fincadas na areia e nada mais.
Leo, o dono da casa, me
doutrinou sobre a água.

Disse que um banho como aquele equivale a um minuto
do nosso chuveiro na
cidade. Lembrei que meu banho é longo quando estou
bem triste ou bem alegre.
Naquele “transe” da quase-ilha eu não tinha nenhum
sentimento radical.

Leo foi o primeiro e único prefeito de Polônio.
Despachava na casa dos
espelhos, promovendo jantares à noite entre os
moradores, antigos
pescadores, turistas que decidiram se radicar,
hippies em trânsito e uma
sorte de gente com variados interesses, mas como a
mesma paixão pelo lugar.

Há uma pendenga sobre as propriedades em Polônio. O
Estado é o dono, teria
emprestado para os moradores e, agora, quer cobrar
uma taxa mensal pelo uso
das areias e grama.

Tudo é bem recente, mas o consenso é que o turismo
deverá ser controlado
porque não há estrutura para acolher muita gente; e
os lobos-marinhos e todo
aquele cenário vivo podem se estressar.

É certo que racionar água e luz quando se está
cercado de beleza e calma não
dói tanto. Mas, afinal, do que mesmo a gente
precisa?