Carta coração Para Adrianna Eu

Hj que me vejo lançada a cuidar da minha mãe, penso que é importante fazer uma coisa importante como escrever uma carta. O chamado ao cuidado me atravessou junto dos nossos diálogos, do seu trabalho e da minha observação admirativa.

O que seria um encontro mediado por um homem , agora se revela um encontro de duas mulheres, seus trabalhos, desejos,   filhos – você tem duas acho tão incrível- nossas angústias e sofrimentos de mundo e a precisão de manter a cabeça fora dagua , levar na escola, pensar o futuro , ser otimista e relativamente forte .
Mas a razão primeira da carta é te enxergar a artista da micropolítica do cuidado. Nesse mundo momento fodase com todas as letras o outro, entrar um pouco nas suas proposições artisticas foi aliviante e encorajador.
Primeiro porque te vejo longe do artista I MySelfie meu porta retrato, a antena da raça solitária com sua genialidade. Te vejo com todas as forças e garras imersa na vida tocada pelo outro de verdade. Tão bonito o trabalho do coração e seu gesto de acolhimento e delicadeza perante o outro. Os vermelhos nossos de uma existencia. De uma derrota recente.
. Vida e arte juntas . Duas filhas pra criar. O ouvido para a dor e festa alheios. O trabalho como a necessidade de perguntar cadê o outro cadê meu outro até onde posso ir como lidar.
Essa carta oficializa uma admiração e um desejo de outros  muitos diálogos. A necessidade do mundo para seus gestos  E buscas. Que bom seria multiplicadores dessa arte do cuidado.porque o hedonismo sabemos no que deu ne.  Todos freneticamente decididos a se dar bem sozinhos e cá estamos um país dividido e fascista.fascismo bateu e entrou. Sem moralismos . Um gesto solidário de estar no mundo eh política.  É mais política que nunca. Na hipótese mais egoica, cuidar do outro fortalece o cuidado comigo é o que eu tenho percebido.
Um beijo pravocê

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Tiro, sala de aula, bomba

Estado violência
Deixem-me querer
Estado violência
Deixem-me pensar
Estado violência
Deixem-me sentir
Estado violência
Deixem-me em paz (Titãs, Estado Violência)

 

Tiro, escola, bomba

O permanente estado de violência e tensão que assola o Rio de Janeiro e o impacto disso na vida e educação de crianças e adolescentes só é visível quando a mídia aponta os dias em que as escolas deixaram de funcionar em razão de tiroteios e ou operações policiais. É importante o número. Mas pouco se fala sobre o impacto da violência sobre esses pequenos cidadãos em formação. Sobre o quanto o imaginário e as esperanças ficam comprometidos com o estado de guerra ou de intervenção militar. Para um menino da favela, o medo é do policial. Para um menino do asfalto, o medo é do bandido. Esses dois mundos têm muitos espaços em comum, acordam com barulho de tiro e granada, mas são dois universos com direitos e acolhimentos totalmente diferentes, como insiste em manter essa nossa sociedade injusta.

Outro ponto no limbo é se os dias letivos exigidos por lei estão sendo cumpridos na cidade do Rio de Janeiro até agora, neste 2018, por exemplo. Ou se os dados que temos até então, fornecidos pela Secretaria Municipal de Educação, atendem aos requisitos mínimos previstos na lei orgânica.

Nós, classe média, podemos até correr um certo dia com filho no colo de um tiroteio ou bomba numa região mais próxima, mas é dar a volta no quarteirão e chegar no conforto do condomínio com porteiro, câmera etc. E os meninos da favela na escola com operação policial às 17H? Senhor interventor, as crianças precisam voltar pra casa, comer, tomar banho, dormir, por exemplo. Por que operações policiais às 17h? Seria uma boa pergunta se as perguntas fossem livres durante as entrevistas dos guardiães da segurança.

A sociedade quer números e dados, mas precisa de um retrato sensível dessa infância e adolescência sob a égide da violência.  E que o poder público tenha conhecimento dos dados e dessas histórias para nortear suas ações de segurança pública – um termo inventado porque a priori não se tem exatamente um planejamento do que fazer nessa área no Rio de Janeiro nem no Brasil neste momento.

Em 2017, 165.804 alunos ficaram sem aula por causa da violência no Rio, 467 escolas foram fechadas e 400 unidades estão em locais considerados perigosos, segundo dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Outro material importante de consulta é a pesquisa “Educação em Alvo – Os Efeitos da Violência Armada nas Salas de Aula”, desenvolvido pelo aplicativo Fogo Cruzado, em parceria com a DAPP/FGV (Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas).

Apenas em 2017, confrontos interromperam as aulas em 99 dos 107 dias letivos. Isto é, apenas em oito dias do primeiro semestre de 2017, todas as escolas e creches da rede municipal de Educação funcionaram. Isso é assustador!

A pesquisa “Educação em Alvo” indica que  a zona norte da cidade é o local com maior incidência de troca de tiros, com destaque para as áreas dos Complexos do Alemão (218 registros) e da Maré (119 registros). No Alemão, segundo os últimos dados disponíveis do ISP (Instituto de Segurança Pública), 21 pessoas foram mortas entre julho de 2016 e maio de 2017. Na Maré, por sua vez, 122 pessoas perderam a vida de maneira violenta no mesmo período.

A intervenção militar no Rio de Janeiro já completou 6 meses. O que foi feito para se proteger crianças e adolescentes nas áreas de risco e garantir que tenham acesso adequado à educação e ao ir e vir da escola? O que vimos foi o revoltante assassinato  de Marcus Vinicius, 14 anos, a caminho da escola na Maré.

De acordo com o laboratório de dados Fogo Cruzado, no período de 16 de fevereiro a 15 de maio, houve 2309 tiroteios/disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro. O município do Rio registrou a maior incidência de violência armada, com 1387 notificações.

Fontes do Fogo Cruzado informam que o MP tem dificuldades para fazer a fiscalização na rede municipal – Grande Rio – por falta de dados e organização dos órgãos públicos de educação. A SME foi procurada por mim mas não se manifestou.

Outro ponto de vista grotesco quando o assunto é educação e violência na cidade do Rio de Janeiro é o tratamento dado pela imprensa hegemônica. Nas situações de confrontos em favelas, numa mesma região, o jornal destaca as consequências para escolas particulares e praticamente ignora a escola pública e as crianças e adolescentes que moram na favela onde se deu o episódio de violência. Se buscarmos, por exemplo, situações de tiroteio e operações policiais na comunidade do Santa Marta, em Botafogo, veremos completa distinção, nas matérias da mídia hegemônica, no tratamento dos impactos da violência entre alunos da rede pública (EDIs e escolas públicas da região, que são muitos) e alunos da rede privada (colégios Santo Inácio e Escola Alemã, vizinhos do Santa Marta). Muitas matérias apontam as consequências e ouvem as fontes das escolas privadas – diretores, professores e alunos – enquanto os alunos das escolas públicas – que muitas vezes não conseguem nem voltar para casa em dias de tiroteio – são tratados como estatísticas ligeiras. It´s a long long long way.

16:07

Foi na volta da ida pra escola. Cá pensando que a vida é boa…  o homem da máquina de lavar foi mesmo,  a sinusite com tosse parecem enfim me abandonar depois de quatro dias de antibióticos. Voltar de uma virose é renascer num dia sorridente do sol de inverno. Oi Fernando pipoqueiro, nem a obra faraônica de uma academia na esquina me importa; boas mamografias, lindos ovários e útero da revisão anual; Zu comeu um prato mais colorido que o arco íris, artigo enviado, festa junina amanhã, jogo do Brasil na sexta às 9h e aconteceu comigo. Naquele ponto estreito da calçada da Voluntários com Real Grandeza. Ele escondia a arma no moletom comprido qual um Dunga da Branca de Neve. Perdeu tia, me apontou o cano prata dos filmes, me espremendo gelado pra dentro do shopping popular.  O barulho do cruzamento ajudava a surrealidade da ação e alternei, em segundos, o pânico com uma calma assustadora. Muito jovem de cara limpinha, o menino pediu bolsa celular tudo, terminando por me acoxambrar ao pé manequim de plástico que vestia aquela calça de listras bicolores que está na moda. Foi a conta de proteger o pescoço e ele deu um pipoco pra cima pra comprovar a veracidade das coisas. Bem baixinho lhe disse que minha profissão era escrever sobre essa porra toda, não ter emprego, nem chances, nem dinheiro, viver na correria, fazer um ganho e, no risco, não saber o dia de amanhã. Que eu tenho filho pequeno, que além de tudo a gente tem que lutar diariamente contra o patriarcado, aumentei o volume, dobrar triplicar expediente pra dar conta de tudo. Que em 2017 em apenas nove dias todas as escolas da rede pública do rio funcionaram, que um genocídio negro jovem está em curso no Rio de Janeiro. Berrei! Que é tiro bomba, granada, a barbárie, criança correndo, criança morta. Que eu sou contra babá e empregada, que é o resquício da escravidão, que o maior problema do país não é a corrupção,  mas a desigualdade social. Que todo mundo deveria ter a chance de estudar ou trabalhar com o que gosta, viajar para todos os lugares que sonhar. Ouvir Bethania cantando Reconvexo ou o Almir Sater Tocando em frente, nadar no mar sempre que tiver sol e comer a comida mais maravilhosa do mundo sob os afagos do maior amor. E namorar e dançar e ver os filmes do Fellini e Godard. Chega dona, passa a bolsa, o menino fulo me enquadrou.

Passei minha bolsinha comprada na peruana da calçada em frente. Cartão do metrô, quinze reais de troco do moço da máquina de lavar, visa (bosta, cancelar), os convites da festa junina e na chave de casa morro nuns 20 reais.

saiu voado meu assaltante pela rua da matriz. de longe vejo a bolsinha hippie sacolejando. De frente vejo as bandeirinhas de são João da igreja balançando forte esperando o seu dia.  As vendedoras do shopping popular me oferecem água fresca. Paro na banca do Tonico Pereira e compro fiado uma camiseta que saudade do Brizola. Meto a mão no bolso do casaco, esperta, saco o celular, o que vou postar disso tudo. Plaft. Escorrega no suor. Apaga.

Gustavo Fonseca, o mineiro que cuida do meio ambiente mundial

Por Ana Cristina d´Angelo

maio/2018

Gustavo Fonseca coordena a distribuição de recursos para projetos ambientais em mais de 150 países, estimulando economias sustentáveis, baseadas em formas alternativas de energia, com menor impacto no meio ambiente. Além disso, é um cientista respeitado entre seus pares e criou uma pós em Biologia da Conservação na UFMG, por onde já passaram mais de 400 alunos.

Atualmente, o biólogo e diretor de Operações do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF na sigla em inglês), Gustavo Fonseca, está longe da Belo Horizonte onde nasceu, mas diz que guarda características muito mineiras em suas missões pelo mundo, como a boa escuta e um certo desejo de encontrar consensos.

Bom líder, ótimo político e excelente cientista. Um perfil raro no metiê da sustentabilidade, na opinião de quem já trabalhou ao seu lado, como a consultora de comunicação na área ambiental Isabela Santos. “É um perfil raro e de extrema competência porque, muitas vezes, o profissional é um tremendo acadêmico, mas não tem habilidade para fazer política ou liderar uma equipe”, pontua a consultora, que trabalhou com Gustavo Fonseca na ONG Conservação Internacional.

Para se dar bem nessa área, o executivo do GEF aconselha a especialização acadêmica, que dará uma base sólida para ocupar qualquer cargo na área ambiental, mesmo que muito distante da universidade.

De Washington, onde é a sede do GEF e onde vive, Gustavo Fonseca concedeu a seguinte entrevista ao Boas Novas MG.


Boas Novas MG — Você nasceu em BH, mas sua formação se deu fora de Minas. Qual seu laço mais forte com o Estado, o que guarda das terras mineiras?
Gustavo Fonseca — Sim, fiz o curso de Biologia na UnB e mestrado e doutorado na Flórida (EUA), mas meu laço mais forte com Minas Gerais, além de obviamente ter nascido, é a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde dei aulas bastante tempo. Passei no concurso de 1985 para professor. Mais tarde, em 1989, fundei a pós em Biologia da Conservação. Fui o primeiro diretor do programa, orientei as primeiras teses e hoje é um programa bem-sucedido que já graduou mais de 400 pessoas.

BN — Você tem assentos em vários conselhos de ONGs ambientais, como a CI-Brasil, a Rare, a WWF…
GF — Eu tinha até pouco tempo, mas decidi me ausentar para não dar margem a interpretações de conflito de interesses, não deixar espaço para dúvidas sobre estar beneficiando uma ou outra com recursos do GEF.

BN — Mesmo morando nos EUA você trabalhou para colaboração entre instituições dos EUA e de Minas.
GF — Sim, fui um dos fundadores da fundação Biodiversitas e levei o escritório da Conservação Internacional para BH. Trabalhei mais nessa área de ciência e conservação no que diz respeito à política de advocacy [prática com a finalidade de influenciar políticas públicas e recursos; lobby]. Estruturei um centro de pesquisas aplicadas na área de biodiversidade nos Estados Unidos e, quando já estava pensando em voltar para a UFMG, me convidaram para trabalhar no GEF. Consegui uma licença da universidade para o que estou fazendo agora.


BN — Quais suas principais atribuições no GEF?
GF — É o mecanismo financeiro das convenções internacionais do clima. Sou o diretor de programas, propicio recursos para projetos em mais de 150 países. É um ambiente de negociação em prol do meio ambiente. Meio ambiente é um espaço que é comum a todos e a sociedade demanda soluções que são negociadas de maneira transparente e diplomática. Por exemplo, tenho participado anualmente das negociações para contenção das emissõesdesde 1992. Às vezes é chato, pesado, não anda muito rápido, mas, se queremos soluções duráveis, esse é o trabalho a ser feito. Para costurar todos os acordos, o trabalho é de formiguinha. O GEF trabalha de quatro em quatro anos, passamos um ano arrecadando para, em seguida, passar a gastar os recursos. Agora estamos terminando um ciclo, fase final para obter recursos para os próximos anos.

BN — Que conselhos você daria a quem deseja trabalhar nessa área?
GF — O meu conselho é se especializar antes, tentar adquirir os preceitos científicos mais sólidos se tiver opção e oportunidade. Faça um curso avançado para ter ferramentas importantes para o resto de sua vida. Quem começa a carreira como generalista acaba ficando prejudicado porque não sabe como os preceitos científicos são aplicados. Então é uma maneira menos eficiente de buscar espaço nessa área. Você pode trabalhar com política ambiental, por exemplo, mas a parte científica é importante.

BN — O que pensa de as exigências de redução das emissões serem as mesmas para países ricos e países pobres ou em desenvolvimento?
GF — O que se constata é que essas coisas estão interligadas. Não dá pra ter desenvolvimento sustentável sem ter ambiente saudável que dê uma condição para todos. Essa antiga dicotomia não existe de maneira muito clara. As metas do desenvolvimento sustentável, definidas pela ONU, são um reconhecimento de que essa dicotomia não existe — somos pobres então devemos ser preservados na redução das emissões, por exemplo. O planeta fica cada vez menor e temos de cuidar do que é comum a todos. O que o GEF faz é acelerar a transição dos países pobres para práticas de desenvolvimento econômico sustentável, energia renovável, e tratar de criar mecanismos de compensação que incentivem a floresta em pé ao invés de cortar e desmatar.


BN — Qual a posição do Brasil perante o Fundo?
GF — O país é o segundo maior receptor do GEF, são US$ 170 milhões por ano, cofinanciados por outros doadores, uma carteira grande e de longo prazo. O Brasil tem capacidade instalada, pessoal, instituições sólidas, tende a sofrer menos com as crises políticas que outros países. Nesse ponto, o Brasil tem dado continuidade à maioria dos projetos.

BN — O que você leva de Minas em suas missões pelo mundo?
GF — As pessoas acham que sou mineiro de criação, apesar de ter crescido em Brasília. Me atribuem características de mineiro, como falar muito, ouvir muito, ser diplomático e ter um desejo de achar pontos em comum e não entrar em conflito sem necessidade. Dessa parte da antiga política mineira não consegui me livrar (risos).

 

Boas Novas MG – http://www.boasnovasmg.com.br

Militarização da segurança só aumenta a violência, afirma Anistia Internacional

 

Para entidade, intervenção no Rio “não foi baseada em dados objetivos”; relatório destaca que Brasil lidera as mortes de jovens negros, pessoas LGBT, defensores de direitos humanos e policiais

Fuzileiros navais revistam morador na favela Kelson’s, zona norte do Rio | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

A diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil, Jurema Werneck, disse nesta quarta-feira (21/2) que a intervenção federal na segurança pública do Rio não se justifica tecnicamente nem legalmente. “O Estado não é o líder em mortes violentas no país, nem houve explosão da violência neste Carnaval, como mostram dados oficiais. Não foi uma decisão baseada em dados objetivos”, afirmou Werneck, questionando a decisão do presidente Michel Temer, aprovada pelo Senado na noite da última terça-feira. Para a Anistia, o governo deve explicações à sociedade sobre os objetivos da intervenção federal, sua duração e metas.

A organização divulgou ontem o Relatório Anual sobre a situação dos direitos humanos no mundo. No capítulo brasileiro, um dos destaques foi justamente a crítica à solução militar quando o problema é segurança pública. O texto ressalta que “o Estado brasileiro falhou na implementação de políticas para redução de homicídios ao optar pela militarização voltada à guerra as drogas e confronto, agravando a já crescente violência letal no país”.

Dos dados referentes à violência no ano passado, a Anistia divulgou que, entre janeiro e setembro, segundo fontes oficiais, 494 pessoas foram mortas por policiais em serviço no estado de São Paulo, entre janeiro e novembro 1.035 pessoas foram mortas no estado do Rio de Janeiro e, no mesmo período, 148 no Ceará. E foi bastante dura ao concluir que “o Brasil é duplamente responsável pela crescente violência letal no país”. De um lado, por omissão, com o dever de proteger a vida e, de outro, como agente ativo da violência por possuir uma polícia que mata milhares de pessoas todos os anos.

Uma das prioridades do interventor federal no Rio, o coronel Walter Braga Neto, o saneamento das polícias, também não poder ser considerada justificativa para a medida intervencionista, na opinião da diretora da Anistia. “O Estado já detém os dados de inteligência e as ferramentas legais para reorganizar as polícias. Não é preciso uma medida excepcional para se fazer isso”, criticou.

Segundo estatísticas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Rio ficou em décimo lugar em número de mortes violentas intencionais em 2016, com taxa de 38 mortes por 100 mil habitantes. Caso fosse uma decisão técnica, o governo federal deveria optar por intervir em Sergipe, por exemplo, que lidera o ranking dos estados mais violentos, com taxa de 64 mortes por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional. Ou na Bahia que, em números absolutos, registrou 7.110 mortes violentas intencionais, liderando o ranking do Fórum.

O relatório da Anistia destaca o crescimento da violência no Nordeste, especialmente ligada a disputas pela terra e recursos naturais. “O Brasil todo vive uma situação crítica em relação ao aumento de homicídios e violências. Os ativistas estão sob ameaça, seja no campo ou nas cidades. O Brasil tem obrigações, conhece o problema e não toma as medidas necessárias”, declarou Jurema Werneck.

Nunca se matou tantos LGBTs

O país liderou, em 2017, o número de assassinatos de diversos grupos de pessoas: jovens negros do sexo masculino, pessoas LGBTI, defensoras e defensores de direitos humanos, grupos ligados à defesa da terra, população tradicionais e policiais, aponta o relatório.

Apenas nos nove primeiros meses de 2017, 62 defensores dos direitos humanos foram assassinados, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a maioria morta em conflitos por terras e recursos naturais. Entre o dia 1º de janeiro e 20 de setembro do último ano, o Grupo Gay da Bahia registrou 277 pessoas LGBTs assassinadas no país, o maior número desde o início da compilação dos dados, em 1980.

O aprofundamento da crise política, de acordo com a Anistia, serviu como cortina de fumaça para um grave ataque a direitos já conquistados. Mais de 175 projetos de lei que ameaçam os direitos humanos avançaram em sua tramitação. A Anistia destacou a Lei 13.491/2017, aprovada no ano passado, que viola o direito a um julgamento independente e imparcial, na medida em que estabelece que violações de direitos humanos, inclusive homicídio ou tentativas de homicídios, cometidas por militares contra civis sejam julgadas por tribunais militares.

http://www.ponte.org – Direitos Humanos, Justiça e Segurança Pública

 

Um médico na Favela da Maré – Jornal O Beltrano -junho 2017

O dia a dia de trabalho na área mais conflagrada do país


Por Henrique Peixoto Netto e Ana Cristina D’Ângelo*

Aviso de guerra pelo app

Rio de Janeiro. Meu despertador toca às 6h15. Pego o celular para conferir no grupo dos funcionários como está o clima. Bom dia, bom dia, e começamos a perguntar e a saber como está a área.

Os agentes comunitários de saúde são moradores da Maré e eles nos avisam se tem fogos de artifício no céu (meio de comunicação do tráfico), tiros ou alguma operação policial. Dependendo da situação a gente nem sai de casa, fica esperando para ver se melhora.

O problema é que nem sempre essas guerras começam de manhã cedinho. Pode ser ao longo do dia. Muitas vezes estamos dentro da unidade, trabalhando, e começa o tiroteio. Fechamos a porta e ficamos todos no corredor: médicos, enfermeiros e pacientes. Ouvindo os tiros e a gritaria.

Já vi gente chorando, gente descontrolada, com medo pela própria vida e pela dos filhos que estão nas escolas e creches da região. É uma situação bem tensa. Minha pressão costuma subir nos dias mais agitados.

No front e na divisa

Me perguntam sempre se tenho medo. É arriscado, concordo. Mas também é arriscado andar pelo Rio de Janeiro, pelas ruas e vias expressas.

A unidade médica fica na divisa entre duas comunidades da Maré: a Nova Holanda, controlada pelo Comando Vermelho, e a Baixa do Sapateiro, dominada pelo Terceiro Comando.

Algumas vezes a briga é por motivos pueris. Certa vez, o bandido de um lado pegou o rádio de comunicação do bandido do outro lado. Começou a falar na freqüência da outra facção, xingando, dizendo que eram otários. Isso gerou uma guerra.

O articulador e o dono

Entre os funcionários, tem uma figura esdrúxula que é o articulador. É um cara que tem trânsito entre os bandidos porque é um ex-bandido, considerado na região. A ele cabe passar informações para os administradores das Clínicas de Saúde da Família sobre o que vai acontecer no panorama das facções criminosas.

Mas, quando falamos de Maré, estamos falando de um conjunto 13 favelas; uma área muito extensa e ninguém é capaz de saber tudo o que está acontecendo.

As favelas têm donos e isso é muito real. Só é estranho pra quem não mora lá. O dono é um déspota, determina o que se pode e o que não se pode fazer. E é um julgador também. Uma moradora foi se consultar na clínica com pressão alta, muito aflita. O sobrinho, que é viciado em crack, tinha cometido um roubo na favela. Os bandidos o levaram para que fosse julgado pelo dono da favela. Ela estava esperando a sentença. Por sorte, segundo ela, ele “só apanhou” e ficou de castigo em casa alguns dias.

A dor da gente não sai no jornal

A gente presencia situações de extrema violência. Mortes, prisões, vandalismo, agressões, uma série de coisas-limite e nada sai no jornal. Algumas vezes vi sangue escorrendo na rua e procurei. Comprei todos os jornais do Rio e não achei nada. Me fez lembrar a música do Chico ‘a dor da gente não sai no jornal’.

Os funcionários contam coisas como a polícia entrou, pegou um cordãozinho de ouro. Se se tem R$ 500 reais ou mais em casa, a polícia também confisca. Não são todos policiais, claro, mas ouvimos relatos de atrocidades.

O cenário

Apesar de ter água encanada, a comunidade da Nova Holanda é cortada por um valão. É um fio de água preta com lixo, esgoto, tudo o que se possa imaginar. Cadeira, sofá, bonecas, carrinhos de bebê, urubus, muitos urubus, e, claro, mosquitos. E os agentes comunitários têm que dar palestra falando sobre a dengue neste ambiente cheio de mosquitos. É constrangedor.

Doenças

A gravidez na adolescência é muito comum. E muitas vezes ela vem acompanhada de sífilis. Normalmente o parceiro não se trata por machismo ou medo. A menina descobre que está doente fazendo o pré-natal. E pra nós é difícil trazer os meninos para o tratamento ou falar da importância do uso de camisinha. Muitos bebês nascem com sífilis.

A tuberculose também é prevalente e a maioria abandona o tratamento. Porque há uma melh significativa nos primeiros dois meses e, então, a pessoa desaparece. E volta depois de mais de ano com uma tuberculose multiresistente.

Uma geração e o futuro

Andando pela favela você vê crianças com fuzis, armas pesadas, isso impacta muito. Cada vez mais as armas são de grosso calibre. Tem fuzis de todos os tamanhos, cores, com mira telescópica. Uma coisa surpreendente.

Às vezes fico sem esperança sobre mudanças. Como estas armas chegam ali? Tem um batalhão da polícia dentro da favela e, no ano passado, foi o segundo onde se registrou o maior número de desvios de armas. E não acontece nada.

Nas duas comunidades vemos muitos jovens sem ter o que fazer, andando pelas ruas. Mais meninos que meninas. A evasão escolar é maior entre os meninos. Sem perspectivas, com 13 ou 14 anos, mal sabem ler e escrever. Daí o bandido dá um real para ele pegar um cigarro no bar. Daí pede outra coisa. E, de um momento para outro, já está envolvido. 

O que dá pra fazer

Acho que fazemos pouco, mas o que se faz é muito importante. Com uma tecnologia leve – um estetoscópio, uma balança, um aparelho de pressão, seria possível fazer a diferença e resolver 80% das necessidades da saúde das pessoas na atenção primária. Com tesão pelo trabalho, você consegue fazer coisas. Mas o resultado, hoje, ainda está muito aquém do que eles precisam por direito, por cidadania.

Nas visitas domiciliares, aos pacientes que não conseguem se locomover, você pode conversar, dedicar mais tempo às pessoas. Gostaria de receitar remédios homeopáticos em alguns casos, mas não têm na farmácia do SUS. Mesmo assim, prescrevo homeopatia para quem pode gastar um pouquinho.

Uma conversa com um garoto motivado a entrar pro tráfico pode ser importante e ele dá um passo atrás. Se você oferece uma alternativa, uma conversa, estimula o sonho da pessoa..

Mortes e posto fechado

Apenas nos três primeiros meses de 2017, 14 operações de forças de segurança pública e sete dias de conflitos entre grupos armados deixaram 13 pessoas mortas nas favelas que formam o Complexo da Maré. Durante todo o ano de 2016, foram 17 mortos e 16 feridos em 33 incursões da polícia. Até o momento, as crianças e jovens da Maré ficaram 11 dias sem aula e os moradores já contabilizam 17 dias de postos de saúde fechados, inclusive no dia da campanha de vacinação.

Para chamar atenção da sociedade e exigir uma solução do poder público para a escalada da violência na Maré, foi realizada, no último dia 24, a Marcha Contra a Violência na Maré. O evento é organizado pelo Fórum “Basta de Violência! Outra Maré é Possível”.

O Fórum também contesta a falta de transparência, por parte do Governo do Estado, sobre os motivos da atuação violenta nas favelas do Rio, em uma estratégia que se repete há anos, e que eles avaliam não apresentar resultados efetivos. De acordo com o Fórum, durante os quinze meses em que as Forças Armadas ocuparam o conjunto de favelas da Maré, foram gastos R$ 1,6 milhões por dia, totalizando R$ 600 milhões durante todo o período de ocupação. O órgão alega que, em contrapartida, entre 2009 e 2015 (sete anos), o investimento da Prefeitura em programas sociais na região foi de R$ 303,63 milhões – metade do investimento realizado com a Força de Pacificação em um ano e três meses.

Ainda no governo de Sérgio Cabral, o plano era levar o programa de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) para o Complexo da Maré. Mas o tamanho do território e as diferentes facções criminosas que lá atuam dificultaram a aplicação dessa estratégia.

O Estado do Rio de Janeiro já recebeu 38 UPPs. A polícia pacificadora conta com um efetivo atual de 9.543 policiais. As UPPs em operação abrangem 264 territórios. Dados da secretaria de segurança pública mostram que a criminalidade diminuiu a partir de 2008, quando foi instalada a primeira UPP, na comunidade Santa Marta. Mas, desde 2014, diversas regiões têm sofrido com a volta da violência.

* Henrique Peixoto Netto é médico há 38 anos. Há seis anos trabalha na clínica de saúde da família da Nova Holanda (Complexo da Maré). Foi secretário executivo da ONG Médicos Solidários e gerente de projetos do Médicos Sem Fronteiras.

Ana Cristina D’Ângelo é jornalista mineira radicada no Rio

Quando não mata, violência doméstica deixa marcas e dura batalha judicial para as mulheres

Reincidência das agressões alcança 42,5%, e para enfrentar traumas dessa violação constante vítimas criam redes de solidariedade e empoderamento

Por Ana D’Ângelo* para Revista Gênero e Número 

Fernanda Flores está em Novo Hamburgo (RS), Kátia Osório em São Paulo, Marina de Menezes é brasileira vivendo em Tijuana (MEX) e Solange Revorêdo mora no Rio. Têm idades e classes sociais distintas. Todas foram vítimas de violência doméstica praticada pelos ex-parceiros e os denunciaram à Justiça. Alguns foram condenados por parte dos crimes, outros nem isso. Todos permanecem em liberdade. Elas estão vivas, mas carregam marcas.

Outras sinas aproximam estas mulheres. Viveram longos anos com seus algozes e passaram por diversos tipos de violência, mas foi uma agressão física atroz o que as levou a romper o silêncio para tentar outra vida. Elas não são casos raros no Brasil. Em 2015, chegaram aos hospitais brasileiros mais de 162 mil mulheres vítimas de violência doméstica, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Já no balanço do primeiro semestre deste ano da Central de Atendimento à Mulher (180), que tem status de disque-denúncia, 41% das mulheres que relataram violência doméstica estavam há mais de dez anos com os agressores. O conteúdo dos 67.962 relatos de violências somados neste mesmo período mostra que 51% dos casos foram de violência física.

“A gente não entende muito todos os níveis de violência, escutamos coisas como ‘hoje você não pode sair’, ou ‘essa roupa está muito apertada’, depois passa a ser um ciúme doentio, perseguição, ameaças até que fica insuportável”, conta Marina de Menezes, que sofreu violência doméstica do ex-marido mexicano por mais de três anos. Na última vez, estava em videoconferência com um colega de trabalho, quando seu interlocutor presenciou o marido espancá-la e decidiu chamar a polícia. Marina foi aconselhada pelos policiais a não prosseguir com a denúncia porque teriam de levar os dois “para saber quem estava falando a verdade” e a guarda das crianças seria dada ao Estado. Marina desistiu da denúncia e as agressões continuaram. Quando decidiu reagir e dizer a ele o que sentia, foi golpeada com o sequestro dos dois filhos. Abraham, o ex-marido mexicano, fugiu de Tijuana, onde viviam, para Cidade do México, a mais de 3 mil quilômetros de distância.

Mariana está há nove meses sem ver os filhos porque o pai impede que chegue perto. Com ajuda de dois advogados e do consulado brasileiro no México, ela tenta resolver a situação. Correm dois processos de divórcio: um na Cidade do México, iniciado por Abraham, e outro, em Tijuana, iniciado por Marina. “Eu entrei com o amparo, que é como se fosse uma medida cautelar no Brasil, que foi o que fez com que conseguíssemos frear o processo da juíza da Cidade do México”, explica. No entanto, essa juíza não reconhece que o processo parou, ainda que a medida tenha vindo da justiça federal. Segundo Marina, a Justiça mexicana, como a brasileira, é lenta, mas ela confia que a verdade vai prevalecer.

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Quando não termina em morte, a violência doméstica traz graves consequências para a saúde da mulher e, para romper este ciclo, ela ainda enfrenta a cultura machista e a fragilidade e insuficiência das instituições de amparo. A promotora Valéria Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do Ministério Público de SP, diz que, muitas vezes, a mulher adoece antes que perceba ser vítima de violência doméstica. As principais doenças geradas pela conduta do agressor são crônicas, como estresse pós-traumático, doenças de pele, do trato digestivo, urinário e doenças sexualmente transmissíveis (DST). Com estado debilitado e baixa auto-estima, esta mulher fica mais estigmatizada perante um julgamento, por exemplo. “A mulher tende a ficar deprimida e abusar de drogas. E, perante o Júri, é apresentada como alguém que precisa de remédios, com discurso fragmentado, choroso, enquanto os homens estão seguros, negam veementemente os crimes e se colocam muitas vezes como vítimas, corroborando nossa cultura machista”.

Solange Revorêdo lembra o medo de denunciar. “Parece que tem uma camisa de força, você não consegue se mexer. E quem de fora vai testemunhar contra um policial que tinha quase matado a mulher dentro de casa?”, indaga. O marido de Solange já respondia pela Lei Maria da Penha, quando voltou a agredi-la. O pai teria colocado o filho de quatro anos para ajudá-lo a limpar o sangue da cozinha de modo a eliminar o flagrante.

“Momentos felizes pra uma mulher agredida é o máximo”, acrescenta Kátia Osório, que acreditou por dez anos que o marido iria mudar. O balanço do 180 do primeiro semestre de 2016 aponta que quase 40% dos casos denunciados acontecem diariamente e a reincidência é registrada em praticamente metade dos casos de atendimento feminino (49.2%), de acordo com dados do Mapa da Violência 2015 (Sinan). A análise do Mapa da Violência é que esse nível de recorrência deveria ter gerado mecanismos de prevenção, o que não parece ter acontecido. Essa exposição constante da vítima à violência não raramente leva à morte, como observa o estudo A violência doméstica fatal: o problema do feminicídio íntimo no Brasil, produzido pelo Ministério da Justiça. “Na vasta maioria dos casos analisados, foi possível depreender que o homicídio se deu não como um evento descolado da vivência do casal, mas sim como momento culminante de uma trajetória violenta e que nunca foi levada ao sistema de justiça”, aponta o documento.

Diante da Polícia e da Justiça, mais aspectos unem estas mulheres. Demora na liberação de medidas protetivas, delegacias especializadas que não funcionam 24 horas e despreparo do judiciário para dar celeridade às ações.