‘Engenharia de um crime” aponta negligência da Vale em Brumadinho

13/12/19 por Ana D’Angelo, especial para Ponte

Uma das imagens que ilustram o livro mostra bombeiro procurando sobrevivente na lama em Brumadinho | Foto: Cristiane Mattos/Divulgação

Baseado nas investigações da Polícia Federal, o livro-reportagem “Brumadinho, a Engenharia de um Crime”, dos jornalistas Murilo Rocha e Lucas Ragazzi, traz uma contextualização inédita e minuciosa sobre a maior tragédia socioambiental do país: o rompimento da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, que provocou a morte de 270 pessoas.

O livro já foi lançado em Belo Horizonte, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro e traz detalhes da investigação que passaram batido pela imprensa, com reprodução de documentos e registro de depoimentos que comprovam a negligência da mineradora. Além disso, faz um paralelo entre as duas tragédias-crimes, Mariana e Brumadinho. “É impossível entender a sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, sem voltar até a quinta-feira, 5 de novembro de 2015. É imperdoável ter existido Brumadinho após ter ocorrido Mariana”, dizem os autores logo na apresentação.

Outro aspecto fundamental é mostrar como é a dependência econômica dos municípios e do estado de Minas Gerais da mineração –  7,5% do PIB do estado está ligado à atividade mineradora – levou a fiscalizações duvidosas e deu uma espécie de carta branca para a Vale atuar da maneira que fosse mais rentável e não necessariamente a mais segura.

Confira a entrevista com o jornalista Murilo Rocha, um dos autores do livro.

Ponte – Vocês chegaram ao crime cometido pela Vale mas não colocaram o nome da empresa no título. Por quê?

Murilo Rocha – Pensamos em alguns títulos com o nome da Vale, logicamente. Mas não desistimos em razão de eventuais complicações judiciais. Se essa fosse uma questão, nem teríamos escrito o livro, pois da primeira à última página a empresa e muitos dos seus funcionários são citados. A questão foi mesmo editorial. A ideia de “Brumadinho: A Engenharia de um Crime” agradou a todos quando surgiu. Mesmo não tendo o nome da companhia, esse título remete sobre qual tragédia estamos falando logo de cara e ainda há um subtítulo explicitando a existência de práticas criminosas, como negligência e falsidade ideológica, por trás do rompimento da barragem I do Córrego do Feijão, da Vale. Se a empresa adota Tragédia de Brumadinho para construir uma narrativa clean, sem culpados, algo como uma fatalidade. O livro não vai neste sentido, muito pelo contrário. Há o detalhamento de empresas e funcionários envolvidos na administração da mina do Feijão e da barragem. Mesmo não sendo o objetivo do livro demonizar ninguém nem criar vilões, ele é uma clara denúncia sobre a mineração e todos os seus agentes no país. Incluindo a Vale, logicamente.

Ponte – Qual foi o momento mais tenso na apuração e escrita?

Murilo Rocha – Todo o processo de produção e escrita sobre uma tragédia com a morte de 270 pessoas, a maior tragédia socioambiental da história do país, é muito tenso. Há uma carga emocional envolvida desde o primeiro dia e ela ainda paira sobre nós. E vai continuar. Não é fácil entrevistar familiares de vítimas do rompimento da barragem da Vale e relatar seus dramas. Há uma enorme responsabilidade sobre os nossos ombros, acrescida pelo fato de também estarmos nos propondo a desvendar os bastidores desse episódio. Estamos falando da Vale, uma das três maiores mineradoras do mundo. Mesmo a empresa não tendo exercido nenhum tipo de pressão ou colocado obstáculos para a produção do livro – a não ser a demora de dois meses para responder as perguntas -, há uma pressão natural pela natureza do tema e os personagens envolvidos, muitos deles peixes grandes.  E tudo isso num curto espaço de tempo, foram cinco meses entre a ideia de fazer o livro e a publicação.

Ponte – A imprensa pouco cuidou de fazer uma ponte entre as duas tragédias-crimes Mariana e Brumadinho. Esse seria um dos trunfos do livro?

Murilo Rocha – Sim, talvez esse seja um dos méritos do livro, fazer uma ponte entre os rompimentos da barragem de Fundão, em Mariana, em novembro de 2015, e o da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, em janeiro de 2019. E o objetivo ao fazer esse link é justamente explicitar a autoregulação do setor minerário em Minas Gerais diante de um poder público precário e omisso no seu papel de licenciar, regular, fiscalizar e. se necessário, punir eventuais descumprimentos da legislação. Para além dessa questão, ao aproximar Mariana e Brumadinho, pudemos verificar a reincidência de erros, negligências e desculpas por trás das duas tragédias. Há também atores repetidos nesses dois episódios. É importante lembrar: a Vale é uma das controladoras da Samarco, protagonista do desastre de Fundão.

Murilo Rocha e Lucas Ragazzi | Foto: Mariela Guimarães

Ponte – A dependência de Minas Gerais e do Brasil, de forma geral, da mineração, bem como as campanhas de todos os partidos abastecidas pela Vale quando ainda era possível este tipo de doação, seria um fator fundamental para a fiscalização frouxa, leis ambientais insuficientes e tragédias como essas? Qual a solução?

Murilo Rocha – Sem dúvida, a dependência econômica dos cofres de prefeituras, governos estaduais e a relação estreita de muitos parlamentares com as mineradoras são o pano de fundo dessas tragédias. Essa relação cria distorções nas legislações, omissões na hora de fiscalizar e uma enorme boa vontade na para licenciar atividades mineradoras. Um mês antes da barragem da Vale em Brumadinho romper, ela havia obtido, no dia 11 de dezembro de 2018, três licenças junto ao Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam). A barragem I estava autorizada a funcionar por mais dez anos. Sobre possíveis soluções, elas existem, sabemos disso. O processo do tratamento a seco do rejeito do minério de ferro é uma delas. É um processo mais caro, mas põe fim a essas enormes barragens, verdadeiros lixões da mineração. Um maior rigor do poder público também é fundamental. Mas, neste momento, quando há um incentivo do governo federal ao descumprimento de legislações ambientais de norte a sul do país, fica difícil ser otimista em relação há soluções. Continuamos reféns dos interesses econômicos. Essa é a triste realidade de hoje no Brasil, mesmo com o saldo trágico de mortes e devastação ambiental de Mariana e Brumadinho.

Ponte – A Samarco voltou a operar em Mariana sem que tenha reparado todo o dano causado em 2015. O que acham que acontecerá e como acontecerá com as operações da Vale, possíveis punições e o ressarcimento de todos os afetados por Brumadinho?

Murilo Rocha – O ressarcimento dos afetados é o mínimo que deveria ocorrer. E por incrível que pareça talvez ocorra primeiro em Brumadinho do que em Mariana, onde passados quatro anos o processo de reconstrução das casas destruídas do antigo distrito de Bento Rodrigues ainda engatinha e as indenizações ainda não foram pagas em sua totalidade. Um descaso completo. Sobre a volta das operações, o ideal é que ocorressem em um novo cenário do setor privado e do poder público. Mas não estamos vendo isso. Pouca coisa parece ter mudado. Minas Gerais está hoje em alerta, com a população em suspense sob o risco de novos rompimentos ocorrerem. Uma situação absurda. Temos de denunciar diariamente essa situação.

Impressões de O Silêncio do Rio Comprido e entrevista com o autor

Publicada em O Beltrano – junho/2019


Por Ana Cristina DÂngelo

Divulgação

De: Ana

Para: Lélio Fabiano

Querido Lélio!

Salve, salve! Te escrevo desde a varanda da casa paterna, contemplando o final do dia, céu rosa de inverno, a impressionante vista do céu sem edifícios. “Como vim parar aqui? Por que fui parar lá?”. O livro eu li no Rio mesmo, imaginando putarias e homilias.

Foi com muita alegria que recebi seu primeiro romance. Com muitas outras sensações terminei sua leitura. Acho que você escreveu o livro de uma geração formada no caldo católico apostólico romano de nossas cidades do interior. Sua Alegre tem mar? Imagino que não porque seria uma referência forte demais pra não ser citada. E tenho pra mim que o catolicismo não vinga majoritário onde tem um bracinho de mar. Olha, eu ouvi sua voz muitas vez, e faz tempo não te vejo. Pretensamente entendi um pouco o tom professoral – ninguém passa impune ao latim – e a fome de falar e de viver que acaba comendo um pedacinho das palavras.

Guardadas as diferenças geracionais, são tantas referências que me falaram ao coração que nem sei pontuar. Mas o medo, angústia, alguma raiva e uma certa microrevolução – porque no final tende-se a sobreviver – reverberaram aqui. A infância, a adolescência, a formação do caráter junto com paus, bucetas, suores, desejos, pentelhos e o véu religioso, coroinhas, batinas, incenso, entra e sai de missa. Não vou esquecer a definição do cheiro das igrejas. Minhas narinas infantis. Sobretudo o medo, esse raio de inferno e céu que hoje meu filho tira onda e desmonta com uma pergunta suave na minha primeira investida-reza: mas o anjo não me responde, por que devo falar com ele?

São tantas histórias. E lembranças que andavam adormecidas. Dos sete aos quinze mais ou menos me lembro de ir confessar semanalmente: cuidava de começar com falei palavrão, desobedeci meus pais e enrolava a língua pra desviar do principal: pequei contra a castidade sozinha hahahaha. Muita análise depois, podemos rir e até se gabar de não ter virado uma coisa pior com tanta repressão. Quanta exigência e castigo pra começo de vida. Eu realmente tive pânico de pensar sobre isso durante muito tempo, mas hoje tento tratar com humor as cenas das missas em casa, aquela hóstia gigante que era a do padre, algumas vezes engastalhada, pedindo vinho. As risadas no meio da ´prática ´ que nos obrigavam a fugir pro quarto dos fundos. Meu tio era bispo e tinha a prerrogativa da missa em casa. Coisa ilustre. Minhas tias cantavam no coral da orquestra Ribeiro Bastos com um longo laranja. Coisa fina. Também tento relevar os dogmas caretas quando penso no canto gregoriano, nas pinturas, arquitetura das igrejas, nas orquestras e na doidera do ser humano de buscar uma transcendência por medo da morte.

Muito interessante o capítulo dedicado à cultura, um legado inegável dos seminários. Um apreço pela língua, cinema, literatura. Acho formidável que muitos padres de fato sabiam o que era fodástico no mundo das artes acatando tantos silêncios na direção oposta. E aí você se agarrou e foi por aí criando uma vida, seus filhos tão queridos, Leila e Robertinho, belezuras. Além da escola de comunicação onde estudei e que você teve papel importante na criação.  

Aproveitei seu livro, como você pode ver, pra fazer mais uma vez minha catarse. Obrigada! Vou aproveitar agora a carta grande pra fazer, juntos, o jornalismo nosso de cada dia, nossa escolha de vida e tábua de salvação hehe Dar outros vôos pro Silêncio do Rio Comprido, pra outros reconhecimentos e reverberações por aí.

Seguem algumas perguntas, se puder responder, agradeço, pra gente publicar no site O Beltrano. Grande abraço, grande livro, aguardando o próximo, fincado no erotismo rs

beijos

De: Lélio Fabiano

Para: Ana

Ana querida, pra responder depressinha digo-lhe que seu e-mail entra nos top, não sei se dez, se cinco ou quantos… Tenho recebido muitas respostas/avaliações e a sua me tocou, profundamente, pela idade, pelo gênero e pela memória do cheiro dos véus desgastados e guardados em gavetas… Até agora, era mais de meninos que passaram por internatos… Mas são sempre respostas que me tocam, me recompensam, me sensibilizam e por aí vai…

Obrigado demais e meu beijo. Vamos lá nas respostas, na sequência das perguntas, abaixo:

  1. Dos personagens do livro acusados dos assédios narrados – o cardeal do Rio na década de 50, Dom Jaime de Barros Câmara, o padre responsável pelo alojamento e outro do alisamento barrigal, imagino que todos já tenham morrido. Você teve notícia deles ao longo da vida? Fez algum movimento de denúncia? Por que não citou todos os nomes? 

O cardeal Câmara, que não passou daquela conversa, já era velho… Os dois padres referidos também já passaram desta para o nada… Não citei nomes pelo próprio estilo literário instintivo adotado e, no próximo, já começado, também será assim com personagens bem outros. O livro não foi escrito para denunciar pessoas, mas, sim, uma situação penosa da Igreja católica que, hoje, é bravamente encarada pelo “hermano” papa Francisco, que enfrenta uma série de vicissitudes com a Cúria romana.

  1. Perdão, virtude cristã, você nutre depois de tudo vivido? 

Um dos elogios que me têm gratificado é que o meu livro não tem rancor. Perdão é coisa da igreja e eu saí dessa…

  1. A opção da terceira pessoa te deu afastamento necessário para revirar as memórias? 

Comecei a escrita – literalmente, quando a iniciei – na primeira pessoa. No entanto, havia passagens que, literariamente, eu achava melhor a terceira pessoa. Depois, ficou a primeira pessoa só para o autor-  protagonista-narrador-analisante psicanalítico contando, diretamente, para o leitor suas aventuras eróticas… Enfim, uma transgressão meio minha e que o leitor acaba acatando, sei lá!

  1. Como descreveria seu livro, memória-ficção, memórias, romance de formação, quais fronteiras e gêneros dizem respeito a ele? 

Um colega jornalista iniciado nas lides literárias, um dia, me rotulou o livro como romance fragmentário; eu acrescento memorialístico, sem ser, stricto sensu, autobiográfico.

  1. Acompanha os movimentos no Brasil para esclarecimento dos crimes da Igreja em relação a assédio sexual e acobertamento dos responsáveis?

É importante se diga que eu quis fazer Literatura, escrevendo um romance. Um Autor deve querer dizer alguma coisa. Como jornalista eu quis cobrir uma pauta contemporânea que é o acobertamento dos assédios sexuais na Igreja e os próprios assédios; e eu fui testemunha e vítima. Contei sob um prisma mesmo de autoridade e estão lá o Latim e outras informações filosófico-tomistas que não deixam que duvidem…

SERVIÇO: O Silêncio do Rio Comprido – Lélio Fabiano dos Santos

Onde comprar em BH: Livraria da Rua, Leitura do Bulevar Shopping e do Pátio Savassi. 

Editora: pedidos@mazzaedicoes.com.br

Tel. (31) 3481-0591 

manifestiro

O policial armado até os dentes, sem olhar pra mim: “não depende da gente, tem muito filho de vagabundo aí.”
A pergunta era uma sugestão pra se evitar operação policial em horário de entrada e saída das escolas. Eu pensava em mim e no meu filho, mas sobretudo nas crianças moradoras do Santa Marta, que talvez nem tenham ido pra escola hoje, quando o tiroteio começou antes das 7h e os helicópteros seguem razantes até agora.
O espaço: entrada do Santa Marta, Botafogo, zona Sul, Rio de Janeiro, Brasil.
A resposta deste policial é pra desabar qualquer um, até o mais ferrenho lutador dos direitos humanos. Ele, que provavelmente já se confrontou ou ainda se confrontará com um colega de de infância, do lado de lá. Vestido com sua armadura policial, este suposto nosso defensor pobre diabo mal informado quer guerra com o bandido, vagabundo e acredita que o bem vencerá o mal. A mãe do coleguinha da natação pensa assim tbem: “Até agora apenas o homem de bem não está armado”, pra justificar sua simpatia à flexibilização da compra e porte de armas no Brasil. Então ta. Permanecemos partidos, o homem de bem, o homem do mal ( o bandido que mora no morro e vende a droga pro homem de bem, diga-se). O homem de cima do muro está preocupado com o desempenho do mercado.
Bom, se já estamos perdidos, digo essa geração, então vamos supor que nos preocupamos com as crianças, com o mundo que esses carinhas vão viver aí pra frente. Vocês realmente acreditam que tantos muros nos farão felizes? O muro da favela-asfalto, o muro do condomínio, o muro da escola, o cone barrando o pedestre, o abismo da comunicação, nossas bolhas e paralisia.
Não resta dúvida que partilhamos este espaço, Brasil, trópicos, Rio de Janeiro, zona sul, aqui é todo mundo man. Por alguma ilusão, cremos ser ainda guiados pelas leis da cidade oficial, mas corremos com barulho de tiro, acatamos o policial que pensa que o filho do bandido tem culpa no cartório e deve morrer, andamos pela rua quando a calçada desaparece, pagamos o preço da Europa e ganhamos em réis. Berramos nas redes pelos nossos direitos, feminismos e corremos pra empregada e a suplente, perpetuando mais esse muro: um mercado que nos quer mães e executivas e cheias de serviçais baratos, dividindo mais uma vez a sociedade, garantindo o controle e a alienação geral, inclusive dos nossos corpos, filhos, casas.
É Bom lembrar que o espaço é compressão de história e tempo. Não é nada natural, galera! Nosso espaço e tempo são sociais, em construção através e por nós.
A perspectiva educacional desanima mais ainda. Um verdadeiro desmonte e uma caça a quem minimamente quer pensar ou discutir esse projeto de país. Enquanto isso ouço mamãe coragem na voz da Gal. Mamãe mamãe não chore. A vida é assim mesmo.
Né não gente. Bora pra rua, Eu vou, eu li Brasil, Nunca Mais muito novinha. Como Tinha Dom Paulo Evaristo Arns no coletivo que pesquisou os arquivos dos tribunais que resultaram na publicação do livro minha mãe me deu o livro, católica que sempre foi. Pra mim foi um tapa brutal, era o meu país, eu mal conseguia dormir enquanto lia o livro, o Estado do meu país que fazia aquilo e não se podia falar o que se pensava e pau de arara, choque, torturas psicológicas. Eu fiquei aterrorizada.
64 Nunca Mais! Ação é política, política é ação, política somos nós. A mutação filosófica é tão importante quanto a genética, já dizia meu ídolo Milton Santos. Rumo à nova consciência de ser mundo e no mundo.

O canto do Tuiuti

Em entrevista exclusiva para O Beltrano, Thiago Monteiro, diretor de Carnaval da Paraíso do Tuiuti, diz que a Rede Globo conhecia o enredo da escola. Para ele, surpresa não é desculpa


Por Ana d´Angelo

Do Rio de Janeiro

11.02.2018 – Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Gabriel Nascimento | Riotur

“O que não tivemos esse ano foi medo, fomos para arriscar tudo”, diz o diretor de Carnaval da Paraíso do Tuiuti, Thiago Monteiro, com a voz rouca de tanta festa pelo segundo lugar, com gosto de primeiro, no Carnaval do Rio. A Tuiuti causou, lacrou e ‘desenhou’ o golpe na avenida. Lavou a alma de boa parte da população. “Não sei se da maioria”, ri Thiago, já se preservando com a fama e o sucesso repentinos. “Mas posso dizer que a identificação e aceitação da nossa proposta foram maiores que o imaginado”.

A Tuiuti criou um termo ao qual nenhum intelectual se arriscara: ‘manifestoches’. Ocupando uma ala inteira, estavam os ‘paneleiros’ montados em patos da Fiesp e manipulados como marionetes pelas gigantescas mãos da mídia hegemônica. Calou comentaristas da Globo e encerrou o desfile com um destaque tenebroso: o presidente Michel Temer representado como um vampiro, com a faixa atravessada no peito e dólares como adereço em torno do pescoço. Conhecida pelo sobe e desce do grupo especial, e última colocada no ano passado, a Tuiuti não titubeou em lançar todas as fichas. Mostrou carteiras de trabalho fuziladas e chocou geral com escravos açoitados na comissão de frente.

11.02.2018 – Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Mídia Ninja

Thiago Monteiro contou ao O Beltrano que repórteres e comentaristas da Globo foram ao barracão, conheceram todos os carros alegóricos e obtiveram todas as informações sobre o enredo deste ano antes do desfile. “Posso te garantir que não foi surpresa para eles”. Falta de informações foi uma das justificativas para o laconismo da transmissão oficial na passagem da escola, com comentaristas evitando dar detalhes daquilo que era óbvio: a forte crítica ao governo e aos setores da sociedade que articularam o golpe, incluindo a própria emissora.

 

Rio de Janeiro – Desfile da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do Carnaval 2018 das escolas de samba do Grupo Especial do Rio (Gabriel Nascimento/Riotur)

Abaixo, a integra da entrevista exclusiva de Thiago Monteiro ao O Beltrano.

Você já falou que a escola queria provocar, mas imaginava o tamanho da treta? Tinha noção do apoio e também das críticas que viriam na sequência do desfile?

A gente não sabia o que ia alcançar. Sabia que poderia mexer com alguma coisa, mas que seria tão bem recebida assim foi uma surpresa. O povo se viu, pelo menos parte do povo, não sei se a maioria. Com certeza , um dos segredos do sucesso é a comunidade (do Morro do Tuiuti) se ver no desfile.

O enredo foi decisão coletiva? Como foi desenvolvido?

A idéia original era ficar na Lei Áurea, no período da escravidão no passado. Quando fomos nos aprofundando, vimos que poderíamos falar da exploração do homem pelo homem e chegar nos dias atuais. Jack Vasconcelos, o carnavalesco, é o condutor da parte artística, mas a presidência e diretoria ficaram juntas o tempo todo, decidindo e apoiando. O que não tivemos esse ano foi medo. Ano passado, a escola estava no último lugar. A gente não podia ter medo de nada, tudo menos medo. Fomos para arriscar e ver que bicho ia dar.

Perder por um décimo é…

Tem uma pontinha de engasgo. A Beija-Flor foi linda na avenida, apoiamos e estamos muito felizes com tudo e parabenizamos as duas escolas. A crítica deles representa o povo sim, violência, morte… o povo tá bem representado ali. Fizemos críticas contundentes. As duas escolas transmitiram um pouco do anseio de parte da sociedade.

11.02.2018 – Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Gabriel Nascimento | Riotur

Manifestoches já é novo vocábulo da língua portuguesa. Quem criou?

Jack Vasconcelos. Se você pensar, a escola poderia estar numa charge de jornal. Essa é a idéia. Não respondemos a nada, mas perguntamos sobre tudo. No momento das manifestações, quem se manifestou à época foi manipulado ou não? A carteira de trabalho sendo fuzilada é uma pergunta: nossos direitos sociais e trabalhistas estão sendo fuzilados? A escola perguntou e o público respondeu afirmativamente. Mas é importante dizer que a escola é apartidária, é um grêmio recreativo cultural, trabalhamos com alegorias. A Tuiuti é apenas um instrumento para a discussão. A gente nem se preocupou com o ano eleitoral. Quem acha que não houve golpe, por exemplo, acha que a escola exagerou. Fui acusado de várias coisas, inclusive de ser… como se fala mesmo… esquerdopata (risos).

 

Rio de Janeiro – Desfile da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do Carnaval 2018 das escolas de samba do Grupo Especial do Rio (Dhavid Normando/Riotur)

Sobre as críticas, resumidamente, as vozes contrárias dizem que vocês criticam a reforma trabalhista mas não assinam carteira dos funcionários, não pagaram indenização à família da radialista morta no acidente do ano passado e que receberam dinheiro do Minc.

Captamos parte dos recursos pelo Ministério da Cultura, que fomenta a cultura. Não estamos em momento de censura. O ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão foi ao barracão um mês antes do Carnaval e em nenhum momento pediu para mexer em nada. Nenhuma escola de samba assina carteira de funcionários, eles trabalham por empreitada, muitos são MEI, que pagam seus impostos e trabalham como autônomos. Quem fez essa crítica desconhece a realidade das escolas do Rio.

Sobre as indenizações, a escola ajudou as vítimas e parentes de vítimas. Duas não aceitaram e foram à Justiça. Então, quem decide é a Justiça. Nós fizemos nossa parte dentro dos limites da capacidade da escola, porque o que aconteceu foi um acidente, não um ato deliberado.

Como a escola se financia e quanto custou o desfile?

Televisão que paga os direitos da transmissão, ingressos da Liesa, venda de CDs, financiamento próprio. Conseguimos nesse ano financiamentos privados através da Lei de Incentivo, do Minc. Nenhum desfile custa menos de R$ 5 milhões.

11.02.2018 – Carnaval Rio 2018 – Desfile na Sapucaí – Paraíso do Tuiuti – Grupo Especial – Raphael David | Riotur

Depois de todo esse sucesso de vocês e se fosse possível a Globo retransmitir você acha que seria diferente? (O desfile das campeãs neste sábado 17/02 só será transmitido pela TV BRASIL  – o desfile começa às 21h15, mas a entrada da Tuiuti está prevista para 1h35, já na madrugada de domingo)?

Confesso que não vi a transmissão da Globo, mas é importante dizer que os narradores vieram ao barracão, os repórteres de pista também. Conheciam tudo, o projeto todo e gostaram muito, elogiaram. Posso te garantir que não foi surpresa para eles. Eu fui uma das pessoas que apresentou o projeto para eles. Não posso criticar, porque não vi a transmissão, mas surpresa não foi.

Verás que um filho teu não foge – A luta

Aqui recolhida nesta sofisticada arte do escrever, caneta, bloquinho, pouca luz no quarto dos fundos. Que bobagem, somos quarenta e poucos milhões com medo, sessenta milhões de corajosos e uns quinze em cima do muro, com medo também. Corajosos, o que vocês leram? Onde passaram a infância? Como era a mãe de vocês? Quais filmes os formaram? E as paisagens? Medrosos, o que vamos falar com nossos filhos? Para onde vamos escrever? Migrando do Face para o Signal estaremos todos seguros? Se todos segurarmos uns nos outros sobreviveremos? Se ter coragem é agir com o coração, por que tememos? Esse xadrez não pode nos encurralar.

Perdemos gente no caminho. Temos todos perdidos com seus celulares e máquinas de fake news. Eduque seu filho para o mundo digital, me alerta a amiga, a luta será longa. Já tinha pensando em corte, costura, cozinha, autonomia para os novos tempos. Mas como preparar para o teatro de horrores, o cinismo, a desfaçatez e o completo desprezo pelo diferente? A macropolítica penetrou nossos poros, jantares, festas de aniversário, nosso blábláblá tão inteligente virou pó. Seguimos acordando, um pouco ressabiados com nossos símbolos, desconfiando das redes sociais, ávidos por um sinal qualquer que aponte para onde vai a manada. Cada vez mais fechados na nossa bolha, crendo em análises certeiras aliviadoras de peles privilegiadas. Por que o Capão Redondo votou contra a democracia?  Mano Brown deu a letra dissonante, dias antes do Dia B. O que estamos comemorando? Deu ruim gente, falhou, o povo não tá se vendo, recuar, voltar pras bases, refletir, recolher-se. Resistir também consiste nisso. Um aprendizado duro fora do armário e sem máscara. A luta do nosso tempo, felizmente, apontou nossos aliados. Perdemos gente no caminho, de novo. Encontramos outros. Quem vai defender o Túlio, lá em São João Del Rei, se num jantar com o companheiro encontrar ao lado alguém legitimado pelo líder a ofender, humilhar, desprezar o que lhe é diferente? Leve-me ao seu líder. Ai que vergonha, diz a formiga do meme. Me ensina a viver num país onde o líder não me representa uma mísera vírgula. Ele já adiantou que nosso lugar é cadeia ou exílio. Dorme e acorda com essa informação, mano. Amealhamos nossos sonhos, escalamos nosso esquete, veio o vendaval e nenhuma perspectiva de bonança. Cadê certeza de que palavra e sentimento terão valor? Onde enfiar tanto repertório amoroso se não conseguimos ainda um olho no olho dos nulos e brancos? It´s a long way já cantava Caetano no espetacular álbum gravado no exílio em Londres. Se Adélia Prado for chamada a colaborar, com Seu Ensinamento, com certeza dirá: não me falou em democracia, essa palavra de luxo.

 

Carta coração Para Adrianna Eu

Hj que me vejo lançada a cuidar da minha mãe, penso que é importante fazer uma coisa importante como escrever uma carta. O chamado ao cuidado me atravessou junto dos nossos diálogos, do seu trabalho e da minha observação admirativa.

O que seria um encontro mediado por um homem , agora se revela um encontro de duas mulheres, seus trabalhos, desejos,   filhos – você tem duas acho tão incrível- nossas angústias e sofrimentos de mundo e a precisão de manter a cabeça fora dagua , levar na escola, pensar o futuro , ser otimista e relativamente forte .
Mas a razão primeira da carta é te enxergar a artista da micropolítica do cuidado. Nesse mundo momento fodase com todas as letras o outro, entrar um pouco nas suas proposições artisticas foi aliviante e encorajador.
Primeiro porque te vejo longe do artista I MySelfie meu porta retrato, a antena da raça solitária com sua genialidade. Te vejo com todas as forças e garras imersa na vida tocada pelo outro de verdade. Tão bonito o trabalho do coração e seu gesto de acolhimento e delicadeza perante o outro. Os vermelhos nossos de uma existencia. De uma derrota recente.
. Vida e arte juntas . Duas filhas pra criar. O ouvido para a dor e festa alheios. O trabalho como a necessidade de perguntar cadê o outro cadê meu outro até onde posso ir como lidar.
Essa carta oficializa uma admiração e um desejo de outros  muitos diálogos. A necessidade do mundo para seus gestos  E buscas. Que bom seria multiplicadores dessa arte do cuidado.porque o hedonismo sabemos no que deu ne.  Todos freneticamente decididos a se dar bem sozinhos e cá estamos um país dividido e fascista.fascismo bateu e entrou. Sem moralismos . Um gesto solidário de estar no mundo eh política.  É mais política que nunca. Na hipótese mais egoica, cuidar do outro fortalece o cuidado comigo é o que eu tenho percebido.
Um beijo pravocê

Tiro, sala de aula, bomba

Estado violência
Deixem-me querer
Estado violência
Deixem-me pensar
Estado violência
Deixem-me sentir
Estado violência
Deixem-me em paz (Titãs, Estado Violência)

 

Tiro, escola, bomba

O permanente estado de violência e tensão que assola o Rio de Janeiro e o impacto disso na vida e educação de crianças e adolescentes só é visível quando a mídia aponta os dias em que as escolas deixaram de funcionar em razão de tiroteios e ou operações policiais. É importante o número. Mas pouco se fala sobre o impacto da violência sobre esses pequenos cidadãos em formação. Sobre o quanto o imaginário e as esperanças ficam comprometidos com o estado de guerra ou de intervenção militar. Para um menino da favela, o medo é do policial. Para um menino do asfalto, o medo é do bandido. Esses dois mundos têm muitos espaços em comum, acordam com barulho de tiro e granada, mas são dois universos com direitos e acolhimentos totalmente diferentes, como insiste em manter essa nossa sociedade injusta.

Outro ponto no limbo é se os dias letivos exigidos por lei estão sendo cumpridos na cidade do Rio de Janeiro até agora, neste 2018, por exemplo. Ou se os dados que temos até então, fornecidos pela Secretaria Municipal de Educação, atendem aos requisitos mínimos previstos na lei orgânica.

Nós, classe média, podemos até correr um certo dia com filho no colo de um tiroteio ou bomba numa região mais próxima, mas é dar a volta no quarteirão e chegar no conforto do condomínio com porteiro, câmera etc. E os meninos da favela na escola com operação policial às 17H? Senhor interventor, as crianças precisam voltar pra casa, comer, tomar banho, dormir, por exemplo. Por que operações policiais às 17h? Seria uma boa pergunta se as perguntas fossem livres durante as entrevistas dos guardiães da segurança.

A sociedade quer números e dados, mas precisa de um retrato sensível dessa infância e adolescência sob a égide da violência.  E que o poder público tenha conhecimento dos dados e dessas histórias para nortear suas ações de segurança pública – um termo inventado porque a priori não se tem exatamente um planejamento do que fazer nessa área no Rio de Janeiro nem no Brasil neste momento.

Em 2017, 165.804 alunos ficaram sem aula por causa da violência no Rio, 467 escolas foram fechadas e 400 unidades estão em locais considerados perigosos, segundo dados da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

Outro material importante de consulta é a pesquisa “Educação em Alvo – Os Efeitos da Violência Armada nas Salas de Aula”, desenvolvido pelo aplicativo Fogo Cruzado, em parceria com a DAPP/FGV (Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas).

Apenas em 2017, confrontos interromperam as aulas em 99 dos 107 dias letivos. Isto é, apenas em oito dias do primeiro semestre de 2017, todas as escolas e creches da rede municipal de Educação funcionaram. Isso é assustador!

A pesquisa “Educação em Alvo” indica que  a zona norte da cidade é o local com maior incidência de troca de tiros, com destaque para as áreas dos Complexos do Alemão (218 registros) e da Maré (119 registros). No Alemão, segundo os últimos dados disponíveis do ISP (Instituto de Segurança Pública), 21 pessoas foram mortas entre julho de 2016 e maio de 2017. Na Maré, por sua vez, 122 pessoas perderam a vida de maneira violenta no mesmo período.

A intervenção militar no Rio de Janeiro já completou 6 meses. O que foi feito para se proteger crianças e adolescentes nas áreas de risco e garantir que tenham acesso adequado à educação e ao ir e vir da escola? O que vimos foi o revoltante assassinato  de Marcus Vinicius, 14 anos, a caminho da escola na Maré.

De acordo com o laboratório de dados Fogo Cruzado, no período de 16 de fevereiro a 15 de maio, houve 2309 tiroteios/disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro. O município do Rio registrou a maior incidência de violência armada, com 1387 notificações.

Fontes do Fogo Cruzado informam que o MP tem dificuldades para fazer a fiscalização na rede municipal – Grande Rio – por falta de dados e organização dos órgãos públicos de educação. A SME foi procurada por mim mas não se manifestou.

Outro ponto de vista grotesco quando o assunto é educação e violência na cidade do Rio de Janeiro é o tratamento dado pela imprensa hegemônica. Nas situações de confrontos em favelas, numa mesma região, o jornal destaca as consequências para escolas particulares e praticamente ignora a escola pública e as crianças e adolescentes que moram na favela onde se deu o episódio de violência. Se buscarmos, por exemplo, situações de tiroteio e operações policiais na comunidade do Santa Marta, em Botafogo, veremos completa distinção, nas matérias da mídia hegemônica, no tratamento dos impactos da violência entre alunos da rede pública (EDIs e escolas públicas da região, que são muitos) e alunos da rede privada (colégios Santo Inácio e Escola Alemã, vizinhos do Santa Marta). Muitas matérias apontam as consequências e ouvem as fontes das escolas privadas – diretores, professores e alunos – enquanto os alunos das escolas públicas – que muitas vezes não conseguem nem voltar para casa em dias de tiroteio – são tratados como estatísticas ligeiras. It´s a long long long way.