Eternidade na calçada (do meu amigo André Nigri)
março 15, 2011
Eu e Ana em pé na calçada com algumas poças d’água. Era início da madrugada e soprava uma brisa fresca. Nós nos conhecemos há mais de uma década mas nos tornamos amigos somente há alguns anos. A amizade é uma forma de erotismo não há dúvida, mas é sua veste mais bela. Ela prescinde das cobranças, vigilâncias e exigências. Ela não nos obriga a nada e isso a torna a mais elevada experiência humana. Nosso assunto, que resumirei conforme minha cada vez mais traiçoeira memória me permitir, era o sonho.
“O ato de sonhar, assim como o de viver, parece melhorar á medida que avançamos no tempo, André. Quando sonhamos, somos ao mesmo tempo autor, ator e público de nossas histórias”, disse minha amiga. Talvez o sonho seja o mais antigo dos gêneros literários, eu pensei enquanto a ouvia. “Isso quer dizer que à noite, somos mais ou menos como dramaturgos”, ela disse. Um dos mistérios que torna a amizade algo ainda mais fantástico é que não precisamos muitas vezes falar, como se o outro, o amigo, já ouvisse nosso pensamento.
“Eu consigo de alguma forma controlar, ou pelo menos, direcionar meus sonhos, mesmo os pesadelos, assim como um bordado”, continuou Ana. Lembro-me de Ana me contar seu gosto pelos panos e seus bordados, uma arte que se perde no passado de sua família em Minas Gerais. “Ao lembrar de um sonho, acho que o modifico de algum jeito. E sinto que existe também uma eternidade nisso.”
Minha querida amiga terminou seu breve relato do sonho pensando na eternidade. Eu fiquei em silêncio lembrando o que Borges disse sobre o tema: que, ao deslizarmos a mão sobre o dorso de um gato experimentamos a eternidade porque os animais não têm passado ou futuro, apenas o eterno presente. Queria dizer isso à minha amiga, mas não o fiz. Agora o faço.