de caridade
Agosto 11, 2009
as duas meninas apertadas no ônibus da madrugada olhavam pela janela o pai agarrado na freira. de crucifixo e hábito a mulher queria soltar o abraço forçado do homem troncudo enquanto o pai apontava a nobre dama pras meninas espremidas no coletivo que levava as almas pra capital.
- É de caridade! É de caridade!
Fio de Papelão
Agosto 3, 2009
Editoras cartoneras se espalham pelo continente transformando papelão coletado nas ruas em objeto de arte, recheado de literatura latina; projeto iniciado na Argentina pós-crise aproxima universos improváveis como jovens de famílias de catadores, escritores, moradores de rua, acadêmicos e galeristas
# matéria resultado do prêmio Avina de Jornalismo, publicada na revista Fórum, mas, aqui, sem os cortes e edição duvidosa
Um fio sai da churrasqueira e se estende ao outro lado da parede fazendo um tipo de cortina para quem passa em direção ao banheiro do bar. Pregados no varal uma dezena de livros com títulos enormes de cores vivas, feitos com capas de papelão. Um cartaz colado na chaminé da churrasqueira anuncia beba dulcinéia, fritas, poesia, chopp, conto, Engov. Os livros são do coletivo Dulcinéia Catadora, o bar é a Mercearia São Pedro, em zona-elite de São Paulo. Os universos são um grupo que compra o papelão que virou lixo, o transforma em capa de livro e publica autores que não teriam chance em outra editora que não aquela e outros consagrados que adoraram a idéia de ver sua literatura embalada com o dejeto transformado em objeto único, numa capa pintada a guache, algumas vezes, pelo filho de um catador de papelão. Essa idéia que chegou aos bares, galerias de arte e viadutos de São Paulo em 2007 começou na Argentina, bairro La Boca pós-crise de 2001 e já se estendeu, como um vírus, por pelo menos outros cinco países latino-americanos. Não menos importante, os livros custam, em geral, irrisórios cinco dinheiros.
As editoras cartoneras podem ser lidas também como uma linha fina, colorida e poderosa entre Brasil, Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Peru e rapidamente em outros lugares onde há gente adepta da convivência no trabalho livre e de planos paralelos para a literatura. Sentados e de pincéis em punho somos todos latino-americanos? Feito um instantâneo do continente, esta idéia simples parece se contrapor a pretensiosas e burocráticas tentativas de governos e organizações em conformar algum tipo de identidade nossa. Formas criativas necessárias frente ao colapso do capital, terra, lixo, saúde e informação. “A modernidade contemporânea poderia percorrer um novo caminho, no qual os elementos emancipatórios do imaginário da modernidade – liberdade igualitária, solidariedade e novas formas de responsabilidade coletiva – pudessem sobrepor-se às instituições e giros modernizadores que traem o que surgiu como uma das grandes invenções da humanidade em sua rica e atormentada história até hoje. A América Latina parece ter de fato um papel particular a desempenhar nesse processo”, diz José Maurício Domingues, em “A América Latina e a Modernidade Contemporânea – Uma Interpretação Sociológica” (editora UFMG).
Argentina, Buenos Aires, ano 2001, a economia em profunda recessão deixa 22% da população sem emprego e sem expectativa de mudança. Quem pode negar que o contingente de 9.000 catadores de papel da capital portenha tenha engrossado a partir daí?
República de La Boca, bairro onde o futebol na Bombonera ainda aliviava os ânimos. Um poeta suburbano de codinome Washington Cucurto resolve fazer o que já matutava há tempos. Corta uma dúzia de caixas de papelão em formato de uma folha A4, tira Xerox de textos próprios, cola e pinta a capa com título e nome do autor com tinta guache, da forma mais esgarranchada e colorida possível. “Disseram que eu era louco, que papelão fedia, era sujo”, conta baixinho Cucurto, seis anos depois, enquanto não pára um instante de dobrar catálogos e capas prontas para receber cola e tinta, no ateliê sede do Eloisa Cartonera, no mesmo La Boca do princípio.
É ali que se reúnem, de segunda a sábado, o poeta e ex-vendedor de produtos químicos Ricardo, o estudante chileno Alejandro, o colombiano Juan , a ex-cartonera Míriam La Osa Poderosa e Leo de La Carto que vende o papelão que vai virar capa de livro. Se qualquer um quiser, na página da web do projeto argentino se aprende a fazer um livro cartonero a partir de um vídeo com Míriam La Osa, integrante do Eloisa há um ano. “Você corta o papelão de forma que dobrado abrace o livro, faz uma máscara branca com o título e nome do autor e depois usa as tintas a seu gosto. No Eloisa, a regra é quanto mais colorido melhor”, ensina La Osa.
Riso e avião
Míriam coletava material reciclável no bairro de La Boca desde pequena. Passou a freqüentar a sede do Eloisa e bater papo com o grupo. Bater papo e agregar gente é especialidade dela. Grande e forte, conhece toda a gente do bairro, das feiras de livro, de movimentos sociais, das universidades de Buenos Aires. Tem um riso largo e contagiante, o que certamente lhe conferiu o título Osa Poderosa. Cucurto se encantou pela cartonera, escreveu várias crônicas e artigos sobre a menina que comia lixo e algumas vezes levava presentes a eles encontrados nas suas andanças, da força e do coração de uma mulher que sabe partilhar. Ela coleciona os textos a seu respeito e pede aos visitantes do ateliê que os leiam em voz alta. Sabe ler mas não gosta muito. Prefere pintar capas e fazer empanadas. Seu maior orgulho é ter viajado de avião pelo projeto. Foi participar de uma feira de livros no Chaco, no ano passado. “Nunca imaginava que isso ia acontecer comigo”. Dá entrevistas e com um gravador na mão é capaz de fazer uma reportagem e meia com os moradores do La Boca.
Cucurto chega ao ateliê no final da tarde junto com Maria, sua substituta imediata e dona do maior grau de ação e organização naquele espaço. Trabalham juntos na impressora, põem tintas, rodam o catálogo que será levado naquele mesmo dia a um festival de cinema. Maria cobra as vendas de Juan e Alejandro, questiona sobre uma feira que foram e não venderam. Antes de chegar, porém, já tinha ligado para saber como anda o dia, quem está fazendo o quê, como está o movimento. O ateliê funciona na base do que é necessário. Se alguém precisa de uma água, o outro vai buscar, se é de papelão, idem. Trabalho colaborativo nonstop até para quem acaba de chegar. Acontece de as visitas começarem a fazer capas.
Só é possível falar com Cucurto no meio de muito trabalho. E trabalho significa que ele também terá arrumado uma incumbência para você. Trabalho é a palavra que ele mais repete. Diz que o transformou, o moldou. “Tudo depende de nós, se vamos bem ou mal, se trabalhamos mais ganhamos mais. Eu não sabia nada disso, como imprime, cola, pinta. Tudo é uma experiência, vamos aprendendo. São seis anos de cartoneria. Mas ainda vamos aprendendo dia-a-dia. O importante é que se faz o que se gosta, independente de patrão, do massacre que é esse sistema capitalista neoliberal”.
O grupo se modifica muito. O salário é um mistério. Juan diz que ganham entre 700 e 800 pesos por mês, Cucurto diz que é mais, desconfiado. Faz parte do jogo. No começo, com Javier Barilaro, havia pretensões artísticas. Com a saída do artista plástico, ficou o trabalho. Autor celebrado entre os críticos argentinos, Cucurto diz que apenas se diverte fazendo literatura. “É bom saber que se pode fazer literatura, qualquer pessoa, seja boa ou má”. Quando o assunto é o Eloisa, livro não é mais importante que fazer um alfajor ou o choripan, pão com chourizo portenho. O trabalho coletivo sim é a alma do negócio. “Antes me importava ganhar mais dinheiro para mim e minha família. Agora vejo que não é tão importante assim. Vamos fazer uma escola agrícola. As cidades também estão ficando inviáveis, é preciso voltar para o campo, nos autogerenciar e produzir o que comemos. Plantar, trabalhar a terra em conjunto, aprender. Vamos comprar um terreno, virar cooperativa, buscar financiamento”, profetiza.
Viver junto
A idéia é que a cartoneira cresça - mas não muito – uma convergência com o projeto irmão no Brasil, Dulcinéia Catadora. Do lado de cá, na sala emprestada na Vila Madalena, Lúcia Rosa não acredita em números nem propostas ribombantes. A artista plástica que coordena a editora cartonera brasileira gosta de se dedicar pessoalmente a cada um dos integrantes do Dulcinéia. Tapa os olhos de um novato para que ele se veja livre para pintar. Aquilo dá um pouco de medo no menino. Mas logo ele dispara as pinceladas. Sem cartilha, Lúcia gosta de citar Nicolas Bourriaud e sua estética relacional – arte como processo e o afeto coletivo gerado sem obrigação do objeto final.
A diversidade entre os participantes estimula a discussão e o respeito a diferenças, abrindo espaço para uma troca intensa de vivências. Compartem a mesa dos pincéis Tião, o ex-morador de rua e escritor que vai e vem, Peterson e Marlon, jovens dedicados , filhos de Ailton, catador de papelão, dois que começam a desafiar o destino e armar outros rumos para eles, Seu Israel, que apareceu no ateliê com sua pintura sui generis de bonequinhos em disparada, Carlos, cardiologista que escreve, dá moral a turma, faz curadoria e sai pra rua vestido de papelão recitando poesia nas intervenções artísticas do coletivo. “A opção é que a experiência estética seja um ato conjunto, gerando prazer no encontro e participação”, é o mantra Dulcinéia. A despeito disso, cada participante ganha uma diária de R$ 30 pelo trabalho, tudo que entra além disso é dividido em partes iguais, sem dependência de patrocínios públicos ou privados. A renda vem da venda de livros (R$ 6 reais cada) e cachês de trabalhos artísticos.
Em ritmo menos acelerado que no ateliê argentino, ali se deixa e se aproveita alguma marca do papelão em seu estado anterior, a primeira história do dejeto que depois vai ganhar a função de proteger e apresentar uma obra literária. Os meninos são estimulados a ler, escrever. Tião já lançou seu “Cátia, Simone e Outras Marvadas” pelo Dulcinéia e está preparando um próximo. Peterson gosta de fotografia e acaba de conseguir trabalho em um estúdio. Recitou poema em megafone durante intervenção artística em um festival de cinema em Minas Gerais, cuida do livro de vendas e tem seus sonhos.
Num certo dia, os meninos preparam o cartaz para evento na Mercearia São Pedro. Vão reeditar uma antologia de 2004 com as capas de papelão pintado. Num instante espicham o papelão na mesa, cada um dá sua pincelada de contribuição, Tião solta das suas… Beba Dulcinéia, a gente podia mudar o cardápio, colocar batata frita, poesia, conto, engov… Lúcia vibra. De avental sujo de tinta ela vai contando aos poucos suas próximas idéias, reforçando que o “nós” prevalece. “Não é comercial. Mas queremos, por exemplo, que os catadores comecem a vender os livros também. Ele vende o papelão mas também vende os livros, isso muda tudo, ele participa desde a coleta do lixo até o lixo transformado num objeto de maior valor, com isso ele também se dará maior valor”. Seu Ailton, pai de Peterson e Marlon, já está interessado em vender os livros. Tem esperança, mas se preocupa com o destino dos dois meninos, conta no meio do trabalho na Cooperativa de Catadores da Baixada do Glicério, com sede bem debaixo do viaduto do Glicério, centro de São Paulo. “Meu pai foi catador por 50 anos aqui, eu já fui, larguei, fiquei doente e voltei. Tem trabalho nesta cidade. O importante é não ter vergonha do que se faz”. Ailton é franzino e sorridente. Com seus 43 anos é capaz de pilotar seu carrinho catador pelas ruas da região. Carrega de 200 kg a 300 kg por viagem. O Dulcinéia Catadora chegou a comprar papelão da cooperativa do Glicério, mas agora optou por uma central mais próxima do ateliê. “Era uma briga danada para vender porque eles pagam R$ 1 o kg e o preço na época era R$ 0,20”. Um compromisso de editoras cartoneras é comprar o papelão por um preço acima do praticado no mercado de forma a valorizar a matéria-prima para literatura de primeira.
Na ponta final, os livros do Dulcinéia Catadora podem ser vistos em São Paulo na Galeria Vermelho, de arte contemporânea, livrarias, sebos e bares. Com a cara e coragem, Dulcinéia Catadora seguiu para a Flip de 2007, sofisticada feira de literatura em Paraty, oferecendo seus livros de R$ 5 , uma editora não gostou, reclamou, pense na petulância. Ronaldo Bressane, escritor brasileiro que publicou livros pelo coletivo brasileiro (“Corpo Porco Alma Lama”) e pela irmã paraguaia Yiyi Jambo, diz que não conhece autor que não doe seus escritos para uma cartonera e põe fé nos “talentos insuspeitados” que habitam as editoras, pintando livros no anonimato.
Desacreditar na arte desconectada da vida é um princípio que o Dulcinéia Catadora levou da sua origem, a Bienal de Artes de SP com o tema “Como Viver Junto”, em 2007. A curadoria convidou o Eloisa Cartonera para que reproduzisse seu trabalho ali naquele painel da arte contemporânea mundial e jovens filhos de catadores de papelão brasileiros foram chamados a participar da oficina de manufatura do livro cartonero. Ao final, uma nova editora de papelão surgia em São Paulo. Neste meio-termo, a idéia ganhava outras plagas. Em 2005, no Peru, um grupo de intelectuais criava o Sarita Cartonera que inspirou iniciativas na Bolívia (Yerba Mala) e no México (La Cartonera).
Intercâmbio selvagem
O intercâmbio entre as editoras cartoneras não é uniforme, mas existe. À uma chamada geral da editora chilena Animita Cartonera, as irmãs latinas atenderam e publicaram simultaneamente o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro. Lúcia descolou uma tradutora para a versão portuguesa e lançou uma edição bilíngüe.
A integração cartonera se dá ainda pelo curioso e potente portunhol selvagem. A língua híbrida do português, espanhol e tupi guarani é invenção do poeta Douglas Diegues, editor cartonero do selo paraguaio Yiyi Jambo. Autores brasileiros e paraguaios, como o próprio Douglas, lançaram títulos no novo idioma, sublinhando uma questão que insiste em separar Brasil dos outros países latinos quando há mais semelhanças que diferenças.
Washington Cucurto diz que não ensinou ninguém nem foi procurado pelas outras cartoneras. Foram acontecendo. Desse mesmo jeito, em uma semana, Eloisa Cartonera foi procurada, visitada, freqüentada por duas acadêmicas portuguesas – que estão fazendo pós-doutorado sobre o tema – jornalistas alemães, poloneses e artistas espanhóis que querem fazer parceria com o projeto. Sem contar críticos e professores de Literatura que se debruçam sobre a história nas suas mais variadas pegadas: sustentabilidade, convergência das artes, inclusão social, negócio inclusivo, legado criativo da crise. Você colocou a literatura latina onde deveria estar? , pergunto a Washington Cucurto. “Que sé yo!”, responde no melhor argentinês.
leodelacarto@hotmail.com
Maio 4, 2009
ana gracia por contestarme
espero vete pronto un beso
cuando vegas te pido que me conosca un
poco mas amor chau ablame
Quem tem padrinho não morre pagão
Abril 20, 2009
Minha mãe é das que guardam as provas de Matemática da 5ª série em que fui bem ou beirei o zero. As minhas e as da minha irmã, aconchegadas naquelas caixas-arquivo de papelão, na parte mais alta do armário, o que significa que toda essa papelada é revista uma vez a cada cinco anos, certamente quando estamos há um tempo lhe devendo uma visita. E foi numa dessas ausências nossas substituídas por boletins e carteirinhas do colégio estadual que minha mãe encontrou a redação – era assim o nome – em que pela primeira vez minha irmã a descrevia, talvez na terceira ou quarta série. “Minha mãe gosta mesmo é de uma lavação”. Na cabeça dos sete anos da Mônica, lavação era a mãe molhando as plantas do jardim, jogando água na terra seca do quintal quando ficava muito tempo sem chover, lavando a louça do almoço e as outras ocupações domésticas que essa mãe aos 40 anos revezava com o trabalho intelectual. A água era o que mais próximo dela enxergava a filha. Uma matéria que, para quem nasceu antes dos anos 80, nos era líquida e certa e sem culpa.
Suspeito que nos rituais aquáticos dona Cecília era menos afazeres e mais fuga de obrigações.
Neste mesmo cenário, a pergunta freqüente era se o bebê tinha chorado muito ou pouco na hora do batismo. Sinal de bom ou mau cristão? Dependia também da disposição do padre em derramar muita água na cabeça do menino, o que rendia comentários para uma semana. Mais tarde, um banho demorado era apelidado de banho Cleópatra, sabe-se lá o que a meninada pensava desse termo inventado no interior católico mineiro. Mas o certo é que a água era assim. Meu pai me deu um vidrinho de sal de fruta fechado com fita crepe e recomendou jogar em todos os cômodos da minha casa na capital. Era a água que saía do túmulo de um padre santo. A mesma depositada numa pia na entrada da Igreja onde os fiéis molhavam a ponta do dedo e esparramavam pelo rosto. A fé do meu pai na água era de nascença. Meu avô adivinhava a chegada da chuva pela virada nas folhas das laranjeiras que plantou. Meu pai levou essas laranjeiras e árvores da fazenda para a cidade onde criou família, mas alguns vizinhos reclamam até hoje das folhas sujando a calçada e algumas vezes ele acaba errando o prognóstico da chuva.
Dia de lavar a caixa d´água era um deus nos acuda. Um mau humor geral se instalava na casa. Banhos rápidos, comida boba sem variedades, o povo calado e minha mãe com a cara torcida o dia inteiro. A água chegava e tudo voltava ao seu curso normal na rua Agostinho Azevedo. Se chovia muito, além de encher a caixa d´água, a população corria para ver a praia. A praia é o córrego do Lenheiro que corta a cidade e inunda só as casas da periferia. Quem não foi inundado, corre até a beira da praia, debaixo da sombrinha, para ver o caldo grosso e marrom chegando perto da ponte e arrastando tudo.
A água pagã e religiosa de São João Del Rei é a mesma que lava as escadarias do Bonfim, coisa que de obrigatória passou a festa. Este ano se cumpriu a 254a lavação reunindo ali católicos, espíritas, seguidores do camdomblé, umbanda, ricos e pobres na Bahia. A água rompeu a hierarquia e sobrou anunciar e celebrar.
Sem ela, também não sei o que seria dos casamentos na aldeia dos Tapirapés, no norte do Mato Grosso. No final da tarde, o cacique sai abraçado com sua mulher e toalhas nos ombros. O sol está indo embora e deixa a água do riacho morna. É hora do banho-namoro naquelas bandas. O riacho fica atrás das ocas e os casais vão andando sem pressa para a higiene diária. É também no riacho que as panelas são areadas e é onde os meninos brincam. Em São Félix do Araguaia, onde de um lado é Mato Grosso e do outro é Tocantins, o rio serve para a pesca, transporte, lazer, alimentação. Mas o rio sustenta ainda o Flutuante, bar-restaurante onde se come o melhor peixe assado da cidade. Do Flutuante, os homens lançam suas varas ao rio Araguaia e depois devolvem tudo que é pescado. Sem o Flutuante, também não sei não.
Quando a margem é um rio
Março 10, 2009
Na verdade, são dois rios e duas histórias contadas em documentários brasileiros que têm em comum o conflito das pessoas com seus territórios: pessoas que sonham com outros lugares a troco de qualquer condição, e outras, forçadas a deixar o lugar de origem e reconstruir a vida em local desconhecido. Quais as implicações dessas circunstâncias nas vidas de cada um e o que os espaços constroem no imaginário é o que os filmes – Do Outro Lado do Rio, de Lucas Bambozzi, e Sumidouro, de Cris Azzi – perpassam. Ainda inéditas no circuito comercial, as obras puderam ser vistas em festivais de cinema e, em breve, terão cópias em DVD nas locadoras. Em Do Outro Lado do Rio, o cineasta Lucas Bambozzi documenta a fronteira da Guiana Francesa com o Brasil, no Amapá. O rio é a passagem para uma nova vida, com promessa de ouro, euros e Paris. São 300 quilômetros de fronteira pelo Rio Oiapoque que suscitam a aventura e a fantasia; a felicidade está lá, a despeito do perigo da ilegalidade ou da violência e do medo que permeiam as duas cidades – Oiapoque no lado brasileiro e Saint Georges de L’Oyapock, no lado francês. Nesse caso, a fronteira geográfica é artificial, pois os “dois países” são habitados por iguais, convivem com miséria, prostituição e insegurança. “Na fronteira ninguém é amigo”, avisa o personagem Grande, desertor do Exército Brasileiro para tentar a vida na Guiana Francesa. Ex-garimpeiro, Fininho diz que a principal riqueza que se pode ter nessa profissão é a memória. Mesmo deportado e preso em Belém, não se arrepende de ter chegado ilegalmente ao outro lado. Os que ficam e os que vão estão sempre em conflito com o lugar eleito e carregam o anterior de alguma maneira – um território só existe em razão do outro, ou do que se imagina desse outro. Seja pelo medo de não ser bem-sucedido na empreitada ou ter de permanecer no mesmo lugar, todos estão em movimento. “Tenho muitas fantasias, quem não tem?”, pergunta a prostituta Telma, que se joga na saga de viver entre garimpos fazendo programas entre a gente tão ilegal e deslocada como ela. Para os travestis, aquela cidade pobre e decadente é o começo de Paris. O único consolo em meio à violência, medo e desilusões é a certeza de que sempre é tempo de voltar para casa. Já em Sumidouro, de Cris Azzi, o rio também é um território comum, mas desta vez ele vai subir, virar represa e inundar 42 comunidades para construção de uma usina hidrelétrica. A despeito das diferentes opiniões sobre a mudança forçada de casa, aquele território será “carregado” pelas cerca de 5 mil pessoas atingidas onde quer que estejam. Não se pode dizer se o afeto ou apego ao lugar de origem, também precário e miserável, tenha se fortalecido em consequência de uma Imposição externa. Mas na nova moradia – um chapadão seco de casas idênticas e planejadas em contraposição ao vale à beira do rio onde moravam – a vida não começa do zero. A ponto de Jaime visitar, nos primeiros dias, em sua canoa, o antigo espaço já completamente inundado. Numa imensidão de água, ele elenca lugares imaginários para as casas, o pé de manga que tinha na porta da cozinha, a origem das coisas. Dessa maneira há de se pensar que Nova Peixe Cru – nome dado para a vila que vai abrigar os deslocados pela barragem – seja um nome apropriado, porque contém o anterior, Peixe Cru, a mistura territorial que vai permear para sempre a vida daquelas pessoas. “As pessoas podem achar que é difícil, mas onde você vive é a sua raiz”, diz a dona de casa Sandra, entre lágrimas, ao deixar o lar à margem do rio. O curioso, conta o cineasta Cris Azzi, é que os moradores deixaram a beira do rio para a beira da estrada, mais um lugar que leva e traz. Outro ponto que merece análise é a opção – como refugiados ambientais – de um reassentamento coletivo. Cada um poderia buscar sua indenização e partir para o canto escolhido, mas as comunidades decidiram ir juntas para o mesmo lugar, mantendo até a vizinhança de outrora. Do ponto de vista político, relata o documentarista, as comunidades precisaram se organizar, criar associações e se fortaleceram para o debate com a companhia energética. O processo começou em 2002, quando receberam a notícia da construção da usina, mas a mudança para a nova vila só ocorreu em 2006. “Gerou angústia porque levou muito tempo. Angústia de saber como ia ser a casa nova, de quando ia sair o dinheiro; quase uma suspensão da vida, porque a mudança não acontecia, a obra atrasava, tinha gente que queria se casar, mas não tinha casa para morar.” Com foco nos territórios em movimento e nos conflitos das pessoas com esses espaços, os dois filmes podem ser pensados também por suas diferenças. Enquanto Do Outro Lado do Rio exibe personagens em busca de satisfações individuais e desarraigados dos locais de origem, Sumidouro mostra a força coletiva que surge quando seu lugar é ameaçado. Mesmo com diferentes opiniões sobre o deslocamento forçado, há uma unidade, uma organização que brota da emergência.
O que te toca?
Fevereiro 12, 2009
O que te toca? Aos 46 minutos de 2008, munida da pergunta e de um manto de livros, Dulcinéia Catadora saiu em busca da gente no Parque Dom Pedro, o lugar das idas e vindas no centro de São Paulo. Para quebrar o gelo, Dulcinéia comprou uma água de côco, parou na praça, olhou os jogadores de cartas, o arco da entrada da estação de trem suando no calor descomunal. Jogou uma conversa fora com o vendedor de pilhas, celular, mp3, fitas, DVDs e obteve sua primeira resposta. Ele abriu o livro em branco no peito da mulher e desfiou suas linhas, uma mistura da miséria da existência e da esperança que ele guarda no intervalo do trabalho. Dulcinéia levantou, agradeceu e nem percebeu que a gente não andava tão corrida assim, tão mercenária assim; talvez mais pra cansada. Aprumou sua armadura de papelão e saiu rebolando cores pelas ruelas do parque. No ponto de ônibus encontrou sorrisos; engraçado; a gente não quer chegar em casa logo? E sapecou mais uma história no livro em branco no centro do vestido. “Meu amor, você não entende, tudo o que eu faço é pra você; minha dor é você não perceber; eu espero que nesse 2009…” Dulcinéia ainda tentou retrucar em favor das mulheres, os tempos estão difíceis, veja você, estamos aqui, nossa família, trabalhando, ela deve trabalhar muito, bobo, te liga, nego. Carlos embarcou conformado, isso ela supôs pelo risão branco desinteressado que lhe devolveu do alto do Estrada das Lágrimas, Sacomã, que já enfumaçava o cenário. Tratou de engatar mais umas palavras com a gente do ponto, as donas chupavam manga com gosto, o estagiário riu de canto no aparelho fixo. Não é que se tocavam? Deu a última rabiola no ponto e entrou numa discussão quente na carroça de manga. O rapa, olha que o rapa vem, lá vem eles porque os rapa não tem condição. Anotou tudo direitinho, o vizinho, o conhecido, o menino que apareceu com a boca aberta, a compra do ano que sumiu no caveirão fazendo a curva, o mesmo homem que pergunta as mesmas coisas, o que não pergunta coisas e bate igual, as aflições, as aflições. Dulcinéia quedou em silêncio. Não tinha reservatório para aquela hora. Fez reverência com seu saiote-papelão e seguiu em frente mastigando um abacaxi amarelo. Colheu mais umas histórias de amor, sempre o amor a refrigerar a gente. Paulo, meu rei, Ana Amália me toca, Sabino, seu desgramado, ainda te pego, Carlinha no céu e na terra. Parou a reparar quem ganhava o truco e notou que tinham ali muitas coisas para o livro branco. Só não tinham a munição das palavras. Dulcinéia arqueou seu saco de papelão e emprestou umas palavras gastas, outras bem novinhas e eles foram experimentando, os jogadores. Bons jogadores na vida, tinham saído de longe para chegar até a praça. Tinham feito casa, cheques, filhos, entregas, dirigido caminhões, ido a muitas festas de 15 anos. As folhas brancas que caíam sobre as suas cabeças eles espanavam com orgulho. E tiveram alegria com o pacote de letras, trocavam elas de lugar numa satisfação de modo que não arredavam o pé das próprias linhas para o livro branco e desancaram o palavreado, assim só por surpresa: toca banda, boi, boiada, circo, jardim, carambola, cuca fresca, Petrolina, pau de arara, pau de sebo, arranca-rabo, sangue de boi, cruz vermelha, patroa, coroinha. Dulcinéia, a seu passo, achou boa essas novas jogadas aprendidas com os jogadores. Acenou à turma e seguiu rumo ao churrasquinho. Ali foi uma dificuldade porque o povo tem fome e a tora de carne vai definhando conforme a hora; no almoço é um deus nos acuda, fila que não acaba mais. É Cuma? Perguntou o responsável. Um livro aberto em branco aqui ó. Você pode escrever o que quiser, fio, vai, abusa. Não, não posso parar não madame. Nesse quadrado aqui é o dia inteiro, abre o pão, corta a carne, passa o rodo, roda o bifão sanguinolento, pingando gordura e aí tem os pombos, sacou? Apavorada com a suadeira, Dulcinéia esbarrou na melancia que saía como água. Para a felicidade de Josué, ele deu ponto final àquele capítulo do livro branco com seu garrancho espalhafatoso de uma página carimbado no peito da moça: O que me toca é a mão.
happy together
Fevereiro 5, 2009
Nas águas termais de Eger eu não sinto vontade de perguntar nada para um húngaro
Há uma convenção nacional de não pedir informação
Hungria é sobre comer, bons vinhos, bom sexo
Gente do campo da Transilvânia é diferente, morangos, ursos, gente fazendo nada
Nós perdemos 3 guerras meu amor durante o comunismo os espiões queriam saber da sua vida
Hoje ninguém quer saber da vida de ninguém, foda-se o outro
Nos prometeram o paraíso na união européia, our wonderland baby e nos fuderam mais ainda
50% é imposto que eu pago
Meu território é menos 2/3
Que paraíso é esse?
Por isso nos odeiam todos em volta. Os feios romenos, fucking austríacos – os franceses, caralho, levaram nossa terra.
Marrom, branco, amarelo e rosa, it´s winter
Então me faz uma massagem e só tem uma regra: não pode sentir frio, seu dedo vai cair se você fumar boba
I´m the king. Youre the Queen.
The wonderland never lies. So everybody is looking for happiness, come on guys i´ll never see again, stop this George soros company, lets have some Chimays. Papa, my dog, don’t stop.
Io io io everybody goes in this ox year 2000 in love concordando em amarelo e cinza lá vai a boiada no metrô – você não fechou a porta honey. You´re so sexy, the way you look, the way you move, move to budapest.
Se você vier mais devagar eu posso pensar. E fazer kung fu noturno quando você menos esperar.
Essa realidade cega que você vê em quadrados verdes e amarelos de varandas socialistas your monkey
Pega a linha amarelo, amor – porque eu sou mais antiga e não agüento mais essa jaqueta vermelha em toda foto
É do flamengo Darling. O time do coração gelado do Szabolcs que é , por isso, casado com a Petra – um nome tão lindo que eu daria pra filha húngara-mineira, aquele bebê esquimó que levaríamos pra Egerszlouc. Em janeiro, com chaves e luvas e uma linda jaqueta vermelha, you know, só pra manter a tradição my hungarian dog. E então quando você fechar seus cílios vermelhos eu dobro a perna por cima e fazemos kung fu IF you like it. Com silêncio de castelo, of course. Pulamos as pontes e vamos dar em Lilafured com um heating de despelar minha marronzice – Holiday on ice. Mergulha de novo preu ver seu queixo nadando em baileys que não me dá sossego. Ri nervoso pede lílou kisses só pra me atentar com esse V sem vergonha seu dominadorzinho de merda não pode ver uma boceta que acha que ta no caribe. Come doce, come. Esse caramelo eu que fiz e vai bem no seu casaco de pele podre, aquele que CE levou pra Eslováquia e o caçador roubou. De roubo eu entendo – eles prometem smurfs e lá vem o Lada branco estrada afora espirrando neve na gente. É neve que não me atola mais, meu pé grudou na caverna, pega seu lenço palestino e enrolamos a arma pra fazer uns servicinhos aí, começamos em kelvin ter sua pele seca vai rir em wrapped ciroulas até que seu pai nunca mais vai te emprestar o carro e ninguém vai deslizar na estrada, seu puto, nem angel´s faces. Essas, my Darling, vão direto pro Brasil, queimar no fogo do Olodum, fogueira de pestana desavisada. E esse cansativo turismo sexual virar cinzas de carnaval.
2009
Janeiro 12, 2009
6 meses em Buda
6 meses em Peste
inverno brasileiro
verão do leste
way
Dezembro 17, 2008

Natural toca o barco rio Araguaia afora, foto do Pedro Silveira
