zapeando
abril 29, 2012
o medo é a palavra. a perda. o silêncio. não rolar. o dia em que hoje pá. ponto. vá. encontro. o novelo da linha. interrompida. insípida. rala. a quebra não, a quebra vá lá. a volta que seja. o fim.
Meu encontro com Tonino – Monica d´Angelo
março 22, 2012
Até meados do ano passado, minha ignorância não me permitiu conhecer tonino guerra. Até que veio o ano da Itália no Brasil e com ele a possibilidade de homenagear um italiano multiartista: poeta, roteirista, produtor, cineasta, pintor, artista plástico. É possível tudo isso? Pensava eu.
A pergunta me intrigou e, aliada ao meu projeto de passar dois meses na Itália pra estudar e decidida finalmente a aprender a língua – comecei a pesquisar sobre ele. Perguntava a algumas pessoas que sim, claro, conheciam, outras nem tanto. Fui lendo e conhecendo mais sobre sua obra. Meu grande incentivador foi Gianfranco zavalloni, diretor de cultura do consulado da Itália em belo horizonte. Grande conhecedor e também amigo de tonino, ele me mostrou fotos, livros, poesias e trabalhos. Tonino foi tomando forma pra mim.
E então chegou a mostra cinebh em outubro e homenageamos o tonino. Exibimos alguns filmes com seu roteiro, direção e colaboração. A exposição de suas obras – umas pinturas lindas e coloridas, cheias de borboletas – não aconteceu. Mas ganhei uma pra minha casa que me traz tanta alegria toda vez que entro na sala e vejo aquela farfalla rosa sorrindo pra mim com uma frase tanto feliz: Il cuore ti vuole bene.
Uma semana depois embarco pra Itália com o troféu barroco, catalogo e expectativa pra ver o tonino. Um mês depois de estudos finalmente chego a Bologna de onde pego um trem pra rimini. E lá, com a intermediação de zavalloni, me encontro com Carlo Sancisi, presidente da Associação Cultural Tonino Guerra. Ele, tanto gentil, me busca na cidade e me leva pra Santarcangelo di Romana, cidade do tonino.
Eu temia meu italiano mediano, temia não saber conseguir conversar nem mesmo entender o que ele dissesse. Mas fui, me achando, e com a plena consciência que o universo e a universo estavam me dando uma oportunidade única. A rua já tinha um encanto. A casa parecia de joãzinho e Maria e ali parecia mesmo morar uma fábula.
Ele me recebeu com carinho, com uma voz rouca e cansada, sentado num sofá numa pequena sala, compartilhada com tantos gatos e um cão enorme e bastante velho, que agora me foge o nome… acho que era barba…Conversamos sobre o cinema, sobre os problemas nas traduções de suas obras, sobre influências, sobre a vida….Por um tempo eu parecia falar em italiano e ele em português, nos entendemos perfeitamente, fizemos fotos e ele me indicou tantos filmes. Alguns deles, ainda inéditos de sua parceria com Fellini fez questão que eu assistisse no cinema da Associação. Nunca nessa vida vou me esquecer essa sessão. Era pura magia.
Saí de lá tão feliz com a certeza de que aquele 29 de novembro de 2012 foi o dia mais feliz da minha vida. Esqueci de todo o resto, olhava pro céu estrelado e frio e só conseguia agradecer aquele momento. Il giorno piu felice della mia vita.
Hoje levei um susto com a notícia da morte dele dada por minha irmã por mensagem de celular. Parei no tempo por alguns minutos e me lembrei de todos os detalhes. Sabia de sua doença e de que, a cada dia estava pior. Mas estranho essa tal de morte. Com 92 anos recém completados ele parecia que não ia morrer. Era cheio de projeto, conversa e gente na sua casa.
A casa de Joãozinho e Maria hoje está menos doce, bem menos doce. E como disse Andrea, seu filho, o silêncio entrou naquela casa.
a capulana e a bolha imobiliária
fevereiro 11, 2012
pensei que enfim 2012, antes do desmentido nas redes sociais, fosse hoje. o fatídico, o terrível, o alívio do fim de tudo. blocos de cimento caíam como chuva pela vidraça e a marreta – símbolo do sindicato dos trabalhadores da construção civil descia sem dó. três pedreiros de uma vez, sem audissom nem protetor nem o caralho. só os corpinhos empoeirados pendurados, homens-aranhas do crato, de juazeiro, do mundão do trabalho a rodo na bolha da vez do mercado imobiliário paulistano. no radinho, o brega. no primeiro andar, a felicidade da síndica que nutre a viuvez dos arranjos com os iguais do prédio, botando a pensão onde enxerga: paredes, revestimento, decoração de velório no hall, coleções de telas de natureza morta no elevador e plaquetas de proibições kassabistas. os bravos do norte ainda sorriram pra uma foto de cybershot acinzentado e descem a porrada nas pastilhas da década de 70 que eu simpatizava. numa marretada mais violenta, a parede começa a rachar, a mesa do lado, a coleção de revistas, pôsteres de filmes, pílulas de prímoris escorregando, fotos de família pelas tabelas. a capulana que cobre a janela agora é pálida, a áfrica sucumbiu às cores da megalópole.
quando a saudade aperta, quando a saudade aperta
setembro 21, 2011
enfileirados no banco de concreto os garis de azul de guarulhos zapearam a playlist até o último passageiro de terno e gravata modestos embarcar no conexão pça da república/augusta. depois na escuridão um tirou a blusa e exibiu verde e amarelo na camiseta machão, braços finos e fortes de arrastar lixo e comer pouco.
toda pretensão é uma ansiedade
setembro 20, 2011
o encontro
setembro 20, 2011
aqueles dois olhos azuis derrubaram meu voguinho menta. e a mão rechonchuda agarrou firme meu punho e escancarou uma boca banguela maior que eu supunha. os olhos desviaram para o elefante de madeira. eu procurei outros animais de decoração afobada. ele era lento na observação e rápido na mudança de ideia. então comecei a trepidar as pernas como eu vejo as tias fazerem e ele inclinava o corpinho pra trás de prazer e voltava cambaleante e me pedia outra coisa uma girafa um ritmo novo um trrrrrrrrrrr. a nossa conversa acabou junto com a reunião da mãe.
Eternidade na calçada (do meu amigo André Nigri)
março 15, 2011
Eu e Ana em pé na calçada com algumas poças d’água. Era início da madrugada e soprava uma brisa fresca. Nós nos conhecemos há mais de uma década mas nos tornamos amigos somente há alguns anos. A amizade é uma forma de erotismo não há dúvida, mas é sua veste mais bela. Ela prescinde das cobranças, vigilâncias e exigências. Ela não nos obriga a nada e isso a torna a mais elevada experiência humana. Nosso assunto, que resumirei conforme minha cada vez mais traiçoeira memória me permitir, era o sonho.
“O ato de sonhar, assim como o de viver, parece melhorar á medida que avançamos no tempo, André. Quando sonhamos, somos ao mesmo tempo autor, ator e público de nossas histórias”, disse minha amiga. Talvez o sonho seja o mais antigo dos gêneros literários, eu pensei enquanto a ouvia. “Isso quer dizer que à noite, somos mais ou menos como dramaturgos”, ela disse. Um dos mistérios que torna a amizade algo ainda mais fantástico é que não precisamos muitas vezes falar, como se o outro, o amigo, já ouvisse nosso pensamento.
“Eu consigo de alguma forma controlar, ou pelo menos, direcionar meus sonhos, mesmo os pesadelos, assim como um bordado”, continuou Ana. Lembro-me de Ana me contar seu gosto pelos panos e seus bordados, uma arte que se perde no passado de sua família em Minas Gerais. “Ao lembrar de um sonho, acho que o modifico de algum jeito. E sinto que existe também uma eternidade nisso.”
Minha querida amiga terminou seu breve relato do sonho pensando na eternidade. Eu fiquei em silêncio lembrando o que Borges disse sobre o tema: que, ao deslizarmos a mão sobre o dorso de um gato experimentamos a eternidade porque os animais não têm passado ou futuro, apenas o eterno presente. Queria dizer isso à minha amiga, mas não o fiz. Agora o faço.
dulcinéias na mercearia
novembro 19, 2009
de caridade
agosto 11, 2009
as duas meninas apertadas no ônibus da madrugada olhavam pela janela o pai agarrado na freira. de crucifixo e hábito a mulher queria soltar o abraço forçado do homem troncudo enquanto o pai apontava a nobre dama pras meninas espremidas no coletivo que levava as almas pra capital.
- É de caridade! É de caridade!
Fio de Papelão
agosto 3, 2009
Editoras cartoneras se espalham pelo continente transformando papelão coletado nas ruas em objeto de arte, recheado de literatura latina; projeto iniciado na Argentina pós-crise aproxima universos improváveis como jovens de famílias de catadores, escritores, moradores de rua, acadêmicos e galeristas
# matéria resultado do prêmio Avina de Jornalismo, publicada na revista Fórum, mas, aqui, sem os cortes e edição duvidosa
Um fio sai da churrasqueira e se estende ao outro lado da parede fazendo um tipo de cortina para quem passa em direção ao banheiro do bar. Pregados no varal uma dezena de livros com títulos enormes de cores vivas, feitos com capas de papelão. Um cartaz colado na chaminé da churrasqueira anuncia beba dulcinéia, fritas, poesia, chopp, conto, Engov. Os livros são do coletivo Dulcinéia Catadora, o bar é a Mercearia São Pedro, em zona-elite de São Paulo. Os universos são um grupo que compra o papelão que virou lixo, o transforma em capa de livro e publica autores que não teriam chance em outra editora que não aquela e outros consagrados que adoraram a idéia de ver sua literatura embalada com o dejeto transformado em objeto único, numa capa pintada a guache, algumas vezes, pelo filho de um catador de papelão. Essa idéia que chegou aos bares, galerias de arte e viadutos de São Paulo em 2007 começou na Argentina, bairro La Boca pós-crise de 2001 e já se estendeu, como um vírus, por pelo menos outros cinco países latino-americanos. Não menos importante, os livros custam, em geral, irrisórios cinco dinheiros.
As editoras cartoneras podem ser lidas também como uma linha fina, colorida e poderosa entre Brasil, Bolívia, Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Peru e rapidamente em outros lugares onde há gente adepta da convivência no trabalho livre e de planos paralelos para a literatura. Sentados e de pincéis em punho somos todos latino-americanos? Feito um instantâneo do continente, esta idéia simples parece se contrapor a pretensiosas e burocráticas tentativas de governos e organizações em conformar algum tipo de identidade nossa. Formas criativas necessárias frente ao colapso do capital, terra, lixo, saúde e informação. “A modernidade contemporânea poderia percorrer um novo caminho, no qual os elementos emancipatórios do imaginário da modernidade – liberdade igualitária, solidariedade e novas formas de responsabilidade coletiva – pudessem sobrepor-se às instituições e giros modernizadores que traem o que surgiu como uma das grandes invenções da humanidade em sua rica e atormentada história até hoje. A América Latina parece ter de fato um papel particular a desempenhar nesse processo”, diz José Maurício Domingues, em “A América Latina e a Modernidade Contemporânea – Uma Interpretação Sociológica” (editora UFMG).
Argentina, Buenos Aires, ano 2001, a economia em profunda recessão deixa 22% da população sem emprego e sem expectativa de mudança. Quem pode negar que o contingente de 9.000 catadores de papel da capital portenha tenha engrossado a partir daí?
República de La Boca, bairro onde o futebol na Bombonera ainda aliviava os ânimos. Um poeta suburbano de codinome Washington Cucurto resolve fazer o que já matutava há tempos. Corta uma dúzia de caixas de papelão em formato de uma folha A4, tira Xerox de textos próprios, cola e pinta a capa com título e nome do autor com tinta guache, da forma mais esgarranchada e colorida possível. “Disseram que eu era louco, que papelão fedia, era sujo”, conta baixinho Cucurto, seis anos depois, enquanto não pára um instante de dobrar catálogos e capas prontas para receber cola e tinta, no ateliê sede do Eloisa Cartonera, no mesmo La Boca do princípio.
É ali que se reúnem, de segunda a sábado, o poeta e ex-vendedor de produtos químicos Ricardo, o estudante chileno Alejandro, o colombiano Juan , a ex-cartonera Míriam La Osa Poderosa e Leo de La Carto que vende o papelão que vai virar capa de livro. Se qualquer um quiser, na página da web do projeto argentino se aprende a fazer um livro cartonero a partir de um vídeo com Míriam La Osa, integrante do Eloisa há um ano. “Você corta o papelão de forma que dobrado abrace o livro, faz uma máscara branca com o título e nome do autor e depois usa as tintas a seu gosto. No Eloisa, a regra é quanto mais colorido melhor”, ensina La Osa.
Riso e avião
Míriam coletava material reciclável no bairro de La Boca desde pequena. Passou a freqüentar a sede do Eloisa e bater papo com o grupo. Bater papo e agregar gente é especialidade dela. Grande e forte, conhece toda a gente do bairro, das feiras de livro, de movimentos sociais, das universidades de Buenos Aires. Tem um riso largo e contagiante, o que certamente lhe conferiu o título Osa Poderosa. Cucurto se encantou pela cartonera, escreveu várias crônicas e artigos sobre a menina que comia lixo e algumas vezes levava presentes a eles encontrados nas suas andanças, da força e do coração de uma mulher que sabe partilhar. Ela coleciona os textos a seu respeito e pede aos visitantes do ateliê que os leiam em voz alta. Sabe ler mas não gosta muito. Prefere pintar capas e fazer empanadas. Seu maior orgulho é ter viajado de avião pelo projeto. Foi participar de uma feira de livros no Chaco, no ano passado. “Nunca imaginava que isso ia acontecer comigo”. Dá entrevistas e com um gravador na mão é capaz de fazer uma reportagem e meia com os moradores do La Boca.
Cucurto chega ao ateliê no final da tarde junto com Maria, sua substituta imediata e dona do maior grau de ação e organização naquele espaço. Trabalham juntos na impressora, põem tintas, rodam o catálogo que será levado naquele mesmo dia a um festival de cinema. Maria cobra as vendas de Juan e Alejandro, questiona sobre uma feira que foram e não venderam. Antes de chegar, porém, já tinha ligado para saber como anda o dia, quem está fazendo o quê, como está o movimento. O ateliê funciona na base do que é necessário. Se alguém precisa de uma água, o outro vai buscar, se é de papelão, idem. Trabalho colaborativo nonstop até para quem acaba de chegar. Acontece de as visitas começarem a fazer capas.
Só é possível falar com Cucurto no meio de muito trabalho. E trabalho significa que ele também terá arrumado uma incumbência para você. Trabalho é a palavra que ele mais repete. Diz que o transformou, o moldou. “Tudo depende de nós, se vamos bem ou mal, se trabalhamos mais ganhamos mais. Eu não sabia nada disso, como imprime, cola, pinta. Tudo é uma experiência, vamos aprendendo. São seis anos de cartoneria. Mas ainda vamos aprendendo dia-a-dia. O importante é que se faz o que se gosta, independente de patrão, do massacre que é esse sistema capitalista neoliberal”.
O grupo se modifica muito. O salário é um mistério. Juan diz que ganham entre 700 e 800 pesos por mês, Cucurto diz que é mais, desconfiado. Faz parte do jogo. No começo, com Javier Barilaro, havia pretensões artísticas. Com a saída do artista plástico, ficou o trabalho. Autor celebrado entre os críticos argentinos, Cucurto diz que apenas se diverte fazendo literatura. “É bom saber que se pode fazer literatura, qualquer pessoa, seja boa ou má”. Quando o assunto é o Eloisa, livro não é mais importante que fazer um alfajor ou o choripan, pão com chourizo portenho. O trabalho coletivo sim é a alma do negócio. “Antes me importava ganhar mais dinheiro para mim e minha família. Agora vejo que não é tão importante assim. Vamos fazer uma escola agrícola. As cidades também estão ficando inviáveis, é preciso voltar para o campo, nos autogerenciar e produzir o que comemos. Plantar, trabalhar a terra em conjunto, aprender. Vamos comprar um terreno, virar cooperativa, buscar financiamento”, profetiza.
Viver junto
A idéia é que a cartoneira cresça - mas não muito – uma convergência com o projeto irmão no Brasil, Dulcinéia Catadora. Do lado de cá, na sala emprestada na Vila Madalena, Lúcia Rosa não acredita em números nem propostas ribombantes. A artista plástica que coordena a editora cartonera brasileira gosta de se dedicar pessoalmente a cada um dos integrantes do Dulcinéia. Tapa os olhos de um novato para que ele se veja livre para pintar. Aquilo dá um pouco de medo no menino. Mas logo ele dispara as pinceladas. Sem cartilha, Lúcia gosta de citar Nicolas Bourriaud e sua estética relacional – arte como processo e o afeto coletivo gerado sem obrigação do objeto final.
A diversidade entre os participantes estimula a discussão e o respeito a diferenças, abrindo espaço para uma troca intensa de vivências. Compartem a mesa dos pincéis Tião, o ex-morador de rua e escritor que vai e vem, Peterson e Marlon, jovens dedicados , filhos de Ailton, catador de papelão, dois que começam a desafiar o destino e armar outros rumos para eles, Seu Israel, que apareceu no ateliê com sua pintura sui generis de bonequinhos em disparada, Carlos, cardiologista que escreve, dá moral a turma, faz curadoria e sai pra rua vestido de papelão recitando poesia nas intervenções artísticas do coletivo. “A opção é que a experiência estética seja um ato conjunto, gerando prazer no encontro e participação”, é o mantra Dulcinéia. A despeito disso, cada participante ganha uma diária de R$ 30 pelo trabalho, tudo que entra além disso é dividido em partes iguais, sem dependência de patrocínios públicos ou privados. A renda vem da venda de livros (R$ 6 reais cada) e cachês de trabalhos artísticos.
Em ritmo menos acelerado que no ateliê argentino, ali se deixa e se aproveita alguma marca do papelão em seu estado anterior, a primeira história do dejeto que depois vai ganhar a função de proteger e apresentar uma obra literária. Os meninos são estimulados a ler, escrever. Tião já lançou seu “Cátia, Simone e Outras Marvadas” pelo Dulcinéia e está preparando um próximo. Peterson gosta de fotografia e acaba de conseguir trabalho em um estúdio. Recitou poema em megafone durante intervenção artística em um festival de cinema em Minas Gerais, cuida do livro de vendas e tem seus sonhos.
Num certo dia, os meninos preparam o cartaz para evento na Mercearia São Pedro. Vão reeditar uma antologia de 2004 com as capas de papelão pintado. Num instante espicham o papelão na mesa, cada um dá sua pincelada de contribuição, Tião solta das suas… Beba Dulcinéia, a gente podia mudar o cardápio, colocar batata frita, poesia, conto, engov… Lúcia vibra. De avental sujo de tinta ela vai contando aos poucos suas próximas idéias, reforçando que o “nós” prevalece. “Não é comercial. Mas queremos, por exemplo, que os catadores comecem a vender os livros também. Ele vende o papelão mas também vende os livros, isso muda tudo, ele participa desde a coleta do lixo até o lixo transformado num objeto de maior valor, com isso ele também se dará maior valor”. Seu Ailton, pai de Peterson e Marlon, já está interessado em vender os livros. Tem esperança, mas se preocupa com o destino dos dois meninos, conta no meio do trabalho na Cooperativa de Catadores da Baixada do Glicério, com sede bem debaixo do viaduto do Glicério, centro de São Paulo. “Meu pai foi catador por 50 anos aqui, eu já fui, larguei, fiquei doente e voltei. Tem trabalho nesta cidade. O importante é não ter vergonha do que se faz”. Ailton é franzino e sorridente. Com seus 43 anos é capaz de pilotar seu carrinho catador pelas ruas da região. Carrega de 200 kg a 300 kg por viagem. O Dulcinéia Catadora chegou a comprar papelão da cooperativa do Glicério, mas agora optou por uma central mais próxima do ateliê. “Era uma briga danada para vender porque eles pagam R$ 1 o kg e o preço na época era R$ 0,20”. Um compromisso de editoras cartoneras é comprar o papelão por um preço acima do praticado no mercado de forma a valorizar a matéria-prima para literatura de primeira.
Na ponta final, os livros do Dulcinéia Catadora podem ser vistos em São Paulo na Galeria Vermelho, de arte contemporânea, livrarias, sebos e bares. Com a cara e coragem, Dulcinéia Catadora seguiu para a Flip de 2007, sofisticada feira de literatura em Paraty, oferecendo seus livros de R$ 5 , uma editora não gostou, reclamou, pense na petulância. Ronaldo Bressane, escritor brasileiro que publicou livros pelo coletivo brasileiro (“Corpo Porco Alma Lama”) e pela irmã paraguaia Yiyi Jambo, diz que não conhece autor que não doe seus escritos para uma cartonera e põe fé nos “talentos insuspeitados” que habitam as editoras, pintando livros no anonimato.
Desacreditar na arte desconectada da vida é um princípio que o Dulcinéia Catadora levou da sua origem, a Bienal de Artes de SP com o tema “Como Viver Junto”, em 2007. A curadoria convidou o Eloisa Cartonera para que reproduzisse seu trabalho ali naquele painel da arte contemporânea mundial e jovens filhos de catadores de papelão brasileiros foram chamados a participar da oficina de manufatura do livro cartonero. Ao final, uma nova editora de papelão surgia em São Paulo. Neste meio-termo, a idéia ganhava outras plagas. Em 2005, no Peru, um grupo de intelectuais criava o Sarita Cartonera que inspirou iniciativas na Bolívia (Yerba Mala) e no México (La Cartonera).
Intercâmbio selvagem
O intercâmbio entre as editoras cartoneras não é uniforme, mas existe. À uma chamada geral da editora chilena Animita Cartonera, as irmãs latinas atenderam e publicaram simultaneamente o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro. Lúcia descolou uma tradutora para a versão portuguesa e lançou uma edição bilíngüe.
A integração cartonera se dá ainda pelo curioso e potente portunhol selvagem. A língua híbrida do português, espanhol e tupi guarani é invenção do poeta Douglas Diegues, editor cartonero do selo paraguaio Yiyi Jambo. Autores brasileiros e paraguaios, como o próprio Douglas, lançaram títulos no novo idioma, sublinhando uma questão que insiste em separar Brasil dos outros países latinos quando há mais semelhanças que diferenças.
Washington Cucurto diz que não ensinou ninguém nem foi procurado pelas outras cartoneras. Foram acontecendo. Desse mesmo jeito, em uma semana, Eloisa Cartonera foi procurada, visitada, freqüentada por duas acadêmicas portuguesas – que estão fazendo pós-doutorado sobre o tema – jornalistas alemães, poloneses e artistas espanhóis que querem fazer parceria com o projeto. Sem contar críticos e professores de Literatura que se debruçam sobre a história nas suas mais variadas pegadas: sustentabilidade, convergência das artes, inclusão social, negócio inclusivo, legado criativo da crise. Você colocou a literatura latina onde deveria estar? , pergunto a Washington Cucurto. “Que sé yo!”, responde no melhor argentinês.
